Mostrando postagens com marcador Questões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Questões. Mostrar todas as postagens

Ensaio sobre a lucidez

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim,


O que  é o voto em branco? Um direito, uma manifestação em silêncio, algo que torna o sistema democrático ingovernável, atingindo o coração da democracia como nenhum sistema totalitário pode fazer, uma renúncia, uma desilusão, uma cegueira, uma lucidez?

Lemos em Nossos Estudos Poéticos o Ensaio sobre a lucidez de José Saramago a fim de completar a nossa téssera. A leitura nos permitiu observar vários aspectos do voto em branco. Debruçamo-nos sobre alguns neste post e os ampliamos através dos links.

O que é um direito? É uma questão de mérito? Nossos direitos são realmente nossos? Os momentos de crise são aqueles em que nossos direitos não são respeitados? Como um direito não respeitado pode existir? Encontramos em nossa leitura que um direito só existe em potência no dever de que seja respeitado e cumprido. Encontramos também que um direito só existe no papel. Os direitos só o são integralmente nas palavras com que tenham sido enunciados e no pedaço de papel em que hajam sido consignados. A sua aplicação inconsiderada convulsionaria a sociedade.

Consideremos uma eleição em que a quantidade de votos em branco seja superior a 80%. O que faz o governo diante disso? Ele toma as devidas providências. Primeiro cria um paradoxo, considerando que houve um uso legal abusivo do direito do voto em branco. Depois, recorre a espionagem e interrogatório a fim de descobrir os envolvidos no uso abusivo. Falhando, declara que a capital (onde ocorreu a maioria dos votos em branco) encontra-se em estado de sítio. O governo se retira da capital e o exército a cerca. Cogita-se como próximo passo a construção de um muro que a separe do restante do país. Finalmente haverá mudanças na lei eleitoral: o voto em branco passa a equivaler ao voto nulo ou não há mais voto em branco ou distribuem-se igualmente os votos em branco por todos os partidos ou sei lá que mais. Paralelamente às estratégias oficiais, temos atentados e saques forjados, sabotagens, falsificações...

A ação das autoridades também se dá através da palavra. Procura-se primeiro um adjetivo que possa desqualificar os que votaram em branco – indisciplinados, rebeldes, conspiradores, subversivos, desertores, perversos, diabólicos, inimigos, terroristas. Eis que alguém consegue substantivá-los: são os brancosos.

Os ministros exercem seu poder por meio dos discursos dos redatores de gabinete. Estes são mestres na arte do convencimento, a arte de fazer com que a verdade coincida com a mentira. Comparam-se os votos em branco com a cegueira branca. A questão política dos brancosos é uma questão de saúde. A mídia realiza o seu trabalho de intoxicação. Impressiona-se o público com uma doença, ou melhor ainda, com uma epidemia. Deixando-se enganar, a população é convencida de que corre o risco de estar novamente cega.

Em meio ao paradoxo, à mentira e à cegueira, encontramos a organização da população da capital. Encontramos casos admiráveis de renúncia, “daqueles que ainda nos permitem pensar que se perseverarmos nesses e noutros gestos de meritória abnegação, acabamos por cumprir com acrescimentos a nossa pequena parte no projeto monumental da criação”, escreve o autor. Encontramos pessoas que varreram calçadas quando não havia instituições oficiais para realizar a limpeza das ruas; pessoas que choraram os mortos desconhecidos; pessoas lúcidas que pediram demissão, apesar da família, da carreira, da vida; encontramos os mais nobres exemplos da história do amor ao próximo – cada um decidindo por sua conta e a sós com sua consciência. Encontramos uma organização que se sustenta com a lucidez.

O Ensaio sobre a lucidez ainda não virou filme.


Essas palavras, que, provavelmente, tal como se apresentam, ninguém as haveria dito antes, essas palavras tiveram a sorte de não se perderem umas das outras, tiveram quem as juntasse, quem sabe se o mundo não seria um pouco mais decente se soubéssemos como reunir umas quantas palavras que andam por aí soltas,


6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra




A Terra... Assemelha-se a
uma negra dançarina vestida de carmim...
Quem morreu aqui?
Quem cometeu assassinato?


Na véspera

Vyasa descreveu a planície dos Kurus para o rei cego que estava junto com Sanjaya: “Duas grandes cidades feitas de tendas de seda, uma diante da outra, no grande campo vazio. Corvos negros grasnam ‘Vá!’. Um círculo negro rodeia o sol. À noite, todas as estrelas são hostis. Os rios invertem seus cursos. As vacas ordenhadas só dão sangue. As estátuas dos deuses gargalham e estremecem. Crianças lutam com clavas de madeira. Os canalhas e assassinos cantam e dançam. Isso é medo e o mal sobrepondo-se ao mal”.

Depois Vyasa concedeu visão celestial a Sanjaya.

Sanjaya ficou cinco dias e cinco noites em Kurukshetra. Retornou após a aurora do 6º dia, dizendo: “Está tudo acabado. Não há como contar tudo. Minhas palavras soam estranhas e muito, muito distantes”.


No 1º dia

Krishna entoou um cântico para seu amigo Arjuna – o Cântico do Senhor. Os bardos e menestréis, sentados ao longo do Kurukshetra, compunham versos e canções da grande guerra dos Bharatas. Guerreiros bradavam, anunciando seus nomes. Vestiam uniformes, portavam estandartes, orientavam-se por senhas e sinais. As setas eram atraídas por seus alvos. Krishna gritou para Arjuna: “Não tema! Atire nele!”.


No 2º dia

Duryodhana viu que as obras de Arjuna estavam além do que se podia conhecer. O grande guerreiro kuru Bhishma tombou de sua carruagem. Seu corpo não tocou a Terra porque estava cheio de setas. A lua concedeu aos mortos seus corpos celestiais.


No 3º dia

O guerreiro Susarman, que lutava pelos kurus, ao ver ser tolice combater Arjuna pela ilusão, caiu aos pés de Krishna e perguntou: “Senhor, o que é esta guerra?”.

Krishna disse a Arjuna: “Não chore, pois as lágrimas queimam os mortos com seu fogo líquido”.

O guerreiro kuru Drona foi atingido mortalmente por uma mentira quando estava desarmado. “Vergonha para os que desconhecem o que é ser guerreiro”, pensou Arjuna. Quis o filho de Drona se vingar usando a arma de Narayana: dez mil flechas e dez mil dardos em chama, cem mil espadas, clavas e machados, um milhão de rodas afiadas e pesadas bolas de ferro caíram sobre as tropas dos pandavas. Krishna e Arjuna desarmaram seu próprio exército, dizendo para que niguém pensasse em guerra. Todos deitaram-se no chão com o coração em paz. Com isso, a arma de Narayana fracassou e o filho de Drona se perguntou na noite: “Ah, será tudo mentira?”.

No campo de batalha, cadáveres decapitados tateavam em busca dos assassinos. Os guerreiros kurus já não viam mais sua juventude, nem mesmo a primavera daquele ano. mas Duryodhana ainda acreditava que o destino podia mudar a qualquer momento e se perguntava: “Por que deve haver restrições sobre quem quer que seja? Por que não se há de ser livre para fazer o que se quer?”.


No 4º dia

Os deuses chegaram para observar a batalha.

O guerreiro Karna, que lutava pelos kurus, cortou a corda do arco de Arjuna e lançou o dardo de Indra contra a cabeça dele. Krishna fincou o pé no chão. A quadriga de Arjuna afundou na Terra. O dardo atingiu a coroa de Arjuna, partindo-a. Arjuna lançou uma flecha contra Karna, que caiu com a cabeça decepada. Jamais considerou que a arma de Indra pudesse falhar. Por isso, não se protegeu.

Duryodhana chorou a perda do amigo e se lembrou do jogo de dados e de Draupadi. “Ela jamais me perdoará”, pensou. Yudhishthira se perguntou olhando para Karna: “Quem era ele?”.

Os deuses se foram. A vitória deixou os kurus para sempre.


No 5º dia

Quando o sangue selou o pó da Terra, as mulheres se tornaram viúvas. Sanjaya sentiu o perfume das Apsaras e lamentou não haver ninguém para matar em oferecimento a elas. O fascínio da guerra fez com que ele entrasse em transe. Todas as leis da guerra foram quebradas. Aurigas e animais eram mortos, guerreiros não mais anunciavam seus nomes, já nem mais sabiam se suas vítimas eram amigos ou inimigos. E essas eram questões muito ínfimas, para as quais não havia tempo. Sanjaya estava prestes a ser morto, mas Krishna libertou-o.

Duryodhana desapareceu na floresta. Ele é a alma da ilusão. Diz que os livros em tudo divergem, que os homens discutem e a nada chegam e que a verdade está oculta em cavernas. Krishna já não queria mais ver a vida sendo derramada. Duryodhana sofreu um golpe baixo de Bhima. Como um homem combateria seus cinco sentidos, Duryodhana combateu os pandavas. E por isso perdeu.


Na aurora do 6º dia

Enquanto os guerreiros dos exércitos dos pandavas dormiam, o filho de Drona entrou nas tendas, esganando e estrangulando os inimigos com as próprias mãos, e depois com a espada. “Quem vive ainda?”. Houve silêncio antes e depois do filho de Drona fazer a sua pergunta.

As últimas palavras de Duryodhana foram para o filho de Drona: “Assassinou inocentes e deixou meus inimigos vivos. Basta. Eu quase venci”. Duryodhana morreu ao amanhecer. E Sanjaya perdeu sua visão celestial.



5) O Mahabharata – No entremeio, as perguntas e as respostas

Uma voz invisível perto do lago fez 39 perguntas a Yudhishthira. Separamos 12 dessas tésseras pergunta-resposta. Assim é, se Yudhishthira  o diz:


¿!  O que é mais célere que o vento? A mente é mais célere que o vento.

¿!  O que é mais numeroso que as folhas de grama numa campina? Nossos pensamentos são muito mais numerosos.

¿!  O que não se move após nascer para o mundo? Um ovo não se move.

¿!  O que não tem coração? A pedra.

¿!  Qual é o arrimo do homem? As nuvens.

¿!  O que é o universo inteiro? Nada senão ar rarefeito e espaço vazio.

¿!  Qual o bem mais valioso? O conhecimento.

¿!  Qual a maior felicidade? O contentamento.

¿!  O que encobre todo o mundo? A escuridão.

¿!  O que impede uma coisa de se descobrir? Também a escuridão.

¿!  Qual é a coisa mais rara? Saber quando parar.

¿!  Qual é a verdadeira riqueza? Amor e bondade são melhores que o ouro; a honra é mais valiosa que salas repletas de joias. Não sei o que pensa sobre tudo isso.


“Você responde bem”, disse a voz, apresentando-se como o Dharma, o próprio pai de Yudhishthira. As perguntas do pai testaram os méritos do filho, constatados como verdadeiros. O Dharma restaurou a vida dos irmãos de Yudhishthira, mortos por beberem a água do lago antes de terem respondido as perguntas.




As expressões da água (em língua portuguesa)

Todas as coisas são iguais? As que são claras como água são como as que mudam da água para o vinho? E essas são como as que dão água na boca? As coisas que acontecem até debaixo d’água são as mesmas que vão por água abaixo?

¿!  Água deu, água o levou: dizemos sobre algo que ganhamos e perdemos facilmente;
¿!  Fazer água: começamos uma tarefa e nos perdemos em sua execução;
¿!  Sem dizer, água vai: de repente;
¿!  Passar muita água debaixo da ponte: transcorrer muito tempo;
¿!  Sujar a água que bebe: ser ingrato.

Que palavra, que símbolo? Que substância é essa? Ou seria que elemento? O que é a água para dar vida a tantas expressões linguísticas?


Inspiração

Um grande músico é capaz de criar suas melhores obras ao perder-se por inteiro em seu trabalho. Um inventor resolve seus maiores problemas quando não está consciente de solucionar qualquer problema. É em tais momentos que essas pessoas têm inspiração e contato com aquilo que estão procurando, desde que, é claro, tenham dominado a técnica e suas mentes estejam plenamente concentradas. É o desaparecimento da autoconsciência que, de algum modo, abre a porta para um novo mundo em que normalmente elas não têm condições de entrar.


I. K. Taimni – A Ciência do Yoga


Uma questão de tudo ou nada

[...] o Mistério da Vida não pode ser decifrado de modo fragmentado. Não podemos decompor o Grande Mistério em uma quantidade de problemas elementares para, então solucioná-los um a um, embora seja isto o que a filosofia moderna tenta fazer. A resolução do Mistério depende de obter-se uma visão sintética do Eterno e não de reunir as soluções separadas e parciais obtidas por meio do processo analítico do intelecto. É uma questão de “tudo ou nada”. 


I. K. Taimni – A Ciência do Yoga


Tentativas de resposta

Para que serve a poesia? Serve para expandir, sintetizando.
Para que serve a poesia hoje? Serve para transcender o tempo.
A que serve a poesia? Serve a algo maior.
O que é poesia? Poesia é um serviço!


Versos de descanso: os deuses

Os deuses esquecidos nos números das horas, os deuses esquecidos nos nomes dos dias da semana, e nos nomes dos meses, os deuses esquecidos nos nomes dos reis e das eras e dos kalpas, os deuses esquecidos nos nomes, os deuses esquecidos no tempo, os deuses esquecidos em nós – descansam?


Universo aberto e universo fechado




DAS QUESTÕES SE CRIAM UNIVERSOS.
NO UNIVERSO ABERTO, A RESPOSTA É UMA PERPÉTUA EXPANSÃO.
NO UNIVERSO FECHADO, A RESPOSTA É UM RETORNO À PERGUNTA.



Terceiro turno – o tempo verbal e o prefixo

O tempo da política brasileira parece ser mesmo o futuro – do presente, do pretérito e do subjuntivo. Foi o que pudemos perceber na leitura dos panfletos dos candidatos a deputado, governador e presidente deste ano.

O futuro nas suas mãos, mudança, avanços e progresso são algumas das expressões eleitas pelos redatores de panfletos, folders, revistas, cartazes, santinhos... As antigas promessas ganharam a forma de projetos. E os eleitores perguntaram: cadê as propostas?


Estudar poesia

Para aprender poesia, podemos estudar sobre os sentimentos, que são as sensações percebidas pela mente como agradáveis ou desagradáveis. Podemos estudar sobre as emoções, estados complexos de consciência constituídos por desejo e pensamento.

Podemos estudar sobre o pensamento, o estabelecimento de relações entre as imagens presentes em nossa mente. Essas imagens são as nossas percepções mentais. Delas dependem a qualidade do nosso pensamento. Importam tanto o número quanto a natureza das imagens, adquiridas por meios como a observação e a leitura. Ao pensar, usamos essas imagens, ou então usamos símbolos que as substituem.

O químico Taimni  nos diz através de seus livros que o bom pensamento precisa de um artista que arranje essas imagens de tal maneira que nosso pensamento ganhe uma bela forma. “O simples aumento de nosso conhecimento pela leitura e observação e a multiplicação de nossas imagens mentais que daí decorre não é o bastante. Devemos pensar com firmeza e persistência até que aprendamos a produzir, usando o material que acumulamos, pensamentos de belas formas ou pensamentos que possam ser de utilidade em nossa vida”. Em Nossos Estudos Poéticos, nossa vida se confunde com nossa poesia. E seguimos tentando dar a forma de um belo mosaico a este blogue.

E, para aprender a poesia, podemos estudar sobre o desejo – como transformá-lo em vontade? Como fazer da aspiração uma inspiração? Como, para além de uma bela forma, alcançar o sublime?


Na noite seguinte, que era a 666ª


Quando pedimos para que alguém nos conte uma história, entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração. As histórias espantosas, cujos assuntos são extasiantes, maravilhosos e insólitos, precisam ser contadas a fim de que elas mesmas se encaminhem até a adequada complementação dos seus sentidos e dos seus suaves vocábulos. E com elas avançamos sem saber sobre o que o oculto nos reserva.

Conta-se, mas Deus sabe mais sobre o que já é ausência, que nós postamos que Sahrazad disse que um certo rei disse que, sem lhe ver a imagem, ouviu a voz de alguém dizer em versos o nascimento de sua filha Hayfa.

Hayfa cresceu em um palácio em forma de cubo no centro de um círculo de água. O rio em torno do palácio parecendo um anel em torno do dedo. Os construtores escreveram poesias nas correntes dos lampiões de cristal pendurados no salão e também nos lampiões. Na porta, escreveram: “Este palácio já aparece como alegria para quem o vê; o bom augúrio escreveu às suas portas: entrem em paz e segurança”.

Aos 4 anos, Hayfa decorou o alfabeto e adquiriu um discurso agradável. Aos 10 anos, decorou metros da poesia e seu discurso ficou ainda mais belo. Aos 14, ensinou as criadas a fazer poesia. Hayfa escreveu na porta do palácio: “Ó leitor destas linhas, vê se entende e pensa, eu te peço por Deus poderoso”.

Um dia, um príncipe chamado Yusuf, fugindo da casa de seu pai, chegou às margens do rio que contornava o palácio de Hayfa. Yusuf mergulhou no rio, atravessou o curso d’água, chegou à outra margem, leu os versos na porta do palácio e escreveu outros: “À  sua porta, fonte de generosidade, chegou um forasteiro desterrado que se tornou errante; talvez sua generosidade o salve da errância, e o proteja da injustiça do inimigo contumaz. Não tenho refúgio senão a sua porta, a qual contém sentidos de versos como se fossem colares, que o filho de Sahl leu, e recorreu a vocês. Socorram o estranho que lhes chega sozinho”.

Encontrando-se, Hayfa e Yusuf se indagaram a si mesmos, ambos ignorando o que lhes destinara aquele que quando diz para algo “seja”, é. Ela disse para que ele deixasse por conta dela a boa resposta, a sutileza da palavra e a essência da poesia. Ambos se extasiaram profundamente com a poesia, arrancaram as roupas, gritaram e ficaram desacordados quando a poesia foi concluída com os sentidos ocultos nela inovados.

Mas, no momento do ciúme e da separação, Yusuf se tornou aquele cujo coração já não mais permitia poesias. E, então, o coração e o sopro vital de Yusuf ficaram com Hayfa, enquanto seu coração e sua mente estavam em luta. A mente e o juízo de Yusuf desejavam a secura. O coração e o sopro vital, a relação.

Como o destino irremediável dos corações é se reunirem uns aos outros, venceu a relação.

Quando entregamos nossa audição, nossa visão e nosso coração, recebemos o entendimento. O que é o entendimento? É a reflexão e a compreensão das coisas em sua verdade. Sahrazad havia lido e entendido, por isso podia narrar.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”




O caminho da tradução

O verbo traduzir chegou até nós vindo do latim com o sentido de conduzir além, transferir.

Um conhecimento da língua ou da cultura em que determinado idioma está inserido é o bastante para fazer de uma pessoa um tradutor? O erudito que não acredita no conteúdo dos textos que traduz seria um bom tradutor das obras que traduz?

A resposta é negativa para o Lama Anagarika Govinda. Ele aponta o método empregado pelos Lotsavas, os tradutores de textos sagrados do Tibete. Talvez possa ser útil para nossa leitura de textos poéticos, já que estes trazem algo de sagrado em suas linhas e cada leitura é uma tradução.

Como ponto de partida, é preciso chegar à obra com um espírito de verdadeira devoção e humildade. A tradução é uma responsabilidade sagrada. Há casos em que traduções feitas por eruditos que se restringem ao conhecimento da língua mais limitam do que ampliam nossos caminhos, e acabam por nos conduzir aquém do entendimento dos livros. 

Como ponto de chegada, não se deve considerar a sua versão como final ou infalível. Ela é, na verdade, um ponto de partida para futuras versões. Isso porque, à medida que o nosso próprio conhecimento aumenta, mais profundas e perfeitas podem ser as traduções; e mais próximas dos significados internos dos textos.


Livro das Mil e Uma Noites – Volume I (ramo sírio, 2005)




Tudo começou quando o rei Sahriyar descobriu que havia sido traído pela sua esposa com um escravo. A tomada de consciência da traição o conduziu a uma pergunta: alguém no mundo teria sofrido uma desgraça ainda pior do que a dele? Traído, com essa questão em mente e na companhia de seu irmão Sahzaman, Sahriyar decidiu abandonar seu reino e perambular. Se encontrasse alguém cuja desgraça fosse pior do que a dele, retornaria. Se não, continuaria a vagar pelo mundo. O rei e seu irmão saíram do palácio pela porta secreta e seguiram viagem até a orla do mar salgado.

Lá os dois encontraram uma bela jovem que vivia trancada em um baú de vidro no fundo do mar sob a vigilância de seu marido. Mesmo assim, a mulher o traía enquanto ele dormia: “quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la”. Esta bela mulher carregava consigo um saco contendo cem anéis: “todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel”.

Diante de tamanha desgraça, Sahriyar e Sahzaman voltaram para o reino.

O rei Sahryiar decidiu, então, se casar a cada noite com uma mulher diferente e matá-la antes do dia amanhecer. Um casamento que não duraria mais do que a noite de núpcias. O horror tomou conta das famílias e do reino.

Até que, em uma certa noite, que seria a primeira das mil que se seguiriam, Sahryiar se casou com Sahrazad. Ela tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorado poesias e consultado as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Sahrazad pediu ao rei que chamasse sua irmã Dinarzad a fim de que elas pudessem se despedir. Quando a noite se fez mais espessa, no momento oportuno, Dinarzad disse: “Minha irmãzinha, se não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas, para que eu possa despedir-me de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã”.

A pedido da irmã e com a permissão do rei, Sahrazad disse contente: “ouça”. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”. 


Introdução        Volume II


Versos de cansaço: sítio de busca

Buscas alfabetos e idiomas onde tudo é símbolo;
e partituras onde a música é a chuva e o rio.
Buscas inscrições tumulares onde o fumo das piras apaga tudo:
estás no lugar errado ou não sabes ainda o que procuras?


Mangifera indica - 13/4





13/4     outras seriam as visões

Outras seriam as visões da árvore...
Folhas verdes opostas à tarde
densas folhas contrárias aos outonos
absorvendo as observações
retendo as atenções
circulando as concentrações

E os quadros seriam outras visões...
de galhos temperando o crepúsculo outonal
galhos de choupo
como montes de arame farpado
como garranchos de versos emaranhados
Um broto verde nasce da raiz
do velho tronco cortado
Que tinta dará vida
aos fúnebres ciprestes pintados
sobre tudo que morre?
Que sentimento dará cor
ao drama da tempestade?
Nossas vidas açoitadas pela dor
têm a mesma cor
da árvore açoitada pelo vento?
Um broto verde nasce da raiz
do velho tronco cortado
Um sábio pintor que passa a vida a estudar
o talo de capim
que tinta, que cor, que sentimento
ele usaria na pintura


13/3         13/5


Um carro a menos


Elas estão em todos os lugares. Estão tanto na ciclovia e na rua, quanto no corredor de ônibus, nas calçadas, nos porta-malas dos carros estacionados também nas calçadas, na contramão, nas vitrines, nas propagandas de banco e refrigerante, nas camisetas da moda, nas campanhas em defesa do meio ambiente e por um mundo melhor. Elas estão no pensamento geral e na conscientização. Elas – as Bicicletas. Ou talvez seria melhor dizer eles – os carros a menos.

Um carro a menos. Seria esse um epíteto, uma perífrase para bicicleta? Ou seria apenas um eufemismo, já que um carro a menos na rua tem significado uma bike a mais na calçada (inclusive em bairros em que há ciclovia)? Essa conta não parece nada vantajosa  para o pedestre, parece apenas trocar seis por meia dúzia.

Os carros não respeitam as bicicletas? Não, em sua maioria não respeitam mesmo. Mas o desrespeito do motorista de carro não pode justificar o desrespeito do ciclista que circula na calçada e reproduz o mesmo desrespeito, transferindo o problema para o pedestre.

As bicicletas nas calçadas não solucionam os problemas do trânsito, não solucionam os problemas de poluição, não solucionam os problemas da cidade. As bicicletas nas calçadas solucionam os problemas imediatos da pessoa que está na bicicleta, que chega mais rápido aonde quer pagando menos. As bicicletas nas calçadas perpetuam os problemas da cidade, solucionados apenas para uma minoria que é capaz de resolver seus próprios problemas sozinha, às custas do restante da população.  As bicicletas nas calçadas criam novos problemas.

É essa pessoa da bicicleta também que pode usufruir do privilégio do que infelizmente acabou por se tornar um privilégio – a vida simples. Um carro a menos tem sido apenas um eufemismo, uma tentativa de suavizar o fato de que as bicicletas estão circulando nas calçadas, uma figura de linguagem para tornar mais palatável a existência de um privilégio. A vida simples, por sua vez, tem revelado a força de sua téssera – a ostentação. Mas tanto faz, vida simples e ostentação não passam de consumo embrulhado no papel de presente do discurso conscientizado.

Como pode um problema coletivo ter uma solução individual? Deixemos os discursos, vamos ao símbolo. O símbolo fala. A bicicleta, como símbolo, fala de autonomia e de esforço individual, mas fala também de equilíbrio, de um movimento sempre para frente, de evolução. O que nós temos sido capazes de ouvir desse símbolo?


Os gêneros literários – a Questão


A questão dos gêneros literários é uma velha questão. E das questões se criam universos.

O problema é: os gêneros literários realmente existem? E se existem, eles são meramente convenções estabelecidas pelo hábito ou eles são estruturas universais que abarcam toda a possibilidade de criação literária?

Em Welleck & Warren, o tipo literário é uma instituição tal como a Igreja, a Universidade ou o Estado. No entanto, eles não explicam de onde os gêneros vêm.

Massaud Moises diz que os gêneros nascem de uma espécie de imposição natural, de algo como a adaptação do indivíduo ao ritmo cósmico. Mas não explica o que é esse algo nem a relação entre gênero e ritmo cósmico.


A questão


Existem leis ontológicas ou cosmológicas das quais os gêneros são uma extensão, manifestação ou expressão no mundo literário e linguístico, ou simplesmente os gêneros não existem?


A criação


Aplicar ao estudo dos gêneros literários os princípios ontológicos, que são tão velhos como o mundo.


O universo


As leis ontológicas ou cosmológicas existem. Os gêneros existem, da mesma forma que as leis da lógica existem. O fora da lei, por mais que ignore, não invalida a existência da lei.

Os gêneros literários são conjuntos de possibilidades para a organização de obras literárias, e derivam de uma necessidade ontológica. Eles estabelecem os limites das possibilidades da invenção literária, diferenciando-se num certo número de direções e orientações para o desenvolvimento do trabalho.

Eles funcionam como as direções do espaço – quanto mais o núcleo essencial de uma obra é estritamente comprometido com as regras de um gênero, mais difícil será escapar dessas regras ou até combiná-las. Algo como escolher rumar para o Norte, situação em que todos os passos seguintes, para se manterem coerentes e razoáveis, devem seguir essa mesma direção com maior ou menor retidão a fim de atingir o local pretendido.


“Os gêneros literários, a rigor, são realidades arquetípicas:
a dificuldade em ver está no sujeito e não no objeto”
(Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos. O. de Carvalho)


Continua em Os gêneros literários – o Infinito


Resposta

Resposta – 1) Ato ou efeito de responder. 2) Aquilo que se diz ou escreve para responder uma pergunta. 3) Refutação, replicação. 4) O que decide, ou explica alguma coisa; solução. 5) Carta que se manda ao remetente de correspondência recebida, e que versa sobre o mesmo assunto. 6) Qualquer ato que se segue a um estímulo exterior e a ele está imediatamente ligado. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Resposta – cruzamento do latim reposita, particípio passado feminino de reponere – repor – com respondere, que substituiu responsum; a variação antiga reposta procede diretamente de reposita. Século XIII; reposta, século XIV. (Adaptado do Dicionário Etimológico)

Reponere – recolocar, repor, restabelecer, tornar a levar à cena, reproduzir; trazer para trás, dobrar, torcer, abrandar, acalmar; fazer resistência; reservar, guardar; substituir; pousar sobre, firmar, apoiar; entregar, confiar; largar, deixar, cessar. Respondere – afirmar; prometer; apresentar-se, comparecer; ser refletido; estar face a face de; corresponder; o pagar na mesma moeda; ser semelhante; satisfazer; dar bom resultado, obedecer à; ir bem, prosperar; produzir efeito, ser eficaz; resistir a; voltar periodicamente, pertencer a, tocar. (Adaptado do Dicionário Latino-Português)

Resposta – eco, negação, divergência, oposição, o sim, o não, reação, protesto, vaia, desconstrução, emenda, correção, censura, causa, chave, Édipo, oráculo [em resposta]. Contraposição, observação, ponderação, o reverso da medalha, contraindicação [em réplica]. Sagacidade, senso de humor, elegância, sal, graça, repente, sutileza, farsa, brincadeira, malícia, alfinetada, piada, ironia, sarcasmo, ridículo, conceito, jogos de palavra [em espírito]. Descobrimento, invento, criação, lampejo, achado, encontro, desenredo, resolução de uma dificuldade, desvendamento, saída, resultado, revelação, desencanto, soltura, raízes de uma equação, heureca! [em descoberta]. Inteligência, desenvolvimento, exposição, significação, elucidação, desembrulho, esclarecimento, glosa, cabala, versão, segredo, novelo, fio, ilustração, exemplificação, luz, leitura, construção, equivalente, analogia [em interpretação]. (Adaptado do Dicionário Analógico)

Chave – símbolo do mistério a penetrar, do enigma a resolver, da ação dificultosa a empreender, das etapas que conduzem à iluminação e à descoberta. O simbolismo está relacionado com o duplo papel de abertura e fechamento. É, ao mesmo tempo, um papel de iniciação e de discriminação. Um duplo aspecto do poder: a chave liga e desliga. Escreve Dominique Zahan que os bambaras dizem que “tudo o que se diz, tudo o que se faz, no homem, no reino, no mundo, é porta”. A chave simboliza aquele que detém o poder de decisão e a responsabilidade. O emblema do deus romano Jano é composto por uma chave de ouro e outra de prata e corresponde à autoridade espiritual e às funções régias. As chaves de Jano abrem também as portas dos solstícios. Ele é considerado como o guia das almas, guardando todas as portas e governando todos os caminhos. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Jano – É o guardião do universo, o abridor e fechador de todas as coisas, olhando para dentro e para fora da porta. É também o deus dos inícios – por exemplo, do primeiro mês do ano Januarius. Suas duas faces, uma voltada para frente e outra para trás, sugerem vigilância constante e sabedoria como conhecedor do passado e adivinho do futuro. O templo de Jano era um pequeno santuário de bronze no Fórum, com portas abrindo para o leste e para o oeste. As portas só ficavam fechadas em tempo de paz, ou seja, raramente. (Adaptado do Dicionário de Mitologia Grega e Romana)


Poesia vende?

A PUBLICIDADE É A POESIA DA ECONOMIA.