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Ensaio sobre a lucidez

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim,


O que  é o voto em branco? Um direito, uma manifestação em silêncio, algo que torna o sistema democrático ingovernável, atingindo o coração da democracia como nenhum sistema totalitário pode fazer, uma renúncia, uma desilusão, uma cegueira, uma lucidez?

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Ensaio sobre a lucidez de José Saramago a fim de completar a nossa téssera. A leitura nos permitiu observar vários aspectos do voto em branco. Debruçamo-nos sobre alguns neste post e os ampliamos através dos links.

O que é um direito? É uma questão de mérito? Nossos direitos são realmente nossos? Os momentos de crise são aqueles em que nossos direitos não são respeitados? Como um direito não respeitado pode existir? Encontramos em nossa leitura que um direito só existe em potência no dever de que seja respeitado e cumprido. Encontramos também que um direito só existe no papel. Os direitos só o são integralmente nas palavras com que tenham sido enunciados e no pedaço de papel em que hajam sido consignados. A sua aplicação inconsiderada convulsionaria a sociedade.

Consideremos uma eleição em que a quantidade de votos em branco seja superior a 80%. O que faz o governo diante disso? Ele toma as devidas providências. Primeiro cria um paradoxo, considerando que houve um uso legal abusivo do direito do voto em branco. Depois, recorre a espionagem e interrogatório a fim de descobrir os envolvidos no uso abusivo. Falhando, declara que a capital (onde ocorreu a maioria dos votos em branco) encontra-se em estado de sítio. O governo se retira da capital e o exército a cerca. Cogita-se como próximo passo a construção de um muro que a separe do restante do país. Finalmente haverá mudanças na lei eleitoral: o voto em branco passa a equivaler ao voto nulo ou não há mais voto em branco ou distribuem-se igualmente os votos em branco por todos os partidos ou sei lá que mais. Paralelamente às estratégias oficiais, temos atentados e saques forjados, sabotagens, falsificações...

A ação das autoridades também se dá através da palavra. Procura-se primeiro um adjetivo que possa desqualificar os que votaram em branco – indisciplinados, rebeldes, conspiradores, subversivos, desertores, perversos, diabólicos, inimigos, terroristas. Eis que alguém consegue substantivá-los: são os brancosos.

Os ministros exercem seu poder por meio dos discursos dos redatores de gabinete. Estes são mestres na arte do convencimento, a arte de fazer com que a verdade coincida com a mentira. Comparam-se os votos em branco com a cegueira branca. A questão política dos brancosos é uma questão de saúde. A mídia realiza o seu trabalho de intoxicação. Impressiona-se o público com uma doença, ou melhor ainda, com uma epidemia. Deixando-se enganar, a população é convencida de que corre o risco de estar novamente cega.

Em meio ao paradoxo, à mentira e à cegueira, encontramos a organização da população da capital. Encontramos casos admiráveis de renúncia, “daqueles que ainda nos permitem pensar que se perseverarmos nesses e noutros gestos de meritória abnegação, acabamos por cumprir com acrescimentos a nossa pequena parte no projeto monumental da criação”, escreve o autor. Encontramos pessoas que varreram calçadas quando não havia instituições oficiais para realizar a limpeza das ruas; pessoas que choraram os mortos desconhecidos; pessoas lúcidas que pediram demissão, apesar da família, da carreira, da vida; encontramos os mais nobres exemplos da história do amor ao próximo – cada um decidindo por sua conta e a sós com sua consciência. Encontramos uma organização que se sustenta com a lucidez.

O Ensaio sobre a lucidez ainda não virou filme.


Essas palavras, que, provavelmente, tal como se apresentam, ninguém as haveria dito antes, essas palavras tiveram a sorte de não se perderem umas das outras, tiveram quem as juntasse, quem sabe se o mundo não seria um pouco mais decente se soubéssemos como reunir umas quantas palavras que andam por aí soltas,


7) O Mahabharata – no fim


No princípio não há nada.
Nós existimos no entremeio.
Depois, nada há novamente.


No fim, enquanto o filho de Drona recitava um mantra para a destruição dos Pandavas e de Krishna, Arjuna recitava o mesmo mantra para haver paz no mundo inteiro e nele mesmo. Vyasa deteve o mantra do filho de Drona. E Krishna deteve o de Arjuna.

No fim Arjuna retirou as cordas do arco Gandiva. Draupadi chorou a morte de seu irmão. “Tanta coisa aconteceu”, ela lastimou.

No fim Krishna sentou-se ao lado de Sanjaya e do rei cego e, com palavras que fluíam docemente, começou a contar-lhes: um bilhão e seiscentos e sessenta milhões e vinte mil homens caíram nesta batalha. E pôs-se a recitar-lhes os nomes.

No fim, em Kurukshetra, todos os sinais de batalha sumiram. Kama entoou um cântico: “Para longe as preocupações do mundo!”.

No fim só há um inimigo – a ignorância.

No fim Yudhishthira foi consagrado rei. Recitou silenciosamente seu mantra secreto, que nunca será escrito e nunca será dito para ser ouvido.

No fim músicos bharatas tocaram a canção de que ninguém mais se recorda. Foi no nascimento do filho de Arjuna, o nascimento do neto de Indra. Só o rei Gandharva e outros reis parecem ouvi-la.

No fim o rei cego morreu na floresta.

No fim Sanjaya partiu para os Himalaias e ele pensou: “Terra, minha mãe, quanta ingratidão naqueles que rejeitaram sua fartura e preferiram entregar-se a Yama. Como é possível que eles a vissem qual mansão de dor e tristeza, onde ninguém pode permanecer?”.

No fim Krishna voltou para sua cidade. No caminho, um brâmane comentou sobre a guerra que o Senhor havia conseguido impedir. E quando Krishna finalmente chegou em seu lar, ninguém quis ouvir o que ele tinha a dizer sobre a guerra. Arjuna, seus irmãos e Draupadi, vestidos de preto, caminharam para o norte. A cidade de Krishna, próxima ao mar, foi coberta pelas águas. Krishna vagava por uma floresta. Deitou-se na grama e pensou: “Arjuna, onde você está? Amanhã destruirei o mundo por causa de sua maldade”. Nesse instante um caçador confundiu o pé de Krishna com um bicho da floresta e lançou-lhe uma flecha. Krishna morreu, com sua túnica amarela e seus quatro braços.

Vaisampayana disse: “Curvo-me perante Deus, que habita este mundo dentro de nós. A quem o chamar, por qualquer nome, por esse nome Ele virá. Portanto, cautela e reverência com os nomes de Deus. E assim encerro minha história”.

Saunaka disse: “Junto à árvore de Narayana, cujas folhas são canções, no seio da montanha, os atores se reuniram e se perguntaram: ‘O que faremos a seguir?’”.

NEP dizem mais uma vez: “O que não está no Mahabharata não está em nenhum outro lugar”. 




6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra




A Terra... Assemelha-se a
uma negra dançarina vestida de carmim...
Quem morreu aqui?
Quem cometeu assassinato?


Na véspera

Vyasa descreveu a planície dos Kurus para o rei cego que estava junto com Sanjaya: “Duas grandes cidades feitas de tendas de seda, uma diante da outra, no grande campo vazio. Corvos negros grasnam ‘Vá!’. Um círculo negro rodeia o sol. À noite, todas as estrelas são hostis. Os rios invertem seus cursos. As vacas ordenhadas só dão sangue. As estátuas dos deuses gargalham e estremecem. Crianças lutam com clavas de madeira. Os canalhas e assassinos cantam e dançam. Isso é medo e o mal sobrepondo-se ao mal”.

Depois Vyasa concedeu visão celestial a Sanjaya.

Sanjaya ficou cinco dias e cinco noites em Kurukshetra. Retornou após a aurora do 6º dia, dizendo: “Está tudo acabado. Não há como contar tudo. Minhas palavras soam estranhas e muito, muito distantes”.


No 1º dia

Krishna entoou um cântico para seu amigo Arjuna – o Cântico do Senhor. Os bardos e menestréis, sentados ao longo do Kurukshetra, compunham versos e canções da grande guerra dos Bharatas. Guerreiros bradavam, anunciando seus nomes. Vestiam uniformes, portavam estandartes, orientavam-se por senhas e sinais. As setas eram atraídas por seus alvos. Krishna gritou para Arjuna: “Não tema! Atire nele!”.


No 2º dia

Duryodhana viu que as obras de Arjuna estavam além do que se podia conhecer. O grande guerreiro kuru Bhishma tombou de sua carruagem. Seu corpo não tocou a Terra porque estava cheio de setas. A lua concedeu aos mortos seus corpos celestiais.


No 3º dia

O guerreiro Susarman, que lutava pelos kurus, ao ver ser tolice combater Arjuna pela ilusão, caiu aos pés de Krishna e perguntou: “Senhor, o que é esta guerra?”.

Krishna disse a Arjuna: “Não chore, pois as lágrimas queimam os mortos com seu fogo líquido”.

O guerreiro kuru Drona foi atingido mortalmente por uma mentira quando estava desarmado. “Vergonha para os que desconhecem o que é ser guerreiro”, pensou Arjuna. Quis o filho de Drona se vingar usando a arma de Narayana: dez mil flechas e dez mil dardos em chama, cem mil espadas, clavas e machados, um milhão de rodas afiadas e pesadas bolas de ferro caíram sobre as tropas dos pandavas. Krishna e Arjuna desarmaram seu próprio exército, dizendo para que niguém pensasse em guerra. Todos deitaram-se no chão com o coração em paz. Com isso, a arma de Narayana fracassou e o filho de Drona se perguntou na noite: “Ah, será tudo mentira?”.

No campo de batalha, cadáveres decapitados tateavam em busca dos assassinos. Os guerreiros kurus já não viam mais sua juventude, nem mesmo a primavera daquele ano. mas Duryodhana ainda acreditava que o destino podia mudar a qualquer momento e se perguntava: “Por que deve haver restrições sobre quem quer que seja? Por que não se há de ser livre para fazer o que se quer?”.


No 4º dia

Os deuses chegaram para observar a batalha.

O guerreiro Karna, que lutava pelos kurus, cortou a corda do arco de Arjuna e lançou o dardo de Indra contra a cabeça dele. Krishna fincou o pé no chão. A quadriga de Arjuna afundou na Terra. O dardo atingiu a coroa de Arjuna, partindo-a. Arjuna lançou uma flecha contra Karna, que caiu com a cabeça decepada. Jamais considerou que a arma de Indra pudesse falhar. Por isso, não se protegeu.

Duryodhana chorou a perda do amigo e se lembrou do jogo de dados e de Draupadi. “Ela jamais me perdoará”, pensou. Yudhishthira se perguntou olhando para Karna: “Quem era ele?”.

Os deuses se foram. A vitória deixou os kurus para sempre.


No 5º dia

Quando o sangue selou o pó da Terra, as mulheres se tornaram viúvas. Sanjaya sentiu o perfume das Apsaras e lamentou não haver ninguém para matar em oferecimento a elas. O fascínio da guerra fez com que ele entrasse em transe. Todas as leis da guerra foram quebradas. Aurigas e animais eram mortos, guerreiros não mais anunciavam seus nomes, já nem mais sabiam se suas vítimas eram amigos ou inimigos. E essas eram questões muito ínfimas, para as quais não havia tempo. Sanjaya estava prestes a ser morto, mas Krishna libertou-o.

Duryodhana desapareceu na floresta. Ele é a alma da ilusão. Diz que os livros em tudo divergem, que os homens discutem e a nada chegam e que a verdade está oculta em cavernas. Krishna já não queria mais ver a vida sendo derramada. Duryodhana sofreu um golpe baixo de Bhima. Como um homem combateria seus cinco sentidos, Duryodhana combateu os pandavas. E por isso perdeu.


Na aurora do 6º dia

Enquanto os guerreiros dos exércitos dos pandavas dormiam, o filho de Drona entrou nas tendas, esganando e estrangulando os inimigos com as próprias mãos, e depois com a espada. “Quem vive ainda?”. Houve silêncio antes e depois do filho de Drona fazer a sua pergunta.

As últimas palavras de Duryodhana foram para o filho de Drona: “Assassinou inocentes e deixou meus inimigos vivos. Basta. Eu quase venci”. Duryodhana morreu ao amanhecer. E Sanjaya perdeu sua visão celestial.



5) O Mahabharata – No entremeio, as perguntas e as respostas

Uma voz invisível perto do lago fez 39 perguntas a Yudhishthira. Separamos 12 dessas tésseras pergunta-resposta. Assim é, se Yudhishthira  o diz:


¿!  O que é mais célere que o vento? A mente é mais célere que o vento.

¿!  O que é mais numeroso que as folhas de grama numa campina? Nossos pensamentos são muito mais numerosos.

¿!  O que não se move após nascer para o mundo? Um ovo não se move.

¿!  O que não tem coração? A pedra.

¿!  Qual é o arrimo do homem? As nuvens.

¿!  O que é o universo inteiro? Nada senão ar rarefeito e espaço vazio.

¿!  Qual o bem mais valioso? O conhecimento.

¿!  Qual a maior felicidade? O contentamento.

¿!  O que encobre todo o mundo? A escuridão.

¿!  O que impede uma coisa de se descobrir? Também a escuridão.

¿!  Qual é a coisa mais rara? Saber quando parar.

¿!  Qual é a verdadeira riqueza? Amor e bondade são melhores que o ouro; a honra é mais valiosa que salas repletas de joias. Não sei o que pensa sobre tudo isso.


“Você responde bem”, disse a voz, apresentando-se como o Dharma, o próprio pai de Yudhishthira. As perguntas do pai testaram os méritos do filho, constatados como verdadeiros. O Dharma restaurou a vida dos irmãos de Yudhishthira, mortos por beberem a água do lago antes de terem respondido as perguntas.




4) O Mahabharata – No entremeio

Enquanto Brahma dorme...
em seu sonho de Vida

No entremeio o poeta Vyasa contou a Yudhishthira a história da princesa que ia, ia, sempre ia à procura de seu amor perdido, o rei. Até que um asceta disse para a exausta princesa ir para casa, pois ela nunca acharia seu amor daquela maneira. Quando o rei e a princesa se reencontraram, o passado tornou-se uma noite escura finalmente iluminada por uma lua azulada. Vyasa disse que essa antiga história é um veneno mortífero para o mal e a desventura. Disse ainda que, quando organizara o Veda em seu tempo livre, o livro sagrado dizia que os trapaceiros podem ser destruídos pela trapaça, sem que a honra de quem assim os destrói se turve.

No entremeio Bhima deixou seus irmãos e foi em busca da morada do lótus de mil pétalas a fim de pegar uma flor para Draupadi. No caminho encontrou seu irmão Hanuman. Ambos são filhos do Vento.

O Universo tornou-se água
...

As águas escuras, então,
permaneceram quietas e silentes,
esperando, e nada tocando.
Que forma haverei de assumir
para salvar a Terra deste dilúvio?


No entremeio Yudhishthira disse à montanha: “Possamos nós retornar”. E o vento soprou-lhe: “O Mundo é amplo! O Mundo é enorme!”. Era o 12º ano. Duryodhana conversava às gargalhadas com seu amigo Karna enquanto seu eu sustinha os fios de seu corpo, sustinha lealdade e pesar, vergonha e ambição, amor e energia e desejo e amizade, e tudo o mais – os cem mil fios brancos e negros entretecidos da vida. Seu corpo foi feito por Kalee: a parte superior, de diamante indestrutível; a metade inferior, de flores de montanha.


E arrancou fora sua alma, em ente não maior que um polegar


No entremeio Vyasa contou à Draupadi a história de Savitri. Depois de depositar gentilmente a cabeça de seu amado Satyavan na Terra, Savitri quis ainda caminhar sete passos ao lado de Yama. O deus da morte olhou para ela e ofereceu-lhe uma dádiva, desde que não fosse a vida de Satyavan. Yama, aquele que sempre tira, viu como era bom dar. Caminharam até um riacho. Com as próprias mãos, Yama, de imóveis olhos escuros, deu um pouco de água para Savitri beber e disse: “Não é difícil dar. Quando a vida é finda e tudo precisa ser entregue, dar não é difícil. Durante a vida existe dor, mas nenhuma na morte. Ninguém me escapa. Eu já vi a todos. E, contudo... esta água não é mais límpida que seu coração. Você busca o que almeja, você escolhe e a questão se encerra; não deseja ser nenhuma outra pessoa. Há muito que não vejo isso. Faça-me outro pedido, tudo menos a vida de Satyavan”. Yama suspirou, seus olhos fixos em Savitri: “Eu, mais do que ninguém sei o que são a verdade e a justiça. Sei que todo o passado e todo o futuro são mantidos coesos pela verdade. O perigo dela foge e se esquiva. Quanto vale sua vida sem Satyavan?”. “Nada”, disse Savitri. Yama pediu metade dos dias de Savitri para que ele pudesse dá-los a Satyavan. Savitri não quis saber quantos dias lhe restaram. Com seu amor, ela transformou a desgraça em alegria. Como Draupadi fazia. Deixando-se amar pelos Pandavas, alegrava até mesmo o exílio.

No entremeio ouviu-se a música mais maravilhosa de todo o mundo, com sinos para Draupadi dançar, a flauta de Krishna e um duplo tambor para Arjuna.

No entremeio Krishna ainda sorria, mas havia lágrimas em seus olhos. Terminado o exílio, Duryodhana não quis devolver metade do reino para os Pandavas. Krishna disse a Duryodhana que a paz não era difícil: “Depende apenas de você e de mim”. Faltavam sete dias para o início da guerra na planície dos kurus.




3) O Mahabharata – No princípio


Eis que nasceu o mundo maravilhoso,
Num instante ele morre,
E num sopro se refaz.

Pela lentidão de nosso olho
E a rapidez da mão de Deus,
Nós acreditamos no mundo.


No princípio houve o amor. Amaldiçoado o que torna o amor inútil e bendito o que ama sem nunca ter visto. Mas, na história de guerreiros, até o deus do amor apresenta-se armado. Kama carrega o arco mais poderoso do mundo. Feito de cana-de-açúcar, sua corda é uma fileira de abelhas e suas flechas têm pontas de flor. Houve o amor de Ganga, a deusa do rio, pelo rei Bharata Santanu; houve o amor de Gandhari pelo rei cego Dhritarashtra; houve o amor de Pandu por Kunti, mãe de Karna, Arjuna, Bhima e Yudhishthira; houve o amor de Pandu por Madri, mãe de Nakula e Sahadeva; houve o amor de Draupadi, a nascida do fogo de Shiva, pelos seus cinco maridos Pandavas. Houve muitos outros amores. Talvez, em algum aspecto, o próprio Duryodhana tenha amado Draupadi. 

No princípio houve as armas. Foi ensinado a cada guerreiro o que eles podiam aprender. Ao melhor deles, revelaram-se as armas. Arjuna, o príncipe argênteo, permanecia com seu arco tão estirado que formava um círculo. Os olhos do melhor arqueiro de todo o mundo só viam o alvo, nada mais podiam descrever. Prometeu ao seu instrutor que sempre lutaria para vencer. O deus do fogo Agni entregou à Arjuna o arco Gandiva, duas aljavas de flechas que jamais se esgotavam e uma carruagem onde havia um disco de ferro para Krishna. Bhima, o de olhos cinzentos, arrojava uma pesada clava octogonal. Yudhishthira, o de olhos dourados, era o melhor auriga. Sahadeva, o que sabe o que é verdadeiro, e Nakula, o que tudo descobre através da amizade, eram os melhores espadachins.




No princípio houve a amizade entre Krishna e Arjuna. Narayana conhecera Nara há muito tempo, às margens de uma água que era leite. Arjuna lembrou-se da alta árvore de Narayana, mas a lembrança esvaeceu-se. Krishna sorriu e abraçou Arjuna. Todos os deuses vieram ver os dois – a alma de toda a vida e seu amigo de outrora. Indra, o senhor dos deuses, reconheceu que ninguém pode lutar contra eles dois juntos. Os deuses sumiram. Krishna riu: “Bharata, ESTE é o mundo. Não há nenhum outro!”. Não existe ninguém que possa compreender a diferença entre estes dois amigos.

No princípio houve a construção do palácio dos pandavas. Maya, o que trouxe para Arjuna a trombeta de búzio Devadatta, manteve-se oculto e invisível até terminar a construção. Sobre mil colunas de ouro, um edifício mágico de mármore e pérolas. Arjuna quis saber se o palácio era uma ilusão. Maya, o construtor, disse que não sabia. Krishna riu.

No princípio houve o desafio do jogo de dados no qual as naturezas das personagens se revelaram. A de Arjuna era falar claramente. A de Yudhishthira era não poder recusar um desafio. Ele não tinha medo: sucesso ou desventura viriam, jogando ou não. Duryodhana era o que era e seguia a sua própria natureza. Somente a insatisfação o conduzia à felicidade. Yudhishthira perdeu tudo que tinha para Duryodhana e os kurus. Perdeu o reino, os irmãos, perdeu a si mesmo e perdeu Draupadi. Foi quando ela pensou em Krishna. Antes que o pensamento estivesse plenamente formado, Krishna foi até Draupadi, que teve suas vestes arrancadas. Mas ela trajava outra por baixo. Esta também foi arrancada. Mas Draupadi trajava outra por baixo. Trinta mantos finos e coloridos espalharam-se pelo chão – eles nunca veriam Draupadi. O rei cego libertou Draupadi e seus maridos. Jogou-se o último lance. O perdedor seria banido para a floresta, obrigado a passar 12 anos em exílio. O ganhador ficaria com todo o reino, devolvendo a metade para o perdedor quando o exílio terminasse.

No princípio houve o exílio. Vidura descreveu a partida dos pandavas e de Draupadi para o rei cego. Arjuna ia por último, lançando docemente grãos de areia com as duas mãos, como haveria de lançar flechas na batalha. E porque era a primeira no coração de todos, Draupadi, linda como a lua cheia, caminhava à frente. Chorava e cobria o rosto com suas mãos de lótus. Lakshmi havia sido insultada em pessoa.

No princípio houve o consolo de Krishna: “Princesa Draupadi, permaneceremos na roda da vida que gira e gira. Agora somos reis, logo passamos uma existência na crista de uma folha de relva. Mas vivemos sempre. Nada pode deter a roda. Quando lhe sobrevém uma felicidade, você não hesita em acreditar que ela seja real? Então, não aceite o infortúnio sem pô-lo à prova. Nada sabemos; ele talvez desapareça, talvez nem seja verdadeiro”.




Fonte da imagem: circunferência e círculo


2) Prefácios e introdução ao Mahabharata

Uma qualidade é uma abstração, um silêncio. Em uma história, a qualidade pode ganhar a forma de uma personagem. Em uma personagem, ela pode ganhar nomes e epítetos. Se a história ganhar a forma de um texto, essa qualidade pode ganhar a forma de uma descrição. Em uma descrição, ela pode ganhar a forma de uma palavra. Pode ser um substantivo abstrato, um adjetivo ou até mesmo um verbo se a qualidade atingir seu objetivo – existir através da ação da história. É a linguagem em sua função de colaborar para o desenvolvimento das qualidades. Talvez seja esse o momento em que se realiza a metáfora citada por J. C. Ismael em seu prefácio: as palavras se transformam nos veículos para alcançarmos o reino mágico do silêncio e do indescritível em nosso dia a dia.

Que qualidades podemos encontrar na grande história dos Bharatas?

B. A. Van Nooten introduz o livro dizendo que santi é o principal sentimento da narrativa. Ele traduz a palavra sânscrita como serenidade. Nós podemos traduzi-la como paz. Sim: um livro sobre guerra contém a luta e a paz a fim de que a téssera esteja completa. Porque não se trata de uma guerra qualquer. Como diz Ismael, trata-se de uma guerra na qual os guerreiros são deificados, de uma guerra que é uma vida iniciática. Em nosso Mahabharata essa iniciação é marcada pelas questões que os próprios guerreiros fazem no campo de batalha. E onde mais poderiam tais questões aparecer?

Encontramos uma outra qualidade, esta citada pelo próprio William Buck em seu prefácio – a verdade. O autor reconhece que fez várias mudanças no seu Mahabharata. Ele inclusive diz ter alterado as características das personagens como recurso para atualizar a história. Mas, como a verdade, por ser uma qualidade, está para além do plano dos fatos, ele diz que suas alterações não interferem na verdade da história. A narrativa transmite ainda o espírito do épico. E o que é o espírito do épico senão a sua própria verdade?

Um livro de guerra é ainda muito útil para nos falar da amizade. Quem são nossos amigos, quem são nossos inimigos? Com quem lutamos e contra quem? A grande inspiração de Buck para realizar a sua obra foi a amizade entre Krishna e Arjuna. O autor encantou-se com os laços que unem as duas personagens através das voltas do tempo cíclico. Uma amizade que é visível a uma das personagens e oculta à outra.

Lendo o livro podemos ainda encontrar o amor que nós mesmos podemos sentir pelas personagens. É quando as qualidades já não mais precisam de metáforas, palavras, descrições, nomes, epítetos, textos, pois nós já as encontramos. Buck nos lembra de que até mesmo o difícil Duryodhana merece o nosso respeito, caso queiramos compreender o significado da história da vida.

O nosso Mahabharata, assim como o de Buck, assim como tantos outros, esperam pelas leituras. Não no sentido do desejo, mas no sentido da espera mesmo. Livros esperam. Blogues esperam. Enquanto as qualidades vão sendo desenvolvidas. 




1) O nosso Mahabharata




O Mahabharata é a grande história da guerra entre os Kurus e os Pandavas, ambos descendentes da dinastia Bharata. A batalha se dá no Kurukshetra, o campo dos kurus. Encontramos nas Línguas do mundo de Berlitz a informação de que a Índia se chama Bharat em hindi. E na Aventura das línguas de Störig encontramos que bhar é uma raiz que quer dizer trazer. Se conjugarmos o verbo bharani no presente do indicativo, teremos bharami, bharasi, bharati, bharamas, bharata (nós trazemos), bharanti. Inspirações linguísticas para tentarmos compreender o significado da maha (grande) narrativa que vamos tesselar.

Conta-se que o poeta Vyasa compôs os cem mil versos da epopeia em sua mente e que Ganesha, o deus dos ladrões e dos escritores, o escreveu. O poeta é filho do menestrel errante Parashara e de Satyavati, encontrada nas entranhas de uma mãe-peixe no rio Yamuna. Vyasa contou o Mahabharata para Vaisampayana, que o contou a Sauti, a Astika e ao próprio Vyasa. Sauti, por sua vez, o contou a Saunaka.

Lemos em Nossos Estudos Poéticos a história dos narradores Vaisampayana e Saunaka contada em prosa por William Buck e traduzida por Carlos Afonso Malferrari. Buck refere-se ao livro que lemos como o seu Mahabharata.

Existem inúmeras versões do Mahabharata, solvidas em interpolações, coaguladas em edições, vertidas em várias línguas. O nosso Mahabharata será condensado em sete posts e dissolvido em diversos links. As postagens procuram seguir a divisão do próprio livro de Buck:

1) O nosso Mahabharata
2) Prefácios e introdução ao Mahabharata
3) O Mahabharata – No princípio
4) O Mahabharata – No entremeio
5) O Mahabharata – No entremeio, as perguntas e as respostas
6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra
7) No fim

Quem ouve o Mahabharata e o compreende, mesmo que só uma parte dele, se liberta das prisões que construiu para si mesmo com suas obras boas e más. O Mahabharata tem o poder da vitória! 




Livro das Mil e Uma Noites – Volume IV (ramo egípcio, 2012)




Por fim, Sahrazad disse que aquele que vive largamente no mundo sem saber como nele viver, fazendo-o mediante fadigas, é o mais miserável dentre os homens. Ele se ilude com o seu reino. E para aqueles que se iludem com a morte, disse que o vivo não tem matador. Que cada vivente, então, fosse cuidar da própria vida.

Completadas mil noites, Sarazad interrompeu as histórias, que despertaram a inteligência do rei Sahryiar. Com o coração serenado, ele pensou que se com outros reis havia ocorrido pior do que com ele mesmo, ele ia parar de se autocensurar.

Finalmente amanheceu.

O próprio rei Sahryiar contou o que acontecera entre ele e a rainha Sahrazad a todos. Depois contou que voltara atrás quanto à morte das jovens.

Sahrazad e Saryiar se casaram. Espalhou-se a notícia pela cidade e o povo ficou contente. As comemorações duraram 7 dias.

O rei Sahryiar se reuniu a sós com seu irmão Sahzaman, e lhe contou o que havia acontecido. Extasiado, o rei Sahzaman quis se casar com Dunyazad. O rei Sahryiar dividiu o reino com seu irmão e os dois passaram a governá-lo, cada dia um.

O amor entre os reis e suas esposas irmãs se tornou perfeito.

Sahriyar mandou chamar historiadores e copistas, e estes escreveram tudo que sucedera do início ao fim, que são as mil e uma noites. O rei Sahryiar depositou os 30 volumes na biblioteca do seu reino, no local onde estudava.

Os reis viveram com suas esposas na vida mais opulente até que todos morreram.

Louvores a Deus. Conclui-se a história.


As mil e uma noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho. (Jorge Luis Borges)




Livro das 1001 Noites ou O Livro do Véu de Ísis

O Livro das Mil e Uma Noites é chamado de O Livro do Véu de Ísis por Roso de Luna, autor de O Livro que Mata a Morte.

Roso de Luna dedicou algumas linhas de seu livro à poesia. Ele nos apresenta a poesia como uma irmã gêmea da matemática. Ambas idealizam, embelezam e elevam analogicamente as realidades concretas que integram nossa vida. A poesia segue a lei do símbolo e da analogia. O simbolismo sendo para ele a ciência das ciências, pois todo símbolo é uma ideia corpórea em que jaz o visível terreno com o invisível divino.

O véu de Ísis simbolizaria a morte separando-nos das delícias da imortalidade. Roso de Luna lembra que o número 10 (presente em ordem direta e invertida no número 1001) é o hieróglifo de Ísis.

Sahrazad vai geometrizando a vida e a morte com sua narrativa. Linkando uma história a outra através de seus personagens dizentes, ela tece uma espiral de palavras, formando curvas em graus maiores ou menores, dependendo do entendimento do seu ouvinte. Como escreveu o próprio tradutor da versão que lemos:

A experiência é pensada como algo que se comunica e cuja possibilidade de transmissão é dada pela repetição: são estruturas semelhantes que se reproduzem incessantemente, sem que no entanto possam ser reduzidas, em seu funcionamento no interior de determinado quadro narrativo mais amplo, a um processo previsível e automático, visto que a própria dinâmica interna da narrativa determina o resultado das sucessivas histórias exemplares que se vão sucedendo.

Acrescentamos com Roso de Luna que essas estruturas formam espirais e arabescos, ciclos que nunca se fecham.

Na hora que precede a alvorada, Sahrazad para de falar. O homem começa a afastar-se do mundo do sonho, penetrando em outros ainda mais doces. Antes do amanhecer é a hora da iniciação. Quando já não mais precisamos entregar nossos olhos, ouvidos e coração às palavras da narradora, pois nos damos conta de que nós mesmos criamos e recriamos a história.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes” 




Na noite seguinte, que era a 666ª


Quando pedimos para que alguém nos conte uma história, entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração. As histórias espantosas, cujos assuntos são extasiantes, maravilhosos e insólitos, precisam ser contadas a fim de que elas mesmas se encaminhem até a adequada complementação dos seus sentidos e dos seus suaves vocábulos. E com elas avançamos sem saber sobre o que o oculto nos reserva.

Conta-se, mas Deus sabe mais sobre o que já é ausência, que nós postamos que Sahrazad disse que um certo rei disse que, sem lhe ver a imagem, ouviu a voz de alguém dizer em versos o nascimento de sua filha Hayfa.

Hayfa cresceu em um palácio em forma de cubo no centro de um círculo de água. O rio em torno do palácio parecendo um anel em torno do dedo. Os construtores escreveram poesias nas correntes dos lampiões de cristal pendurados no salão e também nos lampiões. Na porta, escreveram: “Este palácio já aparece como alegria para quem o vê; o bom augúrio escreveu às suas portas: entrem em paz e segurança”.

Aos 4 anos, Hayfa decorou o alfabeto e adquiriu um discurso agradável. Aos 10 anos, decorou metros da poesia e seu discurso ficou ainda mais belo. Aos 14, ensinou as criadas a fazer poesia. Hayfa escreveu na porta do palácio: “Ó leitor destas linhas, vê se entende e pensa, eu te peço por Deus poderoso”.

Um dia, um príncipe chamado Yusuf, fugindo da casa de seu pai, chegou às margens do rio que contornava o palácio de Hayfa. Yusuf mergulhou no rio, atravessou o curso d’água, chegou à outra margem, leu os versos na porta do palácio e escreveu outros: “À  sua porta, fonte de generosidade, chegou um forasteiro desterrado que se tornou errante; talvez sua generosidade o salve da errância, e o proteja da injustiça do inimigo contumaz. Não tenho refúgio senão a sua porta, a qual contém sentidos de versos como se fossem colares, que o filho de Sahl leu, e recorreu a vocês. Socorram o estranho que lhes chega sozinho”.

Encontrando-se, Hayfa e Yusuf se indagaram a si mesmos, ambos ignorando o que lhes destinara aquele que quando diz para algo “seja”, é. Ela disse para que ele deixasse por conta dela a boa resposta, a sutileza da palavra e a essência da poesia. Ambos se extasiaram profundamente com a poesia, arrancaram as roupas, gritaram e ficaram desacordados quando a poesia foi concluída com os sentidos ocultos nela inovados.

Mas, no momento do ciúme e da separação, Yusuf se tornou aquele cujo coração já não mais permitia poesias. E, então, o coração e o sopro vital de Yusuf ficaram com Hayfa, enquanto seu coração e sua mente estavam em luta. A mente e o juízo de Yusuf desejavam a secura. O coração e o sopro vital, a relação.

Como o destino irremediável dos corações é se reunirem uns aos outros, venceu a relação.

Quando entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração, recebemos o entendimento. O que é o entendimento? É a reflexão e a compreensão das coisas em sua verdade. Sahrazad havia lido e entendido, por isso podia narrar.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”




Livro das Mil e Uma Noites – Volume III (ramo egípcio, 2007)


Foi quando Sahrazad começou a falar sobre as ações. O que nos sucede é provocado por nossas próprias mãos (que não evitam a traição), língua (que não diz a verdade) e pés (que seguem as mãos e a língua).

Depois passou a falar sobre os motivos. O do afeto é o decoro. Do amor, a dádiva. Da castidade, o desvio do olhar. Do lucro, o esforço. Da aversão, a sabedoria. Da fraternidade, a afabilidade. Do abandono, a punição. Do ódio, a mentira. Do saber, a busca.

Falou sobre os interesses, que são diferentes dos motivos. Cada um sabe melhor do que o outro qual é o seu próprio interesse.

Falou sobre as circunstâncias em que as ações são feitas. Falou sobre a pressa, que não produz nenhum benefício se as coisas estão sob controle. Tudo que se faz com pressa não perdura.

Falou sobre as consequências, sobre a aflição e o arrependimento. Inúteis diante do que já foi feito.

E falou sobre a magia. Falou de aves que se transformavam em moças que pareciam luas e de geomantas que faziam a areia falar a sorte.

O rei Sahryiar, então, ouvindo a história do rei Sah Baht, pensou sobre o que ele mesmo estava fazendo: matando mulheres e meninas. Louvou a Deus em seu pensamento, pois ocupando-se da jovem Sahrazad, não continuava matando. Tirar a vida é uma enormidade! Ele considerou que se o rei Sab Baht perdoasse o seu vizir, também ele perdoaria Sahrazad.

E o rei continuou prestando atenção às palavras dela.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”. 




Livro das Mil e Uma Noites – Volume II (ramo sírio, 2005)




Sahrazad contou histórias sobre a alegria de viver, os prazeres desfrutados em pencas ao lado de um riacho sob céus de murta, estrelas de narciso, sóis de rosa, relampos de vinho, nuvens de taça, trovões de incenso e brumas de arco-íris.

Falou de cidades agradáveis e seguras, que se ondulavam sob os pés do morador e se mexiam sob os pés do residente. Falou de comandantes que escreviam, que liam e que exorcizavam.

Narrou sobre as horas contadas dos amantes, os corações úmidos de saudade e de afeto e os olhos que procuram a cura na insônia. Narrou sobre pessoas livres que eram enganadas por belas palavras e sobre pessoas que agiam conforme a sua natureza. Narrou sobre o perdão e a absolvição.

Expôs o que sabia sobre o destruidor dos prazeres e separador dos grupos, louvando quem prepara o tempo, constrói os mundos e não se distrai de uma coisa por outra.

Dinarzad ouviu sobre a paciência. A paciência de que devemos nos armar na desgraça, a paciência alquebrada que luta com o sentimento desperdiçado, a paciência que é amarga, a paciência que deveria se espantar da própria paciência quando somos pacientes.

E ouviu também sobre o destino, cujas decisões ninguém pode evitar. O destino ingrato, que talvez afrouxe as rédeas e renove as esperanças.

Depois disso, que o rei deixasse que outras coisas ocorressem. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”.


Volume I        Volume III


Livro das Mil e Uma Noites – Volume I (ramo sírio, 2005)




Tudo começou quando o rei Sahriyar descobriu que havia sido traído pela sua esposa com um escravo. A tomada de consciência da traição o conduziu a uma pergunta: alguém no mundo teria sofrido uma desgraça ainda pior do que a dele? Traído, com essa questão em mente e na companhia de seu irmão Sahzaman, Sahriyar decidiu abandonar seu reino e perambular. Se encontrasse alguém cuja desgraça fosse pior do que a dele, retornaria. Se não, continuaria a vagar pelo mundo. O rei e seu irmão saíram do palácio pela porta secreta e seguiram viagem até a orla do mar salgado.

Lá os dois encontraram uma bela jovem que vivia trancada em um baú de vidro no fundo do mar sob a vigilância de seu marido. Mesmo assim, a mulher o traía enquanto ele dormia: “quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la”. Esta bela mulher carregava consigo um saco contendo cem anéis: “todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel”.

Diante de tamanha desgraça, Sahriyar e Sahzaman voltaram para o reino.

O rei Sahryiar decidiu, então, se casar a cada noite com uma mulher diferente e matá-la antes do dia amanhecer. Um casamento que não duraria mais do que a noite de núpcias. O horror tomou conta das famílias e do reino.

Até que, em uma certa noite, que seria a primeira das mil que se seguiriam, Sahryiar se casou com Sahrazad. Ela tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorado poesias e consultado as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Sahrazad pediu ao rei que chamasse sua irmã Dinarzad a fim de que elas pudessem se despedir. Quando a noite se fez mais espessa, no momento oportuno, Dinarzad disse: “Minha irmãzinha, se não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas, para que eu possa despedir-me de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã”.

A pedido da irmã e com a permissão do rei, Sahrazad disse contente: “ouça”. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”. 


Introdução        Volume II


Livro das Mil e Uma Noites – Introdução

As mil e uma noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho.

Jorge Luis Borges

Mamede Mustafa Jarouche traduziu Kitáb alf layla wa layla, título original do Livro das Mil e Uma Noites, do árabe para o português. O tradutor verteu palavras e expressões de um idioma para o outro, captando ritmos, tons e melodias e acrescentando notas não apenas esclarecedoras para nosso entendimento, como também inspiradoras. À seguinte fala de uma personagem: Ó rei, não deixes que o amor ou o ódio pelo que quer que seja te adentre o coração, pois o coração possui uma especificidade inscrita em seu nome, não tendo sido chamado de coração senão por se revirar, ele acrescentou a nota: em árabe, a palavra taqallub, nome da ação do ‘ato de revirar-se’, é cognata de qalb, ‘coração’. Jarouche nos apresenta também o significado dos nomes das personagens. Ala’uddim, o da lâmpada mágica, quer dizer elevação da fé (ala – elevação  e addim – a fé).

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Livro das Mil e Uma Noites, unindo-nos àqueles que se perguntam como e por que essas histórias, das quais desconhecemos a autoria, foram criadas. E vamos tentar fazer parte de sua criação coletiva transformando-o em posts para continuar compondo nosso mosaico de textos. Serão 7 tesselas postadas, como se fossem os 7 véus a serem retirados:

1) Introdução
2) Volume 1
3) Volume 2
4) Volume 3
5) Na noite seguinte, que era a 666ª
6) As 1001 noites ou O livro do véu de Ísis
7) Volume 4

Esperamos que nossas tesselas se aproximem da beleza daqueles mosaicos do palácio de Aladim, construído com pedras de jade, mármore e pórfiro pelo escravo que saía da lâmpada quando ela era esfregada. E esperamos que elas possam revelar aos nossos corações novos entendimentos para a tradução de Mamede Mustafa Jarouche.