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3) O Mahabharata – No princípio


Eis que nasceu o mundo maravilhoso,
Num instante ele morre,
E num sopro se refaz.

Pela lentidão de nosso olho
E a rapidez da mão de Deus,
Nós acreditamos no mundo.


No princípio houve o amor. Amaldiçoado o que torna o amor inútil e bendito o que ama sem nunca ter visto. Mas, na história de guerreiros, até o deus do amor apresenta-se armado. Kama carrega o arco mais poderoso do mundo. Feito de cana-de-açúcar, sua corda é uma fileira de abelhas e suas flechas têm pontas de flor. Houve o amor de Ganga, a deusa do rio, pelo rei Bharata Santanu; houve o amor de Gandhari pelo rei cego Dhritarashtra; houve o amor de Pandu por Kunti, mãe de Karna, Arjuna, Bhima e Yudhishthira; houve o amor de Pandu por Madri, mãe de Nakula e Sahadeva; houve o amor de Draupadi, a nascida do fogo de Shiva, pelos seus cinco maridos Pandavas. Houve muitos outros amores. Talvez, em algum aspecto, o próprio Duryodhana tenha amado Draupadi. 

No princípio houve as armas. Foi ensinado a cada guerreiro o que eles podiam aprender. Ao melhor deles, revelaram-se as armas. Arjuna, o príncipe argênteo, permanecia com seu arco tão estirado que formava um círculo. Os olhos do melhor arqueiro de todo o mundo só viam o alvo, nada mais podiam descrever. Prometeu ao seu instrutor que sempre lutaria para vencer. O deus do fogo Agni entregou à Arjuna o arco Gandiva, duas aljavas de flechas que jamais se esgotavam e uma carruagem onde havia um disco de ferro para Krishna. Bhima, o de olhos cinzentos, arrojava uma pesada clava octogonal. Yudhishthira, o de olhos dourados, era o melhor auriga. Sahadeva, o que sabe o que é verdadeiro, e Nakula, o que tudo descobre através da amizade, eram os melhores espadachins.




No princípio houve a amizade entre Krishna e Arjuna. Narayana conhecera Nara há muito tempo, às margens de uma água que era leite. Arjuna lembrou-se da alta árvore de Narayana, mas a lembrança esvaeceu-se. Krishna sorriu e abraçou Arjuna. Todos os deuses vieram ver os dois – a alma de toda a vida e seu amigo de outrora. Indra, o senhor dos deuses, reconheceu que ninguém pode lutar contra eles dois juntos. Os deuses sumiram. Krishna riu: “Bharata, ESTE é o mundo. Não há nenhum outro!”. Não existe ninguém que possa compreender a diferença entre estes dois amigos.

No princípio houve a construção do palácio dos pandavas. Maya, o que trouxe para Arjuna a trombeta de búzio Devadatta, manteve-se oculto e invisível até terminar a construção. Sobre mil colunas de ouro, um edifício mágico de mármore e pérolas. Arjuna quis saber se o palácio era uma ilusão. Maya, o construtor, disse que não sabia. Krishna riu.

No princípio houve o desafio do jogo de dados no qual as naturezas das personagens se revelaram. A de Arjuna era falar claramente. A de Yudhishthira era não poder recusar um desafio. Ele não tinha medo: sucesso ou desventura viriam, jogando ou não. Duryodhana era o que era e seguia a sua própria natureza. Somente a insatisfação o conduzia à felicidade. Yudhishthira perdeu tudo que tinha para Duryodhana e os kurus. Perdeu o reino, os irmãos, perdeu a si mesmo e perdeu Draupadi. Foi quando ela pensou em Krishna. Antes que o pensamento estivesse plenamente formado, Krishna foi até Draupadi, que teve suas vestes arrancadas. Mas ela trajava outra por baixo. Esta também foi arrancada. Mas Draupadi trajava outra por baixo. Trinta mantos finos e coloridos espalharam-se pelo chão – eles nunca veriam Draupadi. O rei cego libertou Draupadi e seus maridos. Jogou-se o último lance. O perdedor seria banido para a floresta, obrigado a passar 12 anos em exílio. O ganhador ficaria com todo o reino, devolvendo a metade para o perdedor quando o exílio terminasse.

No princípio houve o exílio. Vidura descreveu a partida dos pandavas e de Draupadi para o rei cego. Arjuna ia por último, lançando docemente grãos de areia com as duas mãos, como haveria de lançar flechas na batalha. E porque era a primeira no coração de todos, Draupadi, linda como a lua cheia, caminhava à frente. Chorava e cobria o rosto com suas mãos de lótus. Lakshmi havia sido insultada em pessoa.

No princípio houve o consolo de Krishna: “Princesa Draupadi, permaneceremos na roda da vida que gira e gira. Agora somos reis, logo passamos uma existência na crista de uma folha de relva. Mas vivemos sempre. Nada pode deter a roda. Quando lhe sobrevém uma felicidade, você não hesita em acreditar que ela seja real? Então, não aceite o infortúnio sem pô-lo à prova. Nada sabemos; ele talvez desapareça, talvez nem seja verdadeiro”.




Fonte da imagem: circunferência e círculo


Fonemas d’água: vr

Vr é a raiz de Varuna, o senhor das águas. A raiz significa cobrir. Remete ao que está oculto, aos invólucros e envoltórios. O que está escondido também está protegido, guardado. A palavra cobrir cobre a palavra pario. As camadas são cobrir > cooperire > co + operire > operire = ob + pario. Pario significa parir, dar à luz, pôr, gerar.

Os versos de Varuna são as cordas que ele traz na mão. Elas simbolizam o seu poder de ligar e desligar, prender e libertar. Nos manuscritos maias, a chuva é simbolizada por cordas. Il tombe des cordes (caem cordas) é uma expressão francesa para indicar que chove muito.

Os versos do senhor das águas Faro são colares. Com o colar de ouro, ele ouve as palavras secretas e poderosas dos homens. Com o colar de cobre, ele ouve as de uso corrente.

Os colares de Faro e as cordas de Varuna são os nossos versos d’água.


Jogos Vorazes – O tordo e a distopia



Foi no ano passado, na semana do Natal. Era noite de segunda-feira. O shopping estava cheio, havia fila na porta de uma loja de chinelos, as pessoas carregavam sacolas e bolsas esbarrando umas nas outras. Uma das consumidoras reclamava de ter sido roubada, de ter ficado sem dinheiro, cartão, documento, chave... O cinema estava mais vazio que de costume. Foi quando assistimos à primeira parte de Jogos Vorazes – A Esperança, adaptação para o cinema do livro de Suzanne Collins.


Quem nos apresentou ao livro foi a mesma menina que nos mostrou Lições de Cousas. Na época, achamos interessante o fato de a ideia da autora ter surgido enquanto ela zapeava canais de tevê. O reality show em uma emissora e as cenas da Guerra do Iraque em outra formaram a téssera que deu origem à trilogia Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança. O link foi o mito de Teseu. Anos depois, uma amiga da tal menina sugeriu que fôssemos ver os filmes.


Vimos que os Jogos Vorazes (Hunger Games), realizados pela Capital de Panem, são um reality show no qual jovens tributos lutam até que somente um sobreviva em uma alegórica arena. Cada distrito de Panem é representado por um casal de tributos. A maioria dos participantes é escolhida por sorteio em um evento chamado Colheita. Nossas tésseras aparecem no livro para nomear o pequeno suprimento anual de grãos e óleo fornecido para uma pessoa em troca de que seu nome seja novamente colocado na Colheita. A fim de poupar a irmã sorteada, uma jovem apresenta-se como voluntária – a primeira voluntária do distrito 12. Trata-se de Katniss, a personagem principal. Sempre supreendendo os idealizadores, os patrocinadores e a audiência dos jogos, ela é a vencedora, juntamente com seu par. Quebrando as regras, a arqueira vai se transformando em símbolo. No início, da própria Capital. Mas, ao longo da trama, Katniss acaba se revelando o símbolo de uma guerra de resistência ao poder da Capital.


Em entrevista, Suzanne Collins diz que 1984 e Admirável Mundo Novo estão entre as influências diretas da trilogia por causa dos aspectos distópicos. Em discurso no parlamento britânico, John Stuart Mill foi o primeiro a fazer um uso conhecido do termo distopia: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável". Considerando a formação da palavra, utopia significa lugar nenhum e distopia, lugar ruim. As ficções distópicas estão intimamente linkadas com as sociedades em que elas são criadas. Vemos em Jogos Vorazes não só fome, mas medo, crueldade e tirania de governo, espetacularização e glamorização da violência, propaganda de guerra, juventude competitiva e uso de tecnologia a serviço de tudo isso. Seguem alguns exemplos de distopia na literatura e no cinema:

¿!  Totalitarista: 1984 (1949), V de Vingança (2005)
¿!  Corporativista: Robocop (1987), Clube da Luta (1999), Rollerball (1975)
¿!  Tecnológica: Blade Runner (1982), Divergente (trilogia), Admirável Mundo Novo
¿!  Ambiental: Nausicaä do Vale do Vento (1984)
¿!  Generalizada: La Belle Verte (1994)
¿!  Cybernética: Minority Report (2002), Matrix (1999)
¿!  Cyberpunk: Aachi & Ssipak, Akira (1988), Avalon, Blade Runner, eXistenZ, Ghost In The Shell (1994), Johnny Mnemonic, Looper, Metropolis, Natural City, Nirvana, Pandorum, Renaissance, Repo Men, RoboCop, Sleep Dealer, O Exterminador do Futuro, Videodrome, Matrix, Surrogates, WALL-E
¿!  Consumista: Clube da Luta
¿!  Pandêmica: 12 Macacos (1995), Filhos da Esperança (2006), Ensaio sobre acegueira (2008)
¿!  Moral: Beleza Americana (1999), Cisne Negro (2010)
¿!  Religiosa: O livro de Eli (2010)
¿!  Privacidade: Tokyo! (2008)
¿!  Misógena: A Decadência de uma Espécie (1990)
¿!  Militar: Equilibrium
¿!  Criminosa: A Laranja Mecânica (1971), Fuga de Nova York
¿!  Superpopulação: Battle Royale
¿!  Pós-apocalíptica: Mad Max (1979), O Planeta dos Macacos (1968), A Estrada
¿!  Conspiração: Divergente (trilogia)
¿!  Financeira: O Preço do Amanhã
¿!  Alienígena: Guerra dos Mundos (1953)
¿!  Cômica: Brazil (1985), Idiocracy (2006)


O que nos interessou realmente no eufemístico Jogos Vorazes – A Esperança (título traduzido para o Brasil) ou no denotativo Jogos da Fome – A Revolta (título do filme em Portugal) foi o Mockingjay. Jabberjays são pássaros criados artificialmente pela Capital para memorizar e repetir conversas humanas. A Capital os abandonou na natureza quando os rebeldes descobriram a estratégia. Mockingbird é o verdadeiro tordo, pássaro típico dos EUA cujo canto é a combinação do canto de outras aves. Mockingjay (também traduzido como Tordo, daí a confusão) é o pássaro originário do cruzamento dos machos Jabberjays com as fêmeas Mockingbirds. Os Mockingjays são capazes de reproduzir as melodias humanas. No início, o pássaro é apenas um broche. Depois, um amuleto. Transforma-se numa roupa, num gesto, numa canção, numa armadura, num símbolo. Consciente e espontaneamente construído ao mesmo tempo, corporifica-se na personagem Katniss, enquanto se enriquece de significados. Inspira e encoraja os personagens da ficção para a revolução; dá liberdade de criação à autora; reforça o marketing do filme. Teria o tordo a função de identificar a localização simbólica da distópica Panem?



Fonte das imagens: Sobresaga


Visões de histórias maravilhosas

¿!  Histórias maravilhosas de deuses e semideuses podem não ser imaginação.
¿!  Histórias maravilhosas de gigantes e anões podem não ser criação poética.
¿!  Histórias maravilhosas de dragões e monstros podem não ser invenções.


Verão



Saudações a tudo que se manifesta por ondas.

Saudações aos que fiam, aos que tecem, aos que cantam e aos que nadam como as Nereidas, as personificações das ondas. Saudações aos que apostam na mega da virada, aos que jogam na bolsa, aos que trabalham com moda, aos que não têm emprego fixo, aos que não têm salário fixo, aos que surfam, aos que vivem seus altos e baixos, cristas e vales, aos que vivem entre o nascimento e a morte.

Saudações aos contrastes, ao preto e branco. Saudações aos que mergulham nas escuras águas profundas e aos que flutuam na clara espuma da superfície.

Saudações à passividade, aos que se deixam levar ao sabor das ondas.

Saudações aos que conhecem a força que ergue as ondas com violência. Aos que conhecem a força da inércia.

Saudações às ondas do verão, às ondas do mar, às ondas de calor, às ondas do calçadão. Conheçamos a frequência do que se move periodicamente.

Saudações à fonte de tudo que se manifesta por ondas. 
Equinócio de outono



Terceiro turno – a narrativa


As campanhas eleitorais nos proporcionam uma literatura típica – a da propaganda política. Este gênero apresentou-se como um misto de biografia/ curriculum vitae, no qual os candidatos contavam as suas narrativas. Começavam pelo começo: lugar e família de nascimento. Depois, passavam aos tópicos da vida profissional (formação, profissão e carreira). Muitos começaram a trabalhar com os pais, dado que comprova o mito da hereditariedade no Brasil, onde se herdam dons, talentos, cargos, capitanias. Está no sangue. Enfim, chega-se à vida política do candidato. O perfil é o do trabalhador ágil, dinâmico, apaixonado, firme, empreendedor, eficiente, que faz o quê? A diferença. 

Ele tem um desafio, ele tem uma missão, ele luta pela libertação das vítimas das modernas formas de escravidão (as drogas e a exploração da prostituição), pela liberdade religiosa, pela defesa da educação, da cultura, do patrimônio, do meio ambiente, pela valorização da dança, do teatro, da música, das artes plásticas, do circo. Ele luta não em grandes combates, mas em grandes debates.


Nossos mitos por N.E.P. – uma tentativa


Capa do livro O homem e seus símbolos de C. G. Jung


Por que, então, privar-nos de crenças que se mostram salutares em nossas crises e dão um certo sentido a nossas vidas?
Jung, idem


Pensamos, às vezes, que os mitos antigos não passam de atraso e de mentiras. No entanto, eles ajudavam os antigos a encontrarem sentido em suas vidas.
Hoje não mais acreditamos nos velhos mitos. Acreditamos que não temos mitos. Com nossos ouvidos tampados por fones, repetimos em alto e bom som que tudo não passa de um grande absurdo. Tentamos construir nossa estabilidade colocando suas fundações justamente no abismo de fumaça, cada vez mais fundo e cada vez mais esfumaçado pelas nossas decepções, conectadas à roda da produção.
Decepcionados com uma escola que não existe, com uma saúde que não temos, com uma vida que não escolhemos, com uma paz impossível, com tudo que nunca atingimos, com nada que seja o bastante, com qualquer coisa que nunca acontece.
Decepcionados, porém consolados. Fomos Conscientizados de que fazemos parte da Maioria (escrita com o mesmo M maiúsculo da Grande Mãe, da Matriz, de Maya, Matéria, Mercadoria).
Desconfiemos de nossas constantes decepções.
Tenhamos a coragem do agir poético, do agir criador – desconfiemos de nossas constantes decepções.
Conscientizar alguém de algo é colocar um quadrado dentro de um quadrado, dentro de um quadrado... fazendo um quadrado cada vez maior. Mas talvez a ação poética esteja na quadratura do círculo, na tomada de consciência (e não na conscientização) de um todo natural.
Estamos tentando visualizar um todo através de Nossos Estudos Poéticos. Estamos tentando visualizar um todo através das tesselas com que compomos este mosaico. Estamos tentando visualizar este todo através dos fragmentos com que compomos este mosaico – intuindo, vendo, estudando, criando, conhecendo nossas linguagens, nossas palavras, lendo, recitando, participando dos acontecimentos, tentando.
Uma experiência a mais é mais uma tentativa do ser humano – e da natureza através do ser humano.
Cada tessela é importante porque cada tessela é uma parte do todo. O todo não é uma maioria de tesselas. A maioria sobrepondo-se à minoria não forma téssera alguma. A téssera do mosaico é cada parte linkada ao todo. É cada parte visível ligada a um todo invisível.




Mitos


OS MITOS NÃO FORAM CRIADOS PARA SEREM DESACREDITADOS.
OS MITOS FORAM CRIADOS PARA SEREM VIVIDOS.


Nossos mitos por N.E.P.


A Maioria é uma realidade? A Conscientização é uma realidade?
Cobrimos a verdade dos números com estatísticas. Aprisionamos a beleza das letras em discursos. Separamos as tésseras. Ficamos perplexos. Caímos em contradição.
Mitos são símbolos dramatizados. Símbolos que dão vida a pessoas e sociedades, que nutrem, que nos enviam respostas nos momentos de crise.
Talvez tenhamos perdido as chaves para o entendimento dos mitos criados pelos antigos. Talvez não mais consigamos ouvir o que eles tinham a nos dizer hoje.
Mas talvez possamos ouvir, ao menos, os mitos que nós mesmos estamos criando. Talvez possamos ver os mitos com que hoje cobrimos nossa realidade. Talvez possamos compreender os dramas que hoje vivemos. Talvez queiramos nos perguntar por que vivemos o drama de mitos que não nos trazem respostas, de mitos que sequer nos trazem perguntas.
Um mito nunca é mudo. Um mito nunca está em silêncio. Se há algum absurdo, este vem de nossa própria surdez.




Nossos mitos por Reimer


Fonte: Diário de Teresina (www.diariodeteresina.com.br)

Nossos mitos segundo Everett Reimer (1975):

5. A igualdade de oportunidade – todo homem pode alcançar o que a sua ambição lhe ditar e sua capacidade o permitir.
6. A liberdade – todo homem tem certos direitos inalienáveis.
7. A eficiência – o homem moderno já solucionou seus problemas de produção através de uma eficiente organização.
Obs: ele também cita o mito do progresso – nossa situação está melhorando e tende a continuar assim.

Consideremos os rituais que perpetuam nossos mitos.

Consideremos a escada social que todos os dias tentamos subir, de grau em grau, na ilusão de chegar a um topo onde estão os que não precisaram subir todos os degraus.

Consideremos nossos processos democráticos: as eleições, as manifestações, os protestos, as publicações inflamadas, as declarações indignadas, as revelações da mídia, as investigações legislativas.

Consideremos a pesquisa que busca continuamente novos conhecimentos, novas técnicas, novas descobertas e invenções.

Consideremos nossa atividade ritualizada. Estamos tão ocupados com nossos cursos, nosso aprimoramento, nossas atividades culturais, nossa informação, nossa prática de exercícios físicos, nossa alimentação, nossa aparência, nosso trabalho voluntário, nossa responsabilidade social, que nem podemos sequer considerá-la (clique na tabela acima para ampliá-la).

Consideremos a regularidade disso tudo. Consideremos a repetição, a invariabilidade, a sequência e a organização disso tudo. Consideremos a estereotipia, a redundância de conteúdos, a convencionabilidade e a conveniência disso tudo. Consideremos a liturgia, a função pública de tudo isso.

Não consideremos o consumo. Consideremos o consumo competitivo e seu aspecto em três dimensões: o consumo competitivo é um Direito, é um Dever e é um Desejo. Consideremos as três dimensões do consumo competitivo acorrentando-nos à roda da produção incessante.




Nossos mitos por Illich


Capa de Ziraldo para o livro Sociedade sem Escolas
Fonte: www.ebah.com.br


“Também nós acreditamos no Estado da Providência, na paz universal, na igualdade do homem, nos seus eternos direitos humanos, na justiça, na verdade e (não o proclamemos alto demais) no Reino de Deus sobre a Terra.”

Carl G. Jung, em O homem e seus símbolos (1964)

Nossos mitos segundo Ivan Illich (1970):

1. O consumo interminável – tudo que é produzido tem valor e é necessário.
2. A mensuração de valores – tudo pode ser medido.
3. Os valores empacotados – tudo pode ser embalado em significados planejados e oferecido em um pacote.
4. O progresso autoperpetuável – tudo é um não acabar de algo.

A imaginação pode ser medida, a criação pode ser medida, a vida pode ser medida, o ser humano pode ser medido. Em tempo ou dinheiro. Tanto faz, já não há diferença porque sempre curtimos. Medimos e contamos amizades, amores, conquistas. O imensurável é uma ameaça.

Se a propaganda tornar vendável a um número de pessoas que justifique o custo da produção e se nós adaptarmos os nossos desejos à venda e se não nos sentirmos culpados de nossas ações não contemplarem as pesquisas de mercado, então tudo pode  ganhar uma embalagem – a saúde, o veneno, a educação, a segurança, a violência, o medo, a solidariedade, a fome, a felicidade...

Uma embalagem atrás da outra, uma viagem atrás da outra, uma massagem atrás da outra... infinitamente. Relaxamos acendendo cigarros em outros cigarros, como se virar fumaça fosse a tendência de tudo. A guerra é uma infinita luta pela paz, a greve é uma infinita luta por salários, infinito abismo coberto por infinitas cortinas de fumaça.

A esperança é substituída pela expectativa. Não nos surpreendemos porque esperamos sempre o mesmo. Ou o novo. Tanto faz, já não há diferença porque sempre curtimos. As responsabilidades são transferidas e só há coragem para assumir o que já combinamos que pode ser aceito ou tolerado. Olhamos apenas para o que já foi feito, a fim de que possa ser feito de novo. Consultamos índices ou nos comparamos aos outros para que não percamos as nossas próprias referências.




O símbolo dramatizado e o símbolo arquetípico


Um mundo de símbolos vive em nós. E o mundo fala através do símbolo.

Os símbolos comunicam-se entre si, obedecendo a leis muito pouco conhecidas.

O símbolo é bem mais do que palavras, bem mais do que imagens significativas.

O mito é a transposição dramatúrgica de arquétipos, esquemas e símbolos, é um símbolo dramatizado. Orienta a ação humana pela estrutura interna.

Os Arquétipos são protótipos de conjuntos simbólicos, que constituiriam uma forma de estrutura. Essa mesma estrutura pode gerar várias imagens conforme época, local, sociedade, etc.

O símbolo arquetípico liga o individual e o universal.




Labirinto mitológico


O Labirinto de Creta é o entrecruzamento dos caminhos dos deuses Poseidon e Diôniso, do rei Minos e de sua esposa, do artista Dédalo, do monstro Minotauro, do herói Teseu e de seu pai Egeu, da princesa Ariadne, dos jovens Ícaro e Talo, e de todas as moças e moços sacrificados no próprio labirinto.

Talo, Dédalo, Minos, Poseidon e Minotauro

Observando a mandíbula de uma serpente, Talo fez uma serra. Invejoso da descoberta de seu sobrinho e aprendiz, Dédalo lançou-o da Acrópole. Condenado pelo crime, o grande inventor, hábil em todas as artes, exilou-se em Creta com seu filho Ícaro.

Obedecendo às ordens de Minos, Dédalo construiu o Labirinto – um palácio onde se emaranhavam salas, corredores e escadas, mas onde não havia teto. Somente seu arquiteto podia percorrê-lo sem se perder. O palácio foi construído para ser a prisão do Minotauro, monstro com corpo de homem e cabeça de touro, filho da esposa de Minos com um touro mandado por Poseidon, rei dos mares.

Teseu, Ariadne, Diôniso e Egeu

A fim de acabar com o sacrifício de jovens atenienses, que eram entregues ao monstro, Teseu entrou no Labirinto com a ajuda de Ariadne, filha de Minos. Apaixonada, a princesa deu ao herói um novelo de linha, o que lhe permitiu entrar no labirinto e dele sair sem se perder. Sua estratégia era desenrolar o novelo à proporção que avançava. Assim, saberia por onde retornar.

Teseu, filho de Poseidon na genealogia divina, matou o Minotauro e fugiu com Ariadne. A partir daí, a história se bifurca em versões. Na primeira, Teseu deixou Ariadne adormecida numa praia e partiu para Atenas. Ao acordar, a princesa viu a embarcação sumindo no horizonte. Mas seu desespero acabou quando, no mesmo dia, Diôniso chegou com seu cortejo ruidoso. O deus do vinho se apaixonou por ela, os dois se casaram e foram viver no Olimpo.

O outro caminho é mais trágico. Teseu e Ariadne se separaram contra a vontade de ambos por causa de uma ventania, que arrastou a nau do herói para alto mar. Ariadne morreu no parto. Amargurado, Teseu voltou para Atenas e se esqueceu de trocar a vela preta pela branca. Ao ver de longe a vela escura, Egeu se mata. E a história se bifurca mais uma vez.

Em uma das versões, Egeu teria se jogado da Acrópole. Na outra, Egeu teria se jogado no mar, que não recebeu apenas seu corpo, mas também seu nome – mar Egeu.

Minos, Dédalo e Ícaro

Tomado pela ira, Minos mandou prender Dédalo e Ícaro no Labirinto. A porta de saída do palácio foi fechada. Dédalo, porém, conseguiu fugir fazendo asas para ele e para seu filho, fixando-as com cera nos ombros. Dédalo e Ícaro saíram do Labirinto voando.

Ícaro, porém, não deu ouvidos às palavras de seu pai quanto ao fato de não voar muito alto. O jovem chegou muito perto do sol. A cera fundiu-se e Ícaro caiu no mar, que não recebeu apenas seu corpo, mas também seu nome – mar Ícaro.

As ideias acima foram organizadas a partir de nosso Dicionário de Mitologia Grega e Romana.




O mito da criação


O MITO CONTA QUE DEUS CRIOU O MUNDO E PEDIU AO HOMEM QUE DESSE NOME À CRIAÇÃO. E TUDO SERIA UMA GRANDE POESIA. MAS O HOMEM ESTRAGOU TUDO DANDO À CRIAÇÃO O QUE NÃO LHE FOI PEDIDO – A UTILIDADE.


O mito e o mistério


O mito e o mistério são duas faces da mesma linguagem. É linguagem humana. E linguagem da Natureza. Homem e Cosmos são duas faces da mesma linguagem.

Os mitos revelam questões que se expressam na forma de mistérios. E os mistérios impelem nosso espírito adiante. Instintivamente rumamos adiante. Seguimos inconscientemente essa linguagem.

É uma vida barroca, uma vida de claro-escuro, dia e noite, de altos e baixos, de apogeus e quedas. Uma vida constantemente eclipsada, quando esses extremos se encontram. E assusta.

Uma alternância entre mistérios e mitos. Os primeiros escondem e atraem para serem desvendados. Os segundos revelam, e ao revelar, revelam também outros esconderijos. E esconderijos nos atraem sempre.

Assim a Natureza nos ensina: esconde, mostra, esconde, mostra... Assim ela nos seduz e suas curvas nos encantam, mas também suas retas mostram força e rigidez no que afirmam. A Natureza nos encanta e se afirma inexoravelmente.

Como Rosenstock diz: “Os poemas flutuam em todos os nichos do pensamento, porque neles as questões são levantadas mas não solucionadas”.

Mesmo que todas as nossas questões fossem solucionadas, e novos universos pudessem ser criados, a Natureza nos traria novas e novíssimas questões através de sua linguagem de tésseras e mosaicos.


Visões de mitologia


¿ Mitologia é o modo de objetivar o pensamento antigo.
¿ Mitologia é o repertório da mais antiga ciência do ser humano.


The Economist & Miriam Leitão feat. Gerald Massey

THE ECONOMIST: “A MYTH OF NUCLEAR SAFETY”.

MIRIAM LEITÃO: “NÃO SE ACREDITA MAIS NO MITO DA ENERGIA SEGURA E LIMPA”.

¿!

GERALD MASSEY: “NA FRASEOLOGIA MODERNA SE DIZ ALGUMAS VEZES QUE DETERMINADA AFIRMAÇÃO É MÍTICA EM RAZÃO DE SUA FALSIDADE; MAS A MITOLOGIA ANTIGA NÃO ERA UM SISTEMA OU PROCESSO DE FALSIFICAÇÃO NESSE SENTIDO. SUAS FÁBULAS ERAM UM MEIO DE APRESENTAR FATOS; NÃO ERAM FRAUDES NEM FICÇÕES...  ”.

Teia

Teia – 1) Tela. 2) Estrutura, organização. 3) Enredo. 4) Teia de aranha. 5) Aquilo que prende, que enreda, que emaranha, trama. 6) Teia de aranha: tela de fios finíssimos que formam um espécie de rede elástica e que é produzida pelas aranhas a fim de captar os insetos de que necessitam para sua alimentação. 7) Teia de Penélope: trabalho que recomeça indefinidamente (tela, bordado, obra ou tecido de Penélope). 8) Teias de aranha: Crendices ou fantasias que se metem na cabeça de certas pessoas. 9) Cortar a teia da vida: Tirar a vida, matar. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Teia – No século XIII, tela e tea. Do latim tela. (Adaptado do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa)

Tela – Teia, urdir teia, tecer, fio de teia, ofício de tecelão, teia de aranha, trama, tramoia, intriga. De texere: tecer, fazer tecido, fazer a teia (uma aranha), entrançar, entrelaçar, construir sobrepondo ou entrelaçando, arranjar, dispor, ordenar, compor, referir, relatar, contar, narrar. (Adaptado do Dicionário Latino-Português)

Teia – Interseção, secância, corte, enlaçamento, implicação, contexto, xadrez, rede, renda, labirinto, grade, cruz, trançado, encruzilhada [em cruzamento]. Existência, sopro, aura, fio vital, animação, conjunto das funções vitais, luz, fio, a peregrinação neste mundo, livro da vida, nascedouro [em vida]. Esquema, desenho, projeto, arquitetura, investigação, cabala, armadilha, envoltas [em plano]. Campo, domínio, esfera, cenário, teatro, tablado, Coliseu, anfiteatro, sambódromo, circo [em arena]. (Adaptado do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa)

Aranha e teia de aranha – Surge como epifania lunar, dedicada à fiação e à tecelagem. Seu fio evoca o das Parcas. A fragilidade do fio da aranha evoca a de uma realidade de aparências ilusórias, enganadoras. Ela pode ser a artesã do tecido do mundo ou a do véu das ilusões que esconde a realidade suprema. A aranha pode representar a criadora cósmica, a divindade superior ou o demiurgo. Atena é mestra e patrona da arte da tecelagem. Aracne foi uma jovem mortal exímia nesta arte que ousou desafiar Atena. A aranha que se eleva ao longo de seu fio é um símbolo de liberdade. O fio da aranha é o meio, o suporte de realização espiritual. Fio – O simbolismo do fio é essencialmente o do agente que liga todos os estados da existência entre si, e ao seu Princípio. Esse simbolismo diz que o fio liga este mundo e o outro mundo e todos os seres. Urdidura e trama são os frutos da faculdade intuitiva e da faculdade discursiva. O enfiamento da agulha é o símbolo da passagem pela porta solar, ou seja, da saída do cosmo. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Penélope – Era mulher de Ulisses e ficou famosa pela fidelidade ao marido, posta à prova numa espera de vinte anos enquanto ele estava ausente na Guerra de Tróia. Diante do prolongamento da ausência de Ulisses, os jovens de famílias importantes passaram a cortejar Penélope, pressionando-a a decidir-se por um deles. Querendo fugir à decisão, Penélope imaginou um ardil, dizendo aos pretendentes que quando acabasse de tecer a mortalha de Laerte, pai de Ulisses, faria a escolha. Nesse ínterim, ela desfazia à noite o que tecia de dia, e assim o trabalho não avançava. Traída por uma das criadas, que revelou o ardil, Penélope já não tinha argumentos para resistir à pressão dos pretendentes quando Ulisses regressou. Aracne e Atena – Famosa por sua habilidade como fiandeira, desafiou Atena. Irritada com a pretensão da jovem, a deusa transformou-a em aranha, a fiandeira de sua própria teia. Parcas – Divindades dos destinos em Roma, semelhantes às Moiras gregas. Eram três irmãs fiandeiras que determinavam o nascimento, o casamento e a morte das criaturas humanas. Seus nomes eram Nona, Décuma e Morta. (Adaptado do Dicionário de Mitologia Grega e Romana)