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Lucidez

Seguem três lúcidas recitações sobre a diferença, o cansaço e o absurdo:

A mais segura diferença que poderíamos estabelecer entre as pessoas não seria dividi-las em espertas e estúpidas, mas em espertas e demasiado espertas, com as estúpidas fazemos o que quisermos, com as espertas a solução é pô-las ao nosso serviço, ao passo que as demasiado espertas, mesmo quando estão do nosso lado, são intrinsecamente perigosas, não o conseguem evitar, o mais curioso é que com os seus actos estão constantemente a dizer-nos que tenhamos cuidado com elas, em geral não damos atenção aos avisos e depois aguentamos as consequências.

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Não se cansem a discutir, a melhor atitude ainda será a de não pedir explicações e logo duvidar delas no improvável caso de que as tenham dado, quase sempre são mentirosas.

¿!

Os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão.


José Saramago – Ensaio sobre a lucidez


Sutra: o significado

O esforço para se reconhecer o “fio” oculto do raciocínio, sob ideias aparentemente desconexas, muito frequentemente fornece a chave para o significado de muitos sutras.

A necessidade de lutar com as palavras e as ideias e delas extrair seus significados ocultos assegura uma assimilação bastante completa do conhecimento e desenvolve, simultaneamente, os poderes e as faculdades da mente, em especial aquela capacidade de extrair da própria mente o conhecimento nele oculto.

Ao longo do tempo, é possível que tenham ocorrido alterações fundamentais no significado das palavras e nos padrões de pensamento. Este fato gera infinitas possibilidades de enganos e interpretações errôneas de alguns sutras.

Verificar as verdades básicas do que é exposto através das experiências pessoais ajuda a manter vivo o que está nos sutras e a preservar os significados das palavras. Divorciada de sua aplicação prática, a exposição tende a perder-se num emaranhado de palavras que perderam seu significado e sua relação com os fatos. 


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Nossos mitos por N.E.P. – uma tentativa


Capa do livro O homem e seus símbolos de C. G. Jung


Por que, então, privar-nos de crenças que se mostram salutares em nossas crises e dão um certo sentido a nossas vidas?
Jung, idem


Pensamos, às vezes, que os mitos antigos não passam de atraso e de mentiras. No entanto, eles ajudavam os antigos a encontrarem sentido em suas vidas.
Hoje não mais acreditamos nos velhos mitos. Acreditamos que não temos mitos. Com nossos ouvidos tampados por fones, repetimos em alto e bom som que tudo não passa de um grande absurdo. Tentamos construir nossa estabilidade colocando suas fundações justamente no abismo de fumaça, cada vez mais fundo e cada vez mais esfumaçado pelas nossas decepções, conectadas à roda da produção.
Decepcionados com uma escola que não existe, com uma saúde que não temos, com uma vida que não escolhemos, com uma paz impossível, com tudo que nunca atingimos, com nada que seja o bastante, com qualquer coisa que nunca acontece.
Decepcionados, porém consolados. Fomos Conscientizados de que fazemos parte da Maioria (escrita com o mesmo M maiúsculo da Grande Mãe, da Matriz, de Maya, Matéria, Mercadoria).
Desconfiemos de nossas constantes decepções.
Tenhamos a coragem do agir poético, do agir criador – desconfiemos de nossas constantes decepções.
Conscientizar alguém de algo é colocar um quadrado dentro de um quadrado, dentro de um quadrado... fazendo um quadrado cada vez maior. Mas talvez a ação poética esteja na quadratura do círculo, na tomada de consciência (e não na conscientização) de um todo natural.
Estamos tentando visualizar um todo através de Nossos Estudos Poéticos. Estamos tentando visualizar um todo através das tesselas com que compomos este mosaico. Estamos tentando visualizar este todo através dos fragmentos com que compomos este mosaico – intuindo, vendo, estudando, criando, conhecendo nossas linguagens, nossas palavras, lendo, recitando, participando dos acontecimentos, tentando.
Uma experiência a mais é mais uma tentativa do ser humano – e da natureza através do ser humano.
Cada tessela é importante porque cada tessela é uma parte do todo. O todo não é uma maioria de tesselas. A maioria sobrepondo-se à minoria não forma téssera alguma. A téssera do mosaico é cada parte linkada ao todo. É cada parte visível ligada a um todo invisível.




Nossos mitos por N.E.P.


A Maioria é uma realidade? A Conscientização é uma realidade?
Cobrimos a verdade dos números com estatísticas. Aprisionamos a beleza das letras em discursos. Separamos as tésseras. Ficamos perplexos. Caímos em contradição.
Mitos são símbolos dramatizados. Símbolos que dão vida a pessoas e sociedades, que nutrem, que nos enviam respostas nos momentos de crise.
Talvez tenhamos perdido as chaves para o entendimento dos mitos criados pelos antigos. Talvez não mais consigamos ouvir o que eles tinham a nos dizer hoje.
Mas talvez possamos ouvir, ao menos, os mitos que nós mesmos estamos criando. Talvez possamos ver os mitos com que hoje cobrimos nossa realidade. Talvez possamos compreender os dramas que hoje vivemos. Talvez queiramos nos perguntar por que vivemos o drama de mitos que não nos trazem respostas, de mitos que sequer nos trazem perguntas.
Um mito nunca é mudo. Um mito nunca está em silêncio. Se há algum absurdo, este vem de nossa própria surdez.




Absurdos do Livro do Desassossego


Aos leitores deste mosaico atraídos pela tessela do absurdo, seguem outros tantos do L. do D.:

23. Absurdo

296. A mania do absurdo e do paradoxo é a alegria animal dos tristes. Como o homem normal diz disparates por vitalidade, e por sangue dá palmadas nas costas de outros, os incapazes de entusiasmo e de alegria dão cambalhotas na inteligência e, a seu modo, fazem os gestos da vida.

297. A reductio ad absurdum é uma das minhas bebidas predilectas.

371. Apoteose do absurdo

Falo a sério e tristemente; este assunto não é para alegria, porque as alegrias do sonho são contraditórias e entristecidas e por isso aprazíveis de uma misteriosa maneira especial.

Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista – pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas – o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar a pesar de tédio aquele estado de alma que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.

E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos – não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.


Absurdemos a vida, de leste a oeste.


Absurdo


Absurdo – 1) Contrário à razão, ao bom senso. 2) Disparatado, inepto. 3) Que fere as regras da lógica ou as leis da razão. 4) Que escapa a regras ou a condições determinadas. 5) Sonho, utopia, quimera (substantivo). (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Absurdo – do latim absurdus, século XVI. (Adaptado do Dicionário Etimológico)

Absurdus (de ab e surdus) – desagradável ao ouvido, ridículo. Que não tem aptidão para alguma coisa. Que é fora de propósito. Ab – exprime a ideia de afastamento de um lugar, em oposição a ad. Surdus – surdo, que não ouve, que não dá ouvidos, que não quer escutar, que não é sonoro, que não é falado, desconhecido, ignorado, obscuro, oculto, secreto, invisível, escuro, embaciado, que não é escutado, atendido, madeira que não tem veias. (Adaptado do Dicionário Latino-Português)

Absurdo – loucura, disparate, irracionalidade, incoerência, absurdo inaceitável, paradoxo, sofisma revoltante, inconsistência, desconcerto, asneira, contrassenso, bobagem, tolice, destempero, lenga-lenga, desconexão, exagero [em absurdo]. Inconcebível, inacreditável, inimaginável, sem remédio, incontornável, impensável, incriável, sobre-humano [em impossibilidade]. Argumento vão, mistificação, círculo vicioso, desculpa, discrepância, contradição, linguagem retorcida [em irracionalidade]. Inexpressão, som vazio, letra morta, confusão, palavras ocas [em sem significação]. Hipérbole, tensão, tempestade num copo d’água, muito barulho por nada, muita trovoada e pouca chuva [em exagero]. Inconstante, inconsequente [em capricho]. Bombástico, desprezível, monstruoso [em ridicularia]. Infundado, maldoso, imoral, descabido, injustificado, indecente, desigual, afrontoso, impróprio, escandaloso [em injustiça]. Inadequado, inconveniente, fora de questão, falso, incapaz [em impropriedade]. Ilegal, ilegítimo, indevido [em ilegalidade]. (Adaptado do Dicionário Analógico)


Absurdemos a vida de leste a oeste


T
ornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.

Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas – agirmos e justificar as nossas ações com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.

Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

                                                           L. do D., composto por Bernardo Soares

Não há homem saudável num mundo doente


A publicidade por vezes cria. Em geral, a publicidade é uma tradução.
A publicidade traduz, e leva um desejo a uma forma, um consenso a um desejo, uma forma a um consenso. E nessa constante tradução nos leva de uma parte a outra de nós mesmos, através de várias camadas que desconhecemos. Essa tradução nos leva indiferente ao fato de querermos embarcar ou não.
Como um conceito tão sadio pode vender um sistema de saúde tão doente? A parte não pode viver fora do todo. Mas esse pensamento pode chegar a ser diabólico, como em Fausto: "Eu sou a parte da parte que já foi todo".
Aqui a doença faz parte. O diabo faz parte. Os absurdos fazem parte de tudo isso. O crime é um absurdo, a corrupção é um absurdo, Demósthenes é um absurdo, o tráfico de drogas é um absurdo, acidentes de trânsito são absurdos, legislar a bicicleta elétrica é um absurdo... O que não é um absurdo hoje em dia?
A publicidade por vezes cria. Em geral, a publicidade é tradução. Entre desejos, consensos e formas, não há homem capaz num mundo absurdo. E quando a mente contraria o corpo e quando o corpo contraria a mente é que a inteligência se cala.


A causa, o efeito e o absurdo – uma relação linguística

De acordo com Auerbach, o latim clássico tinha um sistema muito rico de meios de subordinação, sendo capaz de classificar um grande número de feitos e de estabelecer relações recíprocas em uma só unidade sintática. Frases longas e claras compunham o período.

O latim vulgar não tinha necessidade de classificar e de ordenar fatos. As relações entre fatos, principalmente as de causa e efeito, não mais foram expressas com a precisão clássica. Preferiu-se a coordenação.

O reemprego da subordinação só se tornou possível quando as línguas românicas se tornaram pouco a pouco literárias. Os primeiros períodos que dominam um conjunto de fatos são encontrados por volta de 1300, especialmente nas obras do poeta Dante.

Atualmente também temos preferido a coordenação. Basta prestar atenção nos textos cotidianos – nos jornais, nas propagandas, nas novelas, nos filmes, nos livros didáticos, nos blogues... E também temos tido dificuldades para estabelecer relações entre os fatos. Especialmente as de causa e efeito. Prova disso é o uso exagerado que fazemos da expressão “É um absurdo!”. Quando vemos o noticiário e achamos tudo um absurdo (a violência, a impunidade, a corrupção, a inflação), estamos perdendo nossa capacidade linguística de relacionar as causas aos efeitos.


Espontâneo

Espontâneo – 1) Que se origina em sentimento ou tendência natural, em determinação livre, sem constrangimentos. 2) Que se manifesta como que por instinto, sem premeditação ou desvios; sincero. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Espontâneo – De livre vontade, voluntário. Em 1813. Do latim spontaneus – de sua sponte. (Adaptado do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa)

Spontaneus – Espontâneo, voluntário. De sponte: vontade, desejo, motor próprio. (Adaptado do Dicionário Latino-Português)

Espontâneo – Irracional, intuitivo, instintivo, natural, gratuito, independente de raciocínio, desconexo, disparatado, sonâmbulo, desarrazoado, despropositado, ilógico, inconsequente, arbitrário, opinativo, incoerente, imponderável, discutível, absurdo, torto, falível, de fazer riso, empírico, pueril, improvado, vulnerável, frágil, sutil [em irracionalidade]. Sublime, ornado de imagens, legítimo, límpido, alto, vibrante, perfeito, fluido, nitidamente expresso [em elegância]. Livre, opcional, originário, causal [em vontade]. Contente, satisfeito, favorável, pronto [em boa vontade]. Impulsivo, repentino, inesperado, imprevisto, arrebatado, irrefletido, precipitado, brusco, incondicional, que se operou num repente [em ímpeto]. Despreparado, rudimentar, embrionário, imaturo, inadvertido, cru, verde, bruto, rústico, selvagem, bravio, bárbaro, rude, sujo [em despreparo]. Cândido, sem arte, fácil, não estudado, modesto, puro, ingênuo, naïf, franco, honesto [em candura]. Independente, autônomo, solto, incontido, que não conhece limite ou restrição, que não conhece algemas, largo, inconquistado, desencadeado, irrefreado [em liberdade]. (Adaptado do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa)


O nascimento da tragédia

Segundo a tradição antiga, a tragédia nasceu do coro trágico. Segundo Nietzsche, com a morte da tragédia, perdeu-se a própria poesia.

Na visão de Schiller, o coro é uma muralha viva que a tragédia constrói a sua volta a fim de isolar-se do mundo real e de salvaguardar para si o seu chão ideal e a sua liberdade poética. Na visão de Nietzsche, o coro é o único vedor do mundo visionário da cena. O coro contempla em sua visão seu senhor e mestre Dionísio, sendo eternamente servente: o coro não atua. É literalmente a mais alta expressão da natureza e profere, em seu entusiasmo, sentenças de oráculo e de sabedoria. É o sábio que, do coração do mundo, enuncia a verdade. Na tragédia grega, o coro dionisíaco descarrega-se sempre de novo em um mundo de imagens apolíneo.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche afirma que a arte é a atividade propriamente metafísica do homem e propõe que a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético. A arte é a tarefa suprema da vida. Só a arte pode transformar os pensamentos sobre o absurdo da existência em representações com as quais é possível viver – o sublime (domesticação artística do horrível) e o cômico (descarga artística da náusea do absurdo). E é no momento da criação artística que o homem se torna capaz de contemplar-se a si mesmo, sendo ao mesmo tempo sujeito e objeto; poeta, ator e espectador.

Seria possível o renascimento da tragédia? Nietzsche sugere a possibilidade de um conhecimento trágico, uma nova forma de conhecimento que não estaria presa à lógica, mas sim unida à arte. A tragédia poderia ressurgir não somente poeticamente, mas também cientificamente, acrescentando sentenças de sabedoria às sentenças da ciência?


Princípios de (uma) ciência nova (acerca da natureza das nações)

Ainda procurando saber para que serve a poesia, cheguei até Vico.  Ele escreve que o trabalho mais sublime da poesia é dar senso e paixão às coisas sem sentido. “A grande poesia deve cumprir a tarefa de inventar sublimes fábulas, adequadas ao entendimento popular, e comovê-lo ao máximo para atingir o fim que a si próprio se prefixou, qual o de ensinar o povo a agir virtuosamente.” Realmente penso que a poesia, se não explica o mundo para mim, pelo menos lhe dá sentido. Um sentido bem particular, é verdade, mas com a poesia não me sinto tão desnorteada. Um entendimento que independe de explicações, é verdade, mas não me sinto tão rodeada de absurdos.

Depois de ler Vico passei a considerar mais a etimologia como fonte de saber. “A mente humana inclina-se, mediante os sentidos, a fazer-se visível no corpo e, por meio da reflexão, a entender-se a si própria. Daí o princípio da etimologia, nas quais os vocábulos são transpostos dos corpos e das propriedades dos corpos para a significação das coisas da mente e do espírito”. Gostaria que isso transparecesse no blog. 

A leitura desse livro trouxe-me também a hipótese de que primeiro ocorreu falar em verso e, depois, em prosa. A primeira história pode ter sido a poética. Vico abriu para mim as possibilidades de uma sabedoria, uma lógica, uma moral, uma econômica, uma física, uma história, uma razão poética. Com isso, começou a deslocar a minha pergunta (para que serve), que estava muito próxima do fim, da finalidade, para uma pergunta mais próxima do começo – qual o verdadeiro princípio da poesia?