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Estudo comparativo da filosofia

Cada sistema apresenta a verdade não somente de um determinado ponto de vista mas também comunica-a por meio de uma linguagem com terminologia peculiar. Consequentemente, a menos que conheçamos o exato significado das palavras usadas como roupas das ideias, estamos arriscados a desentendimento ou confusão em relação às ideias que procuramos transmitir ao leitor. Somente quando temos uma ideia correta e ampla em relação às verdades da filosofia por meio de estudo profundo e comparativo dessas verdades, podemos saber com certeza o significado de uma determinada palavra usada num determinado contexto. 


Pratyabhijna Hridayam de Ksemaraja por I. K. Taimni


Sutra: as palavras

As palavras que compõem um sutra exprimem conceitos filosóficos definidos. Sem um conhecimento do que nelas se encontra implícito, não é possível apreciar o significado de um sutra. Somente com a ajuda de tais palavras, que expressam todo um conjunto de ideias, plenas de profundos significados, é que um sutra pode ser elaborado.
  

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Uma questão de tudo ou nada

[...] o Mistério da Vida não pode ser decifrado de modo fragmentado. Não podemos decompor o Grande Mistério em uma quantidade de problemas elementares para, então solucioná-los um a um, embora seja isto o que a filosofia moderna tenta fazer. A resolução do Mistério depende de obter-se uma visão sintética do Eterno e não de reunir as soluções separadas e parciais obtidas por meio do processo analítico do intelecto. É uma questão de “tudo ou nada”. 


I. K. Taimni – A Ciência do Yoga


Face universal

Facies totius universi, quamvis infinitis modis variet, manet tamen semper eadem.

A face [aparência] de todo o universo, conquanto varie de infinitos modos, permanece contudo sempre a mesma.

Spinoza


Mandalas linguísticas: versos, morfologia e sintaxe


Fonema – interjeição – pronome – substantivo – verbo  

Na mandala poética, minha sequência foi inspirada pela leitura de Vico. Ao tratar da lógica poética, Vico propõe uma sequência para a origem das línguas e das letras: onomatopeia – interjeição – pronome – nome – verbo.

Primeiro foi o som – depois, as vozes se articularam sob o ímpeto de paixões violentas – há, então, a necessidade de se comunicar com o outro – e também de conhecer a natureza – por fim, os pais deveriam dar ordens e falar aos seus filhos, e surgem os imperativos monossilábicos.

Para Vico os verbos são gêneros de todos os outros a que se reduzem todas as essências, o que vale dizer, todas as coisas metafísicas; repouso e movimento, a que se reduzem todas as coisas físicas; a que se reduzem todas as coisas agíveis.

verbo no infinitivo – substantivo – pronome – interjeição – fonema

Na mandala poética, essa sequência faz um caminho de retorno, como uma respiração, e fecha o círculo com versos anacíclicos, que se podem ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, mantendo o sentido. Pois nascemos e morremos, falamos e ficamos em silêncio. Pois as línguas nascem e morrem, surgem e desaparecem, como as mandalas. Os versos, sulcos retos na terra, vão e vêm como ondas.

Fonema – interjeição – pronome – substantivo – verbo no infinitivo – substantivo – pronome – interjeição – fonema

Na mandala poética, as ligações não são feitas pela lógica da sintaxe. Podemos fazer escritas fonológicas, morfológicas, semânticas, estilísticas. Mas não sintáticas. Ou, talvez, podemos escrever em uma sintaxe poética, em uma lógica poética.




Filosofia da Arte

O filósofo vê. Sua meta é a verdade universal. O artista age. Seu método é a beleza individual. Na filosofia da arte, a verdade do uno se traduz na beleza dos versos. A essência se traduz na existência.

Rohden trata, na Filosofia da Arte, não só do sentimento estético, mas também da ética, a arte que se manifesta no homem. O ser humano pode fazer de si mesmo uma obra de arte.

Desse ponto de vista, todos nós enfrentaríamos no cotidiano e em nós mesmos os problemas enfrentados pelos grandes artistas: a não receptividade da obra e a insatisfação por não ter materializado o que foi intuído. Um artista soluciona seus problemas com a paciência da realização e com uma certa indiferença diante do impacto externo de sua obra, pois sabe que os acontecimentos externos (dinheiro, aplauso, compreensão) não dependem da ação do próprio artista, mas das circunstâncias.

Diante das dificuldades que encontramos no cotidiano e na sociedade para realizarmos nossa obra, pergunto-me se a arte pode se opor à cultura. A arte natural ou espiritual pode se opor à cultura social? Rohden também tem uma pergunta: por que há tão poucos homens creadores, contentando-se com produtividade e transformações?


Como trabalham o poeta e o filósofo

           “Na verdade, a quota de atividade reflexiva que se requer não é menor em poesia do que em filosofia, pela simples razão de que o verso não é a experiência, mas a expressão verbal dela [...]”. Segue Olavo de Carvalho descrevendo como é a roupagem com que a experiência do poeta se veste para ser apresentável à comunidade em que vive.
            Ele afirma também que ocorre o mesmo processo na filosofia, “[...] onde as novas intuições devem se adaptar aos processos consagrados de formalização e demonstração, ou então inventar novos...”.
            E respondendo, de certa forma, à pergunta que Einstein fez a Saint-John Perse, indica o trabalho do poeta como sendo a produção de “um análogo moldado”, fruto de uma experiência interna ou externa, cumprindo com esse ofício duas exigências: “a máxima comunicabilidade no vocabulário geral” e “a máxima fidelidade [...] às convenções e tradições de ofício”.
            Olavo fala exatamente sobre a criação do poeta, e isso nos interessa:
           
“O poeta, em suma, cria, através da força analogante das imagens e dos símbolos, uma área de experiência imaginativa comum, onde os indivíduos e mesmo as épocas podem se encontrar, vencendo no imaginário as barreiras que separam fisicamente suas respectivas vivências reais. Assim fazendo, ele não apenas se comunica, mas intercomunica os outros homens. Daí a missão curativa, mágica e apaziguadora, que faz da poesia um dos pilares em que se assenta a possibilidade mesma da civilização: ela liberta os homens da noite animal, do terror primitivo que isola e paralisa. Ela reúne os membros da tribo em torno do fogo aconchegante e os faz participar de um universo comum que transcende as barreiras dos corpos e do tempo. Ela apazigua, reanima e torna possível, aos que eram animais assustados, pensar e agir.”

            No entanto, essa função não se aplica ao filósofo. Por mais que poeta e filósofo tenham princípios coincidentes e meios semelhantes, não possuem os mesmos fins. Para Olavo, o filósofo, “a primeira coisa que faz é voltar as costas à comunidade, para ir perguntar, à experiência [...] até que ela se abra e mostre seu conteúdo inteligível [...] Seu diálogo não é com a tribo. É com o ser”.
            Olavo parece concordar com a coincidência entre poeta e filósofo no momento da descoberta, de iluminação súbita, como também viram Einstein e Perse para o cientista e o poeta. Mas Einstein via que na ciência, após esse momento de quase êxtase, a inteligência analisa e a experimentação confirma a intuição. Olavo vê que na filosofia o raciocínio e a reflexão são a roupagem pós-intuição. Ricardo Reis via, inclusive, uma intuição sobre-humana, daquela que "funda religiões para sempre".
            O poeta começa como o cientista, como o filósofo e como o religioso. Mas seu ofício, técnica e finalidade exigem materiais próprios e exclusivos da poesia.

Confira mais lá com Olavo de Carvalho, em Poesia e Filosofia.


O violino

“Cada falante precisa de um ouvinte que ele creia que vale a pena escutar!

Em sua famosa canção noturna, Nietzsche disse: ‘O violino de minha alma cantou para si próprio esta canção. Alguém a escutou?’

E, porque ninguém a escutou, ele enlouqueceu. E não podia senão enlouquecer: nossa linguagem desaparece de nós se ninguém a escutar.

E para quem escuta e obedece, fazendo o que lhe é ordenado, o orador, o comandante, o chefe tem de ser o chefe. E essa odiada superioridade é a condição para a existência de todo e qualquer periódico, conferência, corte, exército, governo, literatura ou teatro.”

            Em A origem da linguagem, de Eugen Rosenstock-Huessy.


O nascimento da tragédia

Segundo a tradição antiga, a tragédia nasceu do coro trágico. Segundo Nietzsche, com a morte da tragédia, perdeu-se a própria poesia.

Na visão de Schiller, o coro é uma muralha viva que a tragédia constrói a sua volta a fim de isolar-se do mundo real e de salvaguardar para si o seu chão ideal e a sua liberdade poética. Na visão de Nietzsche, o coro é o único vedor do mundo visionário da cena. O coro contempla em sua visão seu senhor e mestre Dionísio, sendo eternamente servente: o coro não atua. É literalmente a mais alta expressão da natureza e profere, em seu entusiasmo, sentenças de oráculo e de sabedoria. É o sábio que, do coração do mundo, enuncia a verdade. Na tragédia grega, o coro dionisíaco descarrega-se sempre de novo em um mundo de imagens apolíneo.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche afirma que a arte é a atividade propriamente metafísica do homem e propõe que a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético. A arte é a tarefa suprema da vida. Só a arte pode transformar os pensamentos sobre o absurdo da existência em representações com as quais é possível viver – o sublime (domesticação artística do horrível) e o cômico (descarga artística da náusea do absurdo). E é no momento da criação artística que o homem se torna capaz de contemplar-se a si mesmo, sendo ao mesmo tempo sujeito e objeto; poeta, ator e espectador.

Seria possível o renascimento da tragédia? Nietzsche sugere a possibilidade de um conhecimento trágico, uma nova forma de conhecimento que não estaria presa à lógica, mas sim unida à arte. A tragédia poderia ressurgir não somente poeticamente, mas também cientificamente, acrescentando sentenças de sabedoria às sentenças da ciência?


Poesia pensada

Primeiro ocorreu falar em versos, assim afirmou Vico.
Hoje me ocorre pensar em versos.
A poesia foi falada, depois escrita.
O que seria da poesia somente pensada?


Princípios de (uma) ciência nova (acerca da natureza das nações)

Ainda procurando saber para que serve a poesia, cheguei até Vico.  Ele escreve que o trabalho mais sublime da poesia é dar senso e paixão às coisas sem sentido. “A grande poesia deve cumprir a tarefa de inventar sublimes fábulas, adequadas ao entendimento popular, e comovê-lo ao máximo para atingir o fim que a si próprio se prefixou, qual o de ensinar o povo a agir virtuosamente.” Realmente penso que a poesia, se não explica o mundo para mim, pelo menos lhe dá sentido. Um sentido bem particular, é verdade, mas com a poesia não me sinto tão desnorteada. Um entendimento que independe de explicações, é verdade, mas não me sinto tão rodeada de absurdos.

Depois de ler Vico passei a considerar mais a etimologia como fonte de saber. “A mente humana inclina-se, mediante os sentidos, a fazer-se visível no corpo e, por meio da reflexão, a entender-se a si própria. Daí o princípio da etimologia, nas quais os vocábulos são transpostos dos corpos e das propriedades dos corpos para a significação das coisas da mente e do espírito”. Gostaria que isso transparecesse no blog. 

A leitura desse livro trouxe-me também a hipótese de que primeiro ocorreu falar em verso e, depois, em prosa. A primeira história pode ter sido a poética. Vico abriu para mim as possibilidades de uma sabedoria, uma lógica, uma moral, uma econômica, uma física, uma história, uma razão poética. Com isso, começou a deslocar a minha pergunta (para que serve), que estava muito próxima do fim, da finalidade, para uma pergunta mais próxima do começo – qual o verdadeiro princípio da poesia?


Morre Steve Jobs

“Filósofo, gênio, inventor”. Assim foi descrito Steve Jobs nos telejornais após sua morte. Quantos termos usados para qualificá-lo... Afinal, quem foi Steve Jobs?

Por filósofo, as pessoas se referem aos pensamentos expostos em suas apresentações, lições de carreira profissional e de vida. É claro, ser filósofo não é dizer frases de efeito. Mas a intenção de chamá-lo assim após sua morte é elogiá-lo. Por gênio, a intenção foi ressaltar a sua elevada capacidade intelectual de criação. E de inventor o chamaram pelo que fez dentro e fora da Apple. Seus produtos falam por si.

Por que, se foi ressaltada a qualidade das palavras de Steve Jobs e também seu gênio criador, não foi em momento algum utilizada a qualificação de poeta? O que diferencia a criação do inventor da criação do poeta?

Pode haver um poeta na área de informática assim como Einstein pode ser considerado um poeta na ciência ou Nietzsche um poeta na filosofia? Pode haver um espaço poético na tecnologia?


Como trabalha o poeta?

Como trabalha um poeta? Como lhe vem a ideia de um poema? Como é desenvolvida esta ideia?

Essas não são nossas perguntas. Foram feitas por Einstein ao poeta Saint-John Perse. É o que nos conta Huberto Rohden, citando André Maurois no livro "Einstein, O Enigma do Universo".

Quer dizer, essas perguntas também são nossas. O estudo não começou por elas, mas até elas chegou. E ainda aí permanece.

Tão importante quanto compartilhar respostas é compartilhar perguntas. Um cientista faz isso. Einstein fez isso, e nos deixou uma grande indicação em sua resposta.