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Ensaio sobre a lucidez

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim,


O que  é o voto em branco? Um direito, uma manifestação em silêncio, algo que torna o sistema democrático ingovernável, atingindo o coração da democracia como nenhum sistema totalitário pode fazer, uma renúncia, uma desilusão, uma cegueira, uma lucidez?

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Ensaio sobre a lucidez de José Saramago a fim de completar a nossa téssera. A leitura nos permitiu observar vários aspectos do voto em branco. Debruçamo-nos sobre alguns neste post e os ampliamos através dos links.

O que é um direito? É uma questão de mérito? Nossos direitos são realmente nossos? Os momentos de crise são aqueles em que nossos direitos não são respeitados? Como um direito não respeitado pode existir? Encontramos em nossa leitura que um direito só existe em potência no dever de que seja respeitado e cumprido. Encontramos também que um direito só existe no papel. Os direitos só o são integralmente nas palavras com que tenham sido enunciados e no pedaço de papel em que hajam sido consignados. A sua aplicação inconsiderada convulsionaria a sociedade.

Consideremos uma eleição em que a quantidade de votos em branco seja superior a 80%. O que faz o governo diante disso? Ele toma as devidas providências. Primeiro cria um paradoxo, considerando que houve um uso legal abusivo do direito do voto em branco. Depois, recorre a espionagem e interrogatório a fim de descobrir os envolvidos no uso abusivo. Falhando, declara que a capital (onde ocorreu a maioria dos votos em branco) encontra-se em estado de sítio. O governo se retira da capital e o exército a cerca. Cogita-se como próximo passo a construção de um muro que a separe do restante do país. Finalmente haverá mudanças na lei eleitoral: o voto em branco passa a equivaler ao voto nulo ou não há mais voto em branco ou distribuem-se igualmente os votos em branco por todos os partidos ou sei lá que mais. Paralelamente às estratégias oficiais, temos atentados e saques forjados, sabotagens, falsificações...

A ação das autoridades também se dá através da palavra. Procura-se primeiro um adjetivo que possa desqualificar os que votaram em branco – indisciplinados, rebeldes, conspiradores, subversivos, desertores, perversos, diabólicos, inimigos, terroristas. Eis que alguém consegue substantivá-los: são os brancosos.

Os ministros exercem seu poder por meio dos discursos dos redatores de gabinete. Estes são mestres na arte do convencimento, a arte de fazer com que a verdade coincida com a mentira. Comparam-se os votos em branco com a cegueira branca. A questão política dos brancosos é uma questão de saúde. A mídia realiza o seu trabalho de intoxicação. Impressiona-se o público com uma doença, ou melhor ainda, com uma epidemia. Deixando-se enganar, a população é convencida de que corre o risco de estar novamente cega.

Em meio ao paradoxo, à mentira e à cegueira, encontramos a organização da população da capital. Encontramos casos admiráveis de renúncia, “daqueles que ainda nos permitem pensar que se perseverarmos nesses e noutros gestos de meritória abnegação, acabamos por cumprir com acrescimentos a nossa pequena parte no projeto monumental da criação”, escreve o autor. Encontramos pessoas que varreram calçadas quando não havia instituições oficiais para realizar a limpeza das ruas; pessoas que choraram os mortos desconhecidos; pessoas lúcidas que pediram demissão, apesar da família, da carreira, da vida; encontramos os mais nobres exemplos da história do amor ao próximo – cada um decidindo por sua conta e a sós com sua consciência. Encontramos uma organização que se sustenta com a lucidez.

O Ensaio sobre a lucidez ainda não virou filme.


Essas palavras, que, provavelmente, tal como se apresentam, ninguém as haveria dito antes, essas palavras tiveram a sorte de não se perderem umas das outras, tiveram quem as juntasse, quem sabe se o mundo não seria um pouco mais decente se soubéssemos como reunir umas quantas palavras que andam por aí soltas,


Visão da ruína

¿!  As ruínas são registros mudos.


Sutra: a arte

A arte de apresentar qualquer assunto em forma condensada como aforismos consiste em separar o não essencial do essencial e apresentar somente a essência a mais interior. 


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1) O nosso Mahabharata




O Mahabharata é a grande história da guerra entre os Kurus e os Pandavas, ambos descendentes da dinastia Bharata. A batalha se dá no Kurukshetra, o campo dos kurus. Encontramos nas Línguas do mundo de Berlitz a informação de que a Índia se chama Bharat em hindi. E na Aventura das línguas de Störig encontramos que bhar é uma raiz que quer dizer trazer. Se conjugarmos o verbo bharani no presente do indicativo, teremos bharami, bharasi, bharati, bharamas, bharata (nós trazemos), bharanti. Inspirações linguísticas para tentarmos compreender o significado da maha (grande) narrativa que vamos tesselar.

Conta-se que o poeta Vyasa compôs os cem mil versos da epopeia em sua mente e que Ganesha, o deus dos ladrões e dos escritores, o escreveu. O poeta é filho do menestrel errante Parashara e de Satyavati, encontrada nas entranhas de uma mãe-peixe no rio Yamuna. Vyasa contou o Mahabharata para Vaisampayana, que o contou a Sauti, a Astika e ao próprio Vyasa. Sauti, por sua vez, o contou a Saunaka.

Lemos em Nossos Estudos Poéticos a história dos narradores Vaisampayana e Saunaka contada em prosa por William Buck e traduzida por Carlos Afonso Malferrari. Buck refere-se ao livro que lemos como o seu Mahabharata.

Existem inúmeras versões do Mahabharata, solvidas em interpolações, coaguladas em edições, vertidas em várias línguas. O nosso Mahabharata será condensado em sete posts e dissolvido em diversos links. As postagens procuram seguir a divisão do próprio livro de Buck:

1) O nosso Mahabharata
2) Prefácios e introdução ao Mahabharata
3) O Mahabharata – No princípio
4) O Mahabharata – No entremeio
5) O Mahabharata – No entremeio, as perguntas e as respostas
6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra
7) No fim

Quem ouve o Mahabharata e o compreende, mesmo que só uma parte dele, se liberta das prisões que construiu para si mesmo com suas obras boas e más. O Mahabharata tem o poder da vitória! 




Calçadas musicais



A onda que invade todos os verões é o Carnaval. Uma onda de ansiedade atinge as pessoas nos dias que antecedem o feriado. E os blocos são uma longa série de ondas de euforia a tomar conta das ruas.

Aproveitamos, então, para falar de uma rua muito especial do carnavalesco bairro de Vila Isabel: o Boulevard 28 de setembro. A rua recebeu esse nome por ser a data em que a princesa Isabel assinou a lei do ventre livre, tornando livres filhos de escravos nascidos a partir daquele dia. O mosaico acima é parte das calçadas do Boulevard. Durante o carnaval, um colorido mosaico se sobrepõe ao preto e branco dessas ondas musicais – são os confetes dos foliões que por ali desfilam.

Em comemoração aos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena idealizou a obra – as Calçadas Musicais. Nelas encontramos partituras e cifras de importantes canções da música popular brasileira. Foi o músico Almirante, morador da Vila, quem selecionou o repertório a ser tesselado. O maestro Carioca simplificou as partituras. O projeto decorativo ficou por conta do arquiteto Hugo Ribeiro. E os anônimos calceteiros concretizaram a ideia com as conhecidas pedras portuguesas.

Símbolos do bairro, as Calçadas Musicais tesselam as seguintes canções:

¿!  Cidade Maravilhosa - André Filho (na Praça Maracanã)
¿!  Jura - Sinhô
¿!  Renascer das cinzas - Martinho da Vila (na Praça Barão de Drummond)

Vila Isabel é o berço dos compositores Noel Rosa, João de Barro e Martinho da Vila e é também o berço da escola de samba Unidos de Vila Isabel. Em 1988, ano da promulgação da nossa atual constituição, a escola foi campeã do carnaval com o enredo Kizomba – Festa da Raça. O enredo foi idealizado por Martinho da Vila, tendo Rodolpho de Souza, Jonas e Luiz Carlos da Vila como compositores do samba-enredo. “Anastácia não se deixou escravizar”, “O pagode é o partido popular” e “Esta kizomba é nossa constituição” são partes da letra do samba.

Os versos de outros carnavais são cantarolados nos blocos de rua ainda hoje. Uma onda de nostalgia também invade a festa das raças. 


Fonte da imagem: Rio eu te amo


Mestres calceteiros


Mar largo - estrutura geométrica do calçamento em ondas (croqui José Tabacow)


A arte pública do mosaico de pedras portuguesas, formado pela justaposição de pedras de formato irregular, é uma tradição dos países lusófonos derivada possivelmente do mosaico romano. Os pavimentos calcetados de pedras de calcário branco e preto datam de 1500 e foram muito empregados no paisagismo de meados do século XIX. Uma das técnicas utilizadas na elaboração desse mosaico é o mar largo. Um exemplo é o calçadão de Copacabana, projetado no início do século XX por Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow.

Hoje muitos desses mosaicos vêm sendo substituídos por cimento. A justificativa para a destruição dos mosaicos é politicamente correta – falta de acessibilidade para deficientes físicos, piso escorregadio para idosos. Já outros mosaicos vêm sendo substituídos por asfalto. A justificativa é a mobilidade urbana – pistas mais largas para carros e abertura de ciclovias. Tudo se encaixa. Mas não sabemos para onde vão as pedras retiradas.

Dizem os anônimos mestres calceteiros, no entanto, que a destruição do mosaico se deve à incompetência de nossa época: aplicação em locais indevidos, situados em áreas inclinadas, reparos realizados por mão-de-obra não qualificada, buracos por causa do mau encaixe das pedras. Cimento e asfalto são as vantagens do imediatismo e do simplismo e do baixo custo.

A lição que podemos aprender com os mestres calceteiros é a seguinte: a arte identifica sua época e seu espaço até mesmo quando abandonada, desprezada e destruída. E reflete as qualidades que desenvolvemos. A calcetaria só é bela e segura quando bem feita.

Todos os anos, milhões de pessoas se reúnem no mar largo de Copacabana para celebrar a chegada do ano novo. Jogam flores no mar, acendem velas, abrem garrafas de espumante, brindam, fazem pedidos, votos e promessas. Celebremos, então, o nosso tempo e o nosso espaço, refletindo sobre as qualidades que vamos desenvolver ao longo de 2015. As qualidades que vão nos identificar.

Fonte da imagem: Vitruvius


Deixando a Casa da Flôr




1. Se dá voltas a uma escultura,/ o corpo é que a envolve, livre;/ se penetra em qualquer pintura/ como janela que se abrisse;// se pode boiar numa música,/ nos pauís doentes de que consiste;/ se pode ir em fins de semana/ a romances que tenham o “habite-se”.//

2. Mas só a arquitetura é total,/ não virtual, ao corpo que a vive,/ ainda mais se essa arquitetura/ numa cidade se urbanize;//

Com os versos de João Cabral de Melo Neto nos despedimos da Casa da Flôr. Aproveitamos para agradecer ao sobrinho-neto de Seu Gabriel, que nos acompanhou durante a nossa visita, que contou histórias sobre a casa e que se despediu de nós recitando uma poesia. Retribuímos agora com os versos do Ferrageiro de Carmona. 

Explicaria o Ferrageiro que as flores de Seu Gabriel são “flores criadas numa outra língua,/ nada têm das flores de fôrma moldadas pela das campinas”. A Casa da Flôr não é feita de “[...] uma flor já sabida,/ mas do que pode até ser flor/ se flor parece a quem o diga”.

E nós, blogueiros, explicaríamos ao Ferrageiro que não foi a força com que se trabalha o ferro forjado, material de grande resistência, que deu limites às flores de Seu Gabriel. As flores de Seu Gabriel são feitas de materiais de pouca resistência, que se quebram facilmente. Foi a força do pensamento que uniu os cacos, dando-lhes uma nova forma.

Nos posts de Nossos Estudos Poéticos, a arquitetura da Casa da Flôr tornou-se virtual. Em Nossos Estudos Poéticos, os mosaicos de Seu Gabriel tornaram-se tesselas de nosso mosaico. Que todas as tesselas venham a ser um mosaico. Que todos os fragmentos venham a ser tésseras. Que tudo floresça e, depois, volte a ser uma semente.


No jardim da Casa da Flôr




a rosa dos ventos, a rosa de ouro, a Rosa de Hiroshima, a Rosa Cândida, a rosa-cruz, a rosa mística, o lótus, a hortênsia, a anêmona, o narciso, o lírio, o girassol vítreo, a taça de vida, a chuva, o orvalho, a alma, o coração, o amor, uma roda, uma rosácea gótica, uma mandala, uma pedra de roseta, de a a ksha, do alfa ao ômega, de A a Z: um rosário


A flor da superfície


A Casa da Flôr ainda guarda os pertences de Seu Gabriel – um livro, uma bandeira do Brasil, fotos de família, a louça que aparece na foto. Vejam: há uma flor pintada sobre a superfície do bule. As flores existem no todo e nas partes. As flores existem profunda e superficialmente.


Ron English – Do Estúdio para a Rua


Tesselas de quadrinhos

O quadro é de Nossa Senhora. Os quadrinhos são da Mulher Maravilha. A obra é de Ron English.

Visitamos a exposição Do Estúdio para a Rua na Caixa Cultural RJ em 1º de novembro. Descobrimos 110 obras do padrinho da arte urbana, mais um elo da corrente formada por ... Picasso, Andy Warhol, Banksy, Shepard Fairy ...

O processo criativo do artista pode ser visto no documentário POPaganda: The Art and Crimes of Ron English, dirigido por Pedro Carvajal e exibido em uma das salas da mostra. Destacamos a metalinguística na apropriação de outdoors para se refletir sobre o consumo sem perder o humor típico da linguagem da publicidade.

De acordo com o curador Rafael Ferraz, Ron English reconfigura e ressignifica a iconografia pop. De acordo com o próprio Ron English, seu trabalho recontextualiza as imagens do consumismo pop na sua visão do que é a alma americana.

Mc Supersized, mascote da rede de phat food, reparte um hambúrguer na Santa Ceia com 12 personagens de animação, Huck Boy está crescendo assustadoramente, a chupeta tem uma bala de revólver, o cérebro é um útero, a lâmpada elétrica contém o cogumelo da bomba atômica, Abraham Obama é presidente dos EUA, o V de vitória é o V de violência no gesto de paz e amor formado por dois mísseis e o Smile revela o maxilar de uma caveira.

Em Nossos Estudos Poéticos, tudo tesselas de um colorido mosaico, quadrinhos em história.


Fonte da imagem: www.pinterest.com


Matéria, arte, vida



Nossa afinidade com o pensamento do autor destas palavras recitadas se reflete nos links:


Os artistas lidam com matéria inerte. O homem que está esculpindo a imagem do seu Eu verdadeiro para emergir de sua natureza inferior está trabalhando com alguma coisa viva, real. Um problema da vida está sendo resolvido. Um quadro vivo do que deveremos ser no futuro está sendo pintado. Uma nova estátua corporificando nossa futura perfeição está sendo esculpida no mármore bruto de nossa natureza inferior. É a criatividade divina neste trabalho que transforma nossa vida numa canção, apesar de todas as perturbações e tribulações que passamos na periferia de nossa consciência no mundo externo. É semelhante ao processo de um botão tentando abrir-se em flor com toda a alegria natural sempre presente em tal processo de desenvolvimento na natureza. Estamos tentando trazer o futuro para o presente. Estamos nos tornando aquilo que somos. Não sabemos como a estátua será, mas Aquele que é o Eu interior sabe e sentimos sua mão guiando-nos ao tomarmos o buril e começarmos a modelar o bloco de mármore de nossa natureza bruta. Os que são artistas e conhecem a alegria de pintar um quadro ou escrever um poema podem avaliar o que seria a felicidade de produzir uma imagem divina viva, que potencialmente está oculta em nosso interior. Um quadro é coisa morta, uma estátua é coisa morta, mas aquilo que tem vida, que aos poucos vai surgindo de nosso interior, é um Ser Divino de infinito potencial, que se torna cada vez mais um veículo do amor, da sabedoria e do poder divinos.


I. K. Taimni, em Autocultura à Luz do Ocultismo



Deus esteja na Casa da Flôr


http://nossosestudospoeticos.blogspot.com.br/2014/10/entrando-na-casa-da-flor.html


Depois de lida a placa oficial, que apresenta a Casa da Flôr como uma obra de arquitetura espontânea popular, lemos a mensagem gravada por Seu Gabriel em 10 de abril de 1899: Deus esteja nesta casa.

Diante do desejo do artista e em meio à união de tantos fragmentos, sentimos a presença divina, ou percebemos a unidade na diversidade, quando vemos uma casa se tornar uma não casa, se tornar uma flor, se tornar uma história, se tornar um templo...

Sim, uma casa se transforma em um templo quando é um espaço para a arte, quando é matéria para criação.


Algumas palavras antes de entrar na Casa da Flôr




“Esta casa não é uma casa... isto é uma história. É uma história porque foi feita de pensamento e sonho... uma casa feita de caco transformada em flor”. Essas são as palavras de Gabriel Joaquim dos Santos sobre a sua não casa, sobre a sua história, que não se resume apenas a fatos. A história deste artista tem pensamentos e sonhos, ligados talvez às leis verdadeiras e aos altos princípios. Essas palavras estão gravadas em uma placa na entrada da Casa da Flôr.

Chegamos à entrada da Casa da Flôr pegando um ônibus e pedindo ao trocador para que ele nos avisasse quando descer. Era um dia cinza e úmido. As palavras do trocador foram: “Mas não tem nada para ver na casa da flor”.

Depois de descer do ônibus, seguimos andando e, no caminho, tiramos a foto que ilustra este post. É a foto do muro de uma das casas na vizinhança da Casa da Flôr. Ela também tem cacos e flor. Mas não tem aquilo que une os dois elementos – a transformação.

As palavras de Gabriel Joaquim dos Santos estão gravadas em uma placa. E estão também gravadas em cada pétala tessela de sua histórica flor. Gravadas para aqueles que puderem ver a não casa.


Equinócio de Primavera




Flores de vidro, flores de caco, flores de concha, flores de ralo, flores de lâmpada, pedra, louça... flores e mais flores brotam de nossos estudos poéticos na Casa da Flôr. Nesta primavera, vamos transformar em tesselas a viagem que fizemos ao mosaico do salineiro Joaquim Gabriel dos Santos em São Pedro da Aldeia. Floresçamos!




Cansaço




Cansaço – 1) Falta de forças causada por exercício demasiado ou por doença; fadiga, canseira. Canseira – 1) Esforço aturado para conseguir qualquer coisa. Cansado – 1) Fatigado. 2) Aborrecido, enfastiado. 3) Diz-se da encadernação um tanto gasta pelo uso. 4) Diz-se da terra pouco produtiva por já haver suportado muitas culturas. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Cansaço – século XIV, do latim campsare, provavelmente. Século XIII, canssar. (Adaptado do Dicionário Analógico)

Campsare – Rodear, andar à roda, dobrar [um cabo, uma ponta (no mar)]. (Adaptado do Dicionário Latino-Português)

Cansaço – abandono, orfandade, desistência, arrependimento, cessão, renúncia, eclipse, variedade, desapego, desistência, infidelidade, indiferença, desamor, desatenção, desalento, desânimo, relaxamento, distração, apatia, desuso [em desamparo]. Sacrifício, zelo, empenho, matança, trabalho penoso, lida, incômodo, luta, labor, energia [em esforço]. Quebradeira, aguamento, moleza, exaustão, esgotamento, anelação, arfar do peito, pulsar do coração, colapso, vertigem [em fadiga]. Tédio, seca, desprazer, enjoo, desgosto, lassidão, ânsias, insipidez, monotonia, aridez, moedor, narcótico [em enfado]. Canseira – vida febril, vigília, noitada, insônia, alegria ruidosa, ímpeto, movimento, tumulto, vaivém, agitação, barulho, nervosismo, sofreguidão, Carpe diem (oportunidade), Nulla dies sine linea, Dito e feito [em atividade]. Impraticabilidade, onerosidade, corda na garganta, pedra no caminho, questão delicada, cachoeira, rede, labirinto, passo extremo, custo, água fervente, casa de marimbondo, beco sem saída, algemas, espinhos [em dificuldade]. Cansado – frágil, delicado, preso ao leito, incapaz, vaporoso, trêmulo, frio, mórbido, anêmico, decadente, murcho, sem seiva [em fraqueza]. Ingrato, estéril, infértil, infecundo, infrutífero, mesquinho, desnudo, baldio, desfavorecido, agreste, desértico, inútil [em improdutividade]. Cansar – Ferir, traspassar/ partir/ picar/ triturar o coração, torturar, atormentar, magoar, despedaçar, desconjurar, lançar em profunda tristeza, confranger a alma, infernizar, desconsolar, oprimir, ser um dia de juízo, sangrar, arrancar lágrimas, chamar lágrimas aos olhos, desconfortar, pesar, cruciar, pisar, pisotear, espezinhar, esmagar, funestar, miserar, preocupar, aguar um prazer, desagradar, nublar, exasperar, pôr à prova a paciência de, causticar, enlutar, revoltar, horrorizar, desvelar, colocar mais um prego no caixão de [em dolorimento]. (Adaptado do Dicionário Analógico)

Roda – a roda participa da perfeição sugerida pelo círculo, mas com uma certa valência de imperfeição, porque ela se refere ao mundo do vir a ser, da criação contínua, da contingência, do perecível. Simboliza os ciclos, os reinícios, as renovações. O mundo é como uma roda numa roda, segundo o pensamento de Nicolau de Cusa. Como a asa, a roda é um símbolo do deslocamento, da libertação das condições de lugar e do estado espiritual que lhes é correlativo. A roda só toca o solo em um único ponto. O simbolismo da roda provém de sua estrutura radial e de seu movimento. Evoca a viagem dos astros e se revela como um símbolo do mundo: os raios indicam a relação da circunferência com o centro. É também símbolo da mudança e do retorno das formas da existência. Inscreve-se no quadro geral dos símbolos de emanação-retorno, que exprimem a evolução do universo e a da pessoa. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Cansaço para eles:

Carlos Drummond de Andrade – No meio do caminho
Hermann Hesse – Sidarta
Joséphin Soulary – O Verbo disse: Nada!


Solstício de verão


Gamboa Seasons - Summer Love 2010, de Beatriz Milhazes

As novas formas vieram! Cheias de luz.

Vimos esta obra na exposição Meu Bem no Paço Imperial do Rio de Janeiro.

Com a série Gamboa Seasons de Beatriz Milhazes na nossa série das estações do ano, desejamos um verão irradiante e ensolarado para todos.




Fonte da imagem: Escape into life


Aves calcificadas


A Pedra

Dorme que nem pedra.
Os homens são pedras
         enquanto dormem.

Descansam ao som das ondas
e à sombra das gaivotas
         enquanto dormem.

Homem! Cinge tuas asas
         enquanto a Pedra dorme.


Foto: Nick Brandt. Fonte: New Scientist.

 
Este é o Lago Natron, no norte da Tanzânia.

Este é o lago de nome Natrão –  um mineral composto por carbonato de sódio hidratado, uma das substâncias utilizadas pelos antigos egípcios nos processos de mumificação, quando as múmias ficavam imersas num composto de carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, cloreto de sódio e sulfato de sódio.

No lago Natron, as temperaturas podem chegar a 60°C.
No lago Natron, a alcalinidade é entre pH 9 e pH 10,5.
No lago Natron, acumulam-se as cinzas vulcânicas do Grande Vale do Rift.

No lago Natron, as aves se iludem com a reflexão na superfície do espelho d´água.
No lago Natron, as aves, como Narciso, mergulham em si.
No lago Natron, as aves, ao se secarem, morrem calcificadas.


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Equinócio de primavera

A Espera, de Picasso

Durante a primavera de 1901, este quadro foi pintado por Picasso.

Remete aos mosaicos. Aos mosaicos do nome e da técnica.

O título da obra é Pierreuse, a Mão sobre o Ombro, é também Margot e é também A Espera. Uma composição de nomes.

O fundo do quadro recria peças de um mosaico, seis anos antes do ponto de partida do Cubismo: Les Demoiselles d´Avignon. O mosaico foi a espera até que a semente do Pontilhismo florescesse por fim em cubo. Marcando uma nova primavera na arte pictórica.

Que venham novas flores e novas formas!




Fonte da imagem: Blogue Desesperando Godot


Gonzagão – A lenda


"Sabe supor"?  "Posso tentar"!... (diálogo do musical Gonzagão - A lenda)


Vamos supor que todo artista tenha uma téssera e que a téssera de Luiz Gonzaga seja composta por dois pássaros – Asa Branca e Assum Preto.

Assum Preto vive em meio à beleza, mas é cego. Asa Branca pode enxergar tudo, mas tudo que vê é seca, sede e solidão. De Assum Preto ouvimos o canto. De Asa Branca ouvimos o bater de asas.

Vamos supor agora que exista uma lenda que diga que uma téssera, quando cantada, desperta os próprios poderes do canto.

A poesia é o poder do canto. O canto é o sopro da criatura em resposta ao sopro do criador. O poeta adivinho, quando realiza sua função, expressa-se através do canto. Encontramos em línguas como o irlandês e o bretão a ligação da palavra canto com as palavras encantação e lição.

Vamos supor ainda que a lenda diga que uma téssera cantada, se ouvida, desperta os poderes do voo.

A poesia é o poder do voo. As asas simbolizam a desmaterialização, a leveza do peso abandonado. O poeta tem asas no momento em que está inspirado. Asas nunca são recebidas: são sempre conquistadas. Dizem os bramanas que aquele que compreende tem asas.

Vamos supor também que essa suposta lenda da téssera dos pássaros possa unir esse suposto voo e esse suposto canto.

O canto atrai o voo. Asa Branca voa em busca do canto de Assum Preto.

Vamos supor por fim que a verdade possa estar na lenda e na história ao mesmo tempo – Asa Branca e Assum Preto são um pássaro só.


Tentando supor a partir do musical Gonzagão – A lenda, de João Falcão, e de consultas ao Dicionário de Símbolos.