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Ensaio sobre a lucidez

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim,


O que  é o voto em branco? Um direito, uma manifestação em silêncio, algo que torna o sistema democrático ingovernável, atingindo o coração da democracia como nenhum sistema totalitário pode fazer, uma renúncia, uma desilusão, uma cegueira, uma lucidez?

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Ensaio sobre a lucidez de José Saramago a fim de completar a nossa téssera. A leitura nos permitiu observar vários aspectos do voto em branco. Debruçamo-nos sobre alguns neste post e os ampliamos através dos links.

O que é um direito? É uma questão de mérito? Nossos direitos são realmente nossos? Os momentos de crise são aqueles em que nossos direitos não são respeitados? Como um direito não respeitado pode existir? Encontramos em nossa leitura que um direito só existe em potência no dever de que seja respeitado e cumprido. Encontramos também que um direito só existe no papel. Os direitos só o são integralmente nas palavras com que tenham sido enunciados e no pedaço de papel em que hajam sido consignados. A sua aplicação inconsiderada convulsionaria a sociedade.

Consideremos uma eleição em que a quantidade de votos em branco seja superior a 80%. O que faz o governo diante disso? Ele toma as devidas providências. Primeiro cria um paradoxo, considerando que houve um uso legal abusivo do direito do voto em branco. Depois, recorre a espionagem e interrogatório a fim de descobrir os envolvidos no uso abusivo. Falhando, declara que a capital (onde ocorreu a maioria dos votos em branco) encontra-se em estado de sítio. O governo se retira da capital e o exército a cerca. Cogita-se como próximo passo a construção de um muro que a separe do restante do país. Finalmente haverá mudanças na lei eleitoral: o voto em branco passa a equivaler ao voto nulo ou não há mais voto em branco ou distribuem-se igualmente os votos em branco por todos os partidos ou sei lá que mais. Paralelamente às estratégias oficiais, temos atentados e saques forjados, sabotagens, falsificações...

A ação das autoridades também se dá através da palavra. Procura-se primeiro um adjetivo que possa desqualificar os que votaram em branco – indisciplinados, rebeldes, conspiradores, subversivos, desertores, perversos, diabólicos, inimigos, terroristas. Eis que alguém consegue substantivá-los: são os brancosos.

Os ministros exercem seu poder por meio dos discursos dos redatores de gabinete. Estes são mestres na arte do convencimento, a arte de fazer com que a verdade coincida com a mentira. Comparam-se os votos em branco com a cegueira branca. A questão política dos brancosos é uma questão de saúde. A mídia realiza o seu trabalho de intoxicação. Impressiona-se o público com uma doença, ou melhor ainda, com uma epidemia. Deixando-se enganar, a população é convencida de que corre o risco de estar novamente cega.

Em meio ao paradoxo, à mentira e à cegueira, encontramos a organização da população da capital. Encontramos casos admiráveis de renúncia, “daqueles que ainda nos permitem pensar que se perseverarmos nesses e noutros gestos de meritória abnegação, acabamos por cumprir com acrescimentos a nossa pequena parte no projeto monumental da criação”, escreve o autor. Encontramos pessoas que varreram calçadas quando não havia instituições oficiais para realizar a limpeza das ruas; pessoas que choraram os mortos desconhecidos; pessoas lúcidas que pediram demissão, apesar da família, da carreira, da vida; encontramos os mais nobres exemplos da história do amor ao próximo – cada um decidindo por sua conta e a sós com sua consciência. Encontramos uma organização que se sustenta com a lucidez.

O Ensaio sobre a lucidez ainda não virou filme.


Essas palavras, que, provavelmente, tal como se apresentam, ninguém as haveria dito antes, essas palavras tiveram a sorte de não se perderem umas das outras, tiveram quem as juntasse, quem sabe se o mundo não seria um pouco mais decente se soubéssemos como reunir umas quantas palavras que andam por aí soltas,


Lucidez

Seguem três lúcidas recitações sobre a diferença, o cansaço e o absurdo:

A mais segura diferença que poderíamos estabelecer entre as pessoas não seria dividi-las em espertas e estúpidas, mas em espertas e demasiado espertas, com as estúpidas fazemos o que quisermos, com as espertas a solução é pô-las ao nosso serviço, ao passo que as demasiado espertas, mesmo quando estão do nosso lado, são intrinsecamente perigosas, não o conseguem evitar, o mais curioso é que com os seus actos estão constantemente a dizer-nos que tenhamos cuidado com elas, em geral não damos atenção aos avisos e depois aguentamos as consequências.

¿!

Não se cansem a discutir, a melhor atitude ainda será a de não pedir explicações e logo duvidar delas no improvável caso de que as tenham dado, quase sempre são mentirosas.

¿!

Os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão.


José Saramago – Ensaio sobre a lucidez


A palavra de Patañjali

Palavra é aquilo que, quando pronunciado, traz a compreensão do significado. Para os gramáticos, a palavra real, verdadeira é sphota – aquilo por meio do qual se manifesta o significado. A palavra é recebida pelos ouvidos, percebida por buddhi e refletida no som. Essa reflexão no som não é a reflexão do significado. É a reflexão da palavra. O significado não abandona a palavra. O significado é compreendido pela própria palavra. A palavra é eterna e reside dentro de nós.

Buddhi é nossa alma espiritual, nosso ser psíquico. Seu desenvolvimento marca o começo da espiritualidade. Multifuncional, engloba a compreensão, a inteligência, o discernimento e a intuição. Buddhi não incorpora o raciocínio, que é uma função da mente.
  

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Visões de histórias maravilhosas

¿!  Histórias maravilhosas de deuses e semideuses podem não ser imaginação.
¿!  Histórias maravilhosas de gigantes e anões podem não ser criação poética.
¿!  Histórias maravilhosas de dragões e monstros podem não ser invenções.


Deixando a Casa da Flôr




1. Se dá voltas a uma escultura,/ o corpo é que a envolve, livre;/ se penetra em qualquer pintura/ como janela que se abrisse;// se pode boiar numa música,/ nos pauís doentes de que consiste;/ se pode ir em fins de semana/ a romances que tenham o “habite-se”.//

2. Mas só a arquitetura é total,/ não virtual, ao corpo que a vive,/ ainda mais se essa arquitetura/ numa cidade se urbanize;//

Com os versos de João Cabral de Melo Neto nos despedimos da Casa da Flôr. Aproveitamos para agradecer ao sobrinho-neto de Seu Gabriel, que nos acompanhou durante a nossa visita, que contou histórias sobre a casa e que se despediu de nós recitando uma poesia. Retribuímos agora com os versos do Ferrageiro de Carmona. 

Explicaria o Ferrageiro que as flores de Seu Gabriel são “flores criadas numa outra língua,/ nada têm das flores de fôrma moldadas pela das campinas”. A Casa da Flôr não é feita de “[...] uma flor já sabida,/ mas do que pode até ser flor/ se flor parece a quem o diga”.

E nós, blogueiros, explicaríamos ao Ferrageiro que não foi a força com que se trabalha o ferro forjado, material de grande resistência, que deu limites às flores de Seu Gabriel. As flores de Seu Gabriel são feitas de materiais de pouca resistência, que se quebram facilmente. Foi a força do pensamento que uniu os cacos, dando-lhes uma nova forma.

Nos posts de Nossos Estudos Poéticos, a arquitetura da Casa da Flôr tornou-se virtual. Em Nossos Estudos Poéticos, os mosaicos de Seu Gabriel tornaram-se tesselas de nosso mosaico. Que todas as tesselas venham a ser um mosaico. Que todos os fragmentos venham a ser tésseras. Que tudo floresça e, depois, volte a ser uma semente.


Tentativas de resposta

Para que serve a poesia? Serve para expandir, sintetizando.
Para que serve a poesia hoje? Serve para transcender o tempo.
A que serve a poesia? Serve a algo maior.
O que é poesia? Poesia é um serviço!


Terceiro turno – os personagens

A literatura eleitoral, ao apresentar a fala do personagem Candidato, apresenta também a fala do personagem Eleitor. É um monólogo no qual o Candidato fala o que o Eleitor quer ouvir – que se trata de um diálogo entre o Candidato e o Eleitor. Em seu discurso, o Candidato apresenta os valores, os critérios de avaliação, os medos, os desejos, as fantasias e as carências do Eleitor: compromisso, competência, coragem, honestidade, o bem comum, respeito à justiça social, à solidariedade humana e à diversidade sexual, meritocracia, parceria, qualidade de vida, integração, sustentabilidade, acessibilidade, mobilidade e fim da impunidade. 

O Candidato quer esquecer o passado. O Eleitor tem medo do velho e deseja o que é novo, de preferência no plural. O Candidato mostra a necessidade da elaboração de novas leis e do investimento em novas tecnologias. A fim de que o Brasil seja para sempre o País do Futuro, Candidato e Eleitor fantasiam viver na Terra do Nunca. Candidato e Eleitor formam uma téssera cuja senha é o voto.


Terceiro turno – a narrativa


As campanhas eleitorais nos proporcionam uma literatura típica – a da propaganda política. Este gênero apresentou-se como um misto de biografia/ curriculum vitae, no qual os candidatos contavam as suas narrativas. Começavam pelo começo: lugar e família de nascimento. Depois, passavam aos tópicos da vida profissional (formação, profissão e carreira). Muitos começaram a trabalhar com os pais, dado que comprova o mito da hereditariedade no Brasil, onde se herdam dons, talentos, cargos, capitanias. Está no sangue. Enfim, chega-se à vida política do candidato. O perfil é o do trabalhador ágil, dinâmico, apaixonado, firme, empreendedor, eficiente, que faz o quê? A diferença. 

Ele tem um desafio, ele tem uma missão, ele luta pela libertação das vítimas das modernas formas de escravidão (as drogas e a exploração da prostituição), pela liberdade religiosa, pela defesa da educação, da cultura, do patrimônio, do meio ambiente, pela valorização da dança, do teatro, da música, das artes plásticas, do circo. Ele luta não em grandes combates, mas em grandes debates.


História de um cão



Aos professores que ensinam poesia aos alunos, aos pais que ensinam poesia aos filhos e aos que seguem a Lei do Sacrifício: 


História de um cão

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo
Para dizer numa palavra tudo
  Foi o mais feio cão que houve no mundo

Recebi-o das mãos dum camarada,
Na hora da partida, o cão gemendo,
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o... o sol nas ondas se abismava...
"Adeus" — me disse — e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

"Trata-o bem. Verás como rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos."

Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;

Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda — caminhava errante
À luz da lua — tristemente uivando.

Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe o correio
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Prata.
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.

Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.

Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota bem do melhor cursivo
Recomendava o pobre cão Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplou, e — creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente
Estendeu-se aos meus pés atencioso
Movendo a cauda e, — adormeceu contente
Farto d'um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia
Dei-o à mulher d'um velho carvoeiro.

E respirei! "Graças a Deus! Já posso"
Dizia eu "viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo."

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E — de cansado — foi rolar dormindo,
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um só meio: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo: ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei um remo — e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente!

Voltei à terra — entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.

Mas, ao despir dos ombros meus o manto
Notei — oh grande dor! haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: eu tinha-o unido.

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além no mar profundo
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo

Duas vidas tivera — duas vidas
Eu arrancara aquela besta morta
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.

Corri, - abri... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés — e docemente
Deixou cair da boca que espumava,
A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, oh Deus? — Ajoelhado
Junto do cão — estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.


Luis Guimarães (Filho)



Livro das Mil e Uma Noites – Volume IV (ramo egípcio, 2012)




Por fim, Sahrazad disse que aquele que vive largamente no mundo sem saber como nele viver, fazendo-o mediante fadigas, é o mais miserável dentre os homens. Ele se ilude com o seu reino. E para aqueles que se iludem com a morte, disse que o vivo não tem matador. Que cada vivente, então, fosse cuidar da própria vida.

Completadas mil noites, Sarazad interrompeu as histórias, que despertaram a inteligência do rei Sahryiar. Com o coração serenado, ele pensou que se com outros reis havia ocorrido pior do que com ele mesmo, ele ia parar de se autocensurar.

Finalmente amanheceu.

O próprio rei Sahryiar contou o que acontecera entre ele e a rainha Sahrazad a todos. Depois contou que voltara atrás quanto à morte das jovens.

Sahrazad e Saryiar se casaram. Espalhou-se a notícia pela cidade e o povo ficou contente. As comemorações duraram 7 dias.

O rei Sahryiar se reuniu a sós com seu irmão Sahzaman, e lhe contou o que havia acontecido. Extasiado, o rei Sahzaman quis se casar com Dunyazad. O rei Sahryiar dividiu o reino com seu irmão e os dois passaram a governá-lo, cada dia um.

O amor entre os reis e suas esposas irmãs se tornou perfeito.

Sahriyar mandou chamar historiadores e copistas, e estes escreveram tudo que sucedera do início ao fim, que são as mil e uma noites. O rei Sahryiar depositou os 30 volumes na biblioteca do seu reino, no local onde estudava.

Os reis viveram com suas esposas na vida mais opulente até que todos morreram.

Louvores a Deus. Conclui-se a história.


As mil e uma noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho. (Jorge Luis Borges)




Livro das 1001 Noites ou O Livro do Véu de Ísis

O Livro das Mil e Uma Noites é chamado de O Livro do Véu de Ísis por Roso de Luna, autor de O Livro que Mata a Morte.

Roso de Luna dedicou algumas linhas de seu livro à poesia. Ele nos apresenta a poesia como uma irmã gêmea da matemática. Ambas idealizam, embelezam e elevam analogicamente as realidades concretas que integram nossa vida. A poesia segue a lei do símbolo e da analogia. O simbolismo sendo para ele a ciência das ciências, pois todo símbolo é uma ideia corpórea em que jaz o visível terreno com o invisível divino.

O véu de Ísis simbolizaria a morte separando-nos das delícias da imortalidade. Roso de Luna lembra que o número 10 (presente em ordem direta e invertida no número 1001) é o hieróglifo de Ísis.

Sahrazad vai geometrizando a vida e a morte com sua narrativa. Linkando uma história a outra através de seus personagens dizentes, ela tece uma espiral de palavras, formando curvas em graus maiores ou menores, dependendo do entendimento do seu ouvinte. Como escreveu o próprio tradutor da versão que lemos:

A experiência é pensada como algo que se comunica e cuja possibilidade de transmissão é dada pela repetição: são estruturas semelhantes que se reproduzem incessantemente, sem que no entanto possam ser reduzidas, em seu funcionamento no interior de determinado quadro narrativo mais amplo, a um processo previsível e automático, visto que a própria dinâmica interna da narrativa determina o resultado das sucessivas histórias exemplares que se vão sucedendo.

Acrescentamos com Roso de Luna que essas estruturas formam espirais e arabescos, ciclos que nunca se fecham.

Na hora que precede a alvorada, Sahrazad para de falar. O homem começa a afastar-se do mundo do sonho, penetrando em outros ainda mais doces. Antes do amanhecer é a hora da iniciação. Quando já não mais precisamos entregar nossos olhos, ouvidos e coração às palavras da narradora, pois nos damos conta de que nós mesmos criamos e recriamos a história.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes” 




Na noite seguinte, que era a 666ª


Quando pedimos para que alguém nos conte uma história, entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração. As histórias espantosas, cujos assuntos são extasiantes, maravilhosos e insólitos, precisam ser contadas a fim de que elas mesmas se encaminhem até a adequada complementação dos seus sentidos e dos seus suaves vocábulos. E com elas avançamos sem saber sobre o que o oculto nos reserva.

Conta-se, mas Deus sabe mais sobre o que já é ausência, que nós postamos que Sahrazad disse que um certo rei disse que, sem lhe ver a imagem, ouviu a voz de alguém dizer em versos o nascimento de sua filha Hayfa.

Hayfa cresceu em um palácio em forma de cubo no centro de um círculo de água. O rio em torno do palácio parecendo um anel em torno do dedo. Os construtores escreveram poesias nas correntes dos lampiões de cristal pendurados no salão e também nos lampiões. Na porta, escreveram: “Este palácio já aparece como alegria para quem o vê; o bom augúrio escreveu às suas portas: entrem em paz e segurança”.

Aos 4 anos, Hayfa decorou o alfabeto e adquiriu um discurso agradável. Aos 10 anos, decorou metros da poesia e seu discurso ficou ainda mais belo. Aos 14, ensinou as criadas a fazer poesia. Hayfa escreveu na porta do palácio: “Ó leitor destas linhas, vê se entende e pensa, eu te peço por Deus poderoso”.

Um dia, um príncipe chamado Yusuf, fugindo da casa de seu pai, chegou às margens do rio que contornava o palácio de Hayfa. Yusuf mergulhou no rio, atravessou o curso d’água, chegou à outra margem, leu os versos na porta do palácio e escreveu outros: “À  sua porta, fonte de generosidade, chegou um forasteiro desterrado que se tornou errante; talvez sua generosidade o salve da errância, e o proteja da injustiça do inimigo contumaz. Não tenho refúgio senão a sua porta, a qual contém sentidos de versos como se fossem colares, que o filho de Sahl leu, e recorreu a vocês. Socorram o estranho que lhes chega sozinho”.

Encontrando-se, Hayfa e Yusuf se indagaram a si mesmos, ambos ignorando o que lhes destinara aquele que quando diz para algo “seja”, é. Ela disse para que ele deixasse por conta dela a boa resposta, a sutileza da palavra e a essência da poesia. Ambos se extasiaram profundamente com a poesia, arrancaram as roupas, gritaram e ficaram desacordados quando a poesia foi concluída com os sentidos ocultos nela inovados.

Mas, no momento do ciúme e da separação, Yusuf se tornou aquele cujo coração já não mais permitia poesias. E, então, o coração e o sopro vital de Yusuf ficaram com Hayfa, enquanto seu coração e sua mente estavam em luta. A mente e o juízo de Yusuf desejavam a secura. O coração e o sopro vital, a relação.

Como o destino irremediável dos corações é se reunirem uns aos outros, venceu a relação.

Quando entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração, recebemos o entendimento. O que é o entendimento? É a reflexão e a compreensão das coisas em sua verdade. Sahrazad havia lido e entendido, por isso podia narrar.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”




Livro das Mil e Uma Noites – Volume II (ramo sírio, 2005)




Sahrazad contou histórias sobre a alegria de viver, os prazeres desfrutados em pencas ao lado de um riacho sob céus de murta, estrelas de narciso, sóis de rosa, relampos de vinho, nuvens de taça, trovões de incenso e brumas de arco-íris.

Falou de cidades agradáveis e seguras, que se ondulavam sob os pés do morador e se mexiam sob os pés do residente. Falou de comandantes que escreviam, que liam e que exorcizavam.

Narrou sobre as horas contadas dos amantes, os corações úmidos de saudade e de afeto e os olhos que procuram a cura na insônia. Narrou sobre pessoas livres que eram enganadas por belas palavras e sobre pessoas que agiam conforme a sua natureza. Narrou sobre o perdão e a absolvição.

Expôs o que sabia sobre o destruidor dos prazeres e separador dos grupos, louvando quem prepara o tempo, constrói os mundos e não se distrai de uma coisa por outra.

Dinarzad ouviu sobre a paciência. A paciência de que devemos nos armar na desgraça, a paciência alquebrada que luta com o sentimento desperdiçado, a paciência que é amarga, a paciência que deveria se espantar da própria paciência quando somos pacientes.

E ouviu também sobre o destino, cujas decisões ninguém pode evitar. O destino ingrato, que talvez afrouxe as rédeas e renove as esperanças.

Depois disso, que o rei deixasse que outras coisas ocorressem. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”.


Volume I        Volume III


Livro das Mil e Uma Noites – Volume I (ramo sírio, 2005)




Tudo começou quando o rei Sahriyar descobriu que havia sido traído pela sua esposa com um escravo. A tomada de consciência da traição o conduziu a uma pergunta: alguém no mundo teria sofrido uma desgraça ainda pior do que a dele? Traído, com essa questão em mente e na companhia de seu irmão Sahzaman, Sahriyar decidiu abandonar seu reino e perambular. Se encontrasse alguém cuja desgraça fosse pior do que a dele, retornaria. Se não, continuaria a vagar pelo mundo. O rei e seu irmão saíram do palácio pela porta secreta e seguiram viagem até a orla do mar salgado.

Lá os dois encontraram uma bela jovem que vivia trancada em um baú de vidro no fundo do mar sob a vigilância de seu marido. Mesmo assim, a mulher o traía enquanto ele dormia: “quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la”. Esta bela mulher carregava consigo um saco contendo cem anéis: “todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel”.

Diante de tamanha desgraça, Sahriyar e Sahzaman voltaram para o reino.

O rei Sahryiar decidiu, então, se casar a cada noite com uma mulher diferente e matá-la antes do dia amanhecer. Um casamento que não duraria mais do que a noite de núpcias. O horror tomou conta das famílias e do reino.

Até que, em uma certa noite, que seria a primeira das mil que se seguiriam, Sahryiar se casou com Sahrazad. Ela tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorado poesias e consultado as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Sahrazad pediu ao rei que chamasse sua irmã Dinarzad a fim de que elas pudessem se despedir. Quando a noite se fez mais espessa, no momento oportuno, Dinarzad disse: “Minha irmãzinha, se não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas, para que eu possa despedir-me de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã”.

A pedido da irmã e com a permissão do rei, Sahrazad disse contente: “ouça”. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”. 


Introdução        Volume II


Livro das Mil e Uma Noites – Introdução

As mil e uma noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho.

Jorge Luis Borges

Mamede Mustafa Jarouche traduziu Kitáb alf layla wa layla, título original do Livro das Mil e Uma Noites, do árabe para o português. O tradutor verteu palavras e expressões de um idioma para o outro, captando ritmos, tons e melodias e acrescentando notas não apenas esclarecedoras para nosso entendimento, como também inspiradoras. À seguinte fala de uma personagem: Ó rei, não deixes que o amor ou o ódio pelo que quer que seja te adentre o coração, pois o coração possui uma especificidade inscrita em seu nome, não tendo sido chamado de coração senão por se revirar, ele acrescentou a nota: em árabe, a palavra taqallub, nome da ação do ‘ato de revirar-se’, é cognata de qalb, ‘coração’. Jarouche nos apresenta também o significado dos nomes das personagens. Ala’uddim, o da lâmpada mágica, quer dizer elevação da fé (ala – elevação  e addim – a fé).

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Livro das Mil e Uma Noites, unindo-nos àqueles que se perguntam como e por que essas histórias, das quais desconhecemos a autoria, foram criadas. E vamos tentar fazer parte de sua criação coletiva transformando-o em posts para continuar compondo nosso mosaico de textos. Serão 7 tesselas postadas, como se fossem os 7 véus a serem retirados:

1) Introdução
2) Volume 1
3) Volume 2
4) Volume 3
5) Na noite seguinte, que era a 666ª
6) As 1001 noites ou O livro do véu de Ísis
7) Volume 4

Esperamos que nossas tesselas se aproximem da beleza daqueles mosaicos do palácio de Aladim, construído com pedras de jade, mármore e pórfiro pelo escravo que saía da lâmpada quando ela era esfregada. E esperamos que elas possam revelar aos nossos corações novos entendimentos para a tradução de Mamede Mustafa Jarouche. 




Versos d’água: o leito, o curso e a cheia

O leito do rio é o verso do rio.
O curso do rio é o verso do rio.
A cheia do rio é o verso do rio.
Versos que não são só o avesso,
que não são só o aço do espelho.
Versos que são também aquilo que verte,
tudo aquilo que verte.


Versos de descanso

...a poesia é o uróboro da língua.


Versos de descanso


...repousa o ritmo no verso que morde a própria cauda.


Os gêneros literários – a Conclusão

Os gêneros literários, a rigor, são realidades arquetípicas: eles enquadram e orientam a multiplicidade de fatos na história literária, sem nunca estarem manifestos em toda a sua pureza, e também sem nunca desaparecerem totalmente, não importa o quão irreconhecível eles podem estar por trás da multidão geralmente confusa de fatos particulares e variações.

A dificuldade sentida pelo homem contemporâneo em compreender os gêneros e reconhecê-los em meio à confusão de dados empíricos é exatamente a mesma que ele tem de encontrar qualquer significado arquetípico nos fatos da vida diária que foram totalmente banalizados e coisificados, cortados do reino dos arquétipos pela fumaça e pelo barulho da instantaneidade comercial e industrial, bem como pelas distorções poluentes que a indústria de comunicação de massa criminalmente introduz no mundo das imagens e dos símbolos.

A dificuldade em ver está no sujeito e não no objeto.


(Livro Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos, de Olavo de Carvalho)


Começa em Os gêneros literários – a Questão