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O blogue e o tempo

O blogue é uma escrita em função do tempo. Cada post é um momento que aparece e desaparece com um clique. O blogue é uma sucessão de momentos, uma repetição de momentos. Uma repetição na condensação. O link liga os momentos.


Tentativas de resposta

Para que serve a poesia? Serve para expandir, sintetizando.
Para que serve a poesia hoje? Serve para transcender o tempo.
A que serve a poesia? Serve a algo maior.
O que é poesia? Poesia é um serviço!


Versos de cansaço: o limite

O cansaço é uma sensação. É um sentimento. É um estado de consciência. Hoje.
Os versos de cansaço são linhas, reais ou imaginárias, de limite. Sejam sulcos, rastros, leitos, caminhos ou atalhos, demarcam as nossas divisas, as nossas fronteiras. Os versos de cansaço nos limitam com diferenças e extremos, com muralhas e distâncias. São as linhas do horizonte e da poesia a nos circunscrever.
O cansaço pode nos conduzir às nossas limitações.
O cansaço nos leva ao limite.


A nossa raridade

Poucas vezes temos realmente dito nós. E cada vez menos. E menos. E menos.
Existem possibilidades para dizermos nós na minoria? Existem tais possibilidades na maioria? Uma multidão é muito pouco para dizermos nós.
Experimentaremos ainda muitos universos com os sentidos da solidão até que, ao menos mais uma vez, possamos nos encontrar no universo em que dizemos nós.
Raras, muito raras são as vezes em que realmente podemos dizer nós. Raras, poeticamente raras.


Nossos mitos por N.E.P. – uma tentativa


Capa do livro O homem e seus símbolos de C. G. Jung


Por que, então, privar-nos de crenças que se mostram salutares em nossas crises e dão um certo sentido a nossas vidas?
Jung, idem


Pensamos, às vezes, que os mitos antigos não passam de atraso e de mentiras. No entanto, eles ajudavam os antigos a encontrarem sentido em suas vidas.
Hoje não mais acreditamos nos velhos mitos. Acreditamos que não temos mitos. Com nossos ouvidos tampados por fones, repetimos em alto e bom som que tudo não passa de um grande absurdo. Tentamos construir nossa estabilidade colocando suas fundações justamente no abismo de fumaça, cada vez mais fundo e cada vez mais esfumaçado pelas nossas decepções, conectadas à roda da produção.
Decepcionados com uma escola que não existe, com uma saúde que não temos, com uma vida que não escolhemos, com uma paz impossível, com tudo que nunca atingimos, com nada que seja o bastante, com qualquer coisa que nunca acontece.
Decepcionados, porém consolados. Fomos Conscientizados de que fazemos parte da Maioria (escrita com o mesmo M maiúsculo da Grande Mãe, da Matriz, de Maya, Matéria, Mercadoria).
Desconfiemos de nossas constantes decepções.
Tenhamos a coragem do agir poético, do agir criador – desconfiemos de nossas constantes decepções.
Conscientizar alguém de algo é colocar um quadrado dentro de um quadrado, dentro de um quadrado... fazendo um quadrado cada vez maior. Mas talvez a ação poética esteja na quadratura do círculo, na tomada de consciência (e não na conscientização) de um todo natural.
Estamos tentando visualizar um todo através de Nossos Estudos Poéticos. Estamos tentando visualizar um todo através das tesselas com que compomos este mosaico. Estamos tentando visualizar este todo através dos fragmentos com que compomos este mosaico – intuindo, vendo, estudando, criando, conhecendo nossas linguagens, nossas palavras, lendo, recitando, participando dos acontecimentos, tentando.
Uma experiência a mais é mais uma tentativa do ser humano – e da natureza através do ser humano.
Cada tessela é importante porque cada tessela é uma parte do todo. O todo não é uma maioria de tesselas. A maioria sobrepondo-se à minoria não forma téssera alguma. A téssera do mosaico é cada parte linkada ao todo. É cada parte visível ligada a um todo invisível.




Nossos mitos por N.E.P.


A Maioria é uma realidade? A Conscientização é uma realidade?
Cobrimos a verdade dos números com estatísticas. Aprisionamos a beleza das letras em discursos. Separamos as tésseras. Ficamos perplexos. Caímos em contradição.
Mitos são símbolos dramatizados. Símbolos que dão vida a pessoas e sociedades, que nutrem, que nos enviam respostas nos momentos de crise.
Talvez tenhamos perdido as chaves para o entendimento dos mitos criados pelos antigos. Talvez não mais consigamos ouvir o que eles tinham a nos dizer hoje.
Mas talvez possamos ouvir, ao menos, os mitos que nós mesmos estamos criando. Talvez possamos ver os mitos com que hoje cobrimos nossa realidade. Talvez possamos compreender os dramas que hoje vivemos. Talvez queiramos nos perguntar por que vivemos o drama de mitos que não nos trazem respostas, de mitos que sequer nos trazem perguntas.
Um mito nunca é mudo. Um mito nunca está em silêncio. Se há algum absurdo, este vem de nossa própria surdez.




Casamento de Juno

Aos noivos

            Aqui vão os votos. Votos de alegria e de felicidade. Votos de confiança, pois demoraram tanto para chegar que tinham a certeza de que ainda chegariam numa hora propícia. Esses votos são para que tenham sempre a experiência de cada vez mais consolidar e reinventar o sentimento que existe.
            O epitalâmio é um gênero lírico para cantar o casamento, que é ainda algo desconhecido. O casamento é historicamente um grande composto de instinto de sobrevivência e de proteção, de contratos de famílias por herança e de poder religioso. Também é cada vez mais um fruto da consciência de um sentimento. É tanta coisa, que ainda é desconhecido, pois guarda dentro de si todo um futuro.
            Neste texto, a mulher não é a fraca e o homem não é o forte. A mulher não precisa ter medo, nem o homem, ansiedade. Ambos são a base da casa e da sociedade. A base de dois impulsos primários: nutrição e proteção.
            Há um movimento autêntico nessa relação homem–mulher depois de 10, 20, 30 ou, quem sabe, 40 mil anos. O que se inicia e ainda não se sabe aonde vai dar é o fato de a mulher ter quebrado um acordo de “cavalheiros”, um pacto primitivo com os homens – divisão nos cuidados dos herdeiros.
            A mulher contemporânea deve ter condições de cuidar de tudo. De nutrir, proteger, educar – nutrir o futuro, consolar – proteger do passado, etc. Dessa forma, o pacto primitivo é quebrado. E também o equilíbrio. Por isso, a mulher sofre tanto. E o que faz o homem diante de seus herdeiros? Contenta-se com o futebol nos fins de semana? Torna-se, ele também, mulher? Por isso, o homem sofre tanto.
            O homem de temperamento caçador agora pode ser caça. A mulher que era até então um abrigo agora pode ser flecha ou um míssil. Os campos já não nutrem mais, as casas já não mais protegem, e a batalha é travada no comércio, onde nada tem gênero e tudo é impessoal. E dizem o desequilíbrio e a experiência que a nutrição excessiva de alguns torna outros desprotegidos; e que a hiper-proteção de outros torna alguns desnutridos. Portanto, o que fazer? Como retomar o movimento pendular das coisas?
            Não sei. Só sei que é preciso modular as forças. E chegaremos a algo melhor, além da perplexidade.




Ler literatura

               Maryanne Wolf:
O homem nasce geneticamente pronto para ver e para falar, mas não para ler. Ler não é natural. É uma invenção cultural que precisa ser ensinada ao cérebro.

Ezra Pound:
A linguagem foi obviamente criada e é, obviamente, utilizada para comunicação. Literatura é linguagem carregada de significado.

N.E.P.:
Ler é ver. Linguagem é luz. Literatura é laser. Torna denso o que é sutil.


O mistério do problema ou o problema do mistério


Para conhecer o mundo o homem deve ter ao menos duas pernas. Duas pernas intelectuais – a pergunta e a resposta.
As duas pernas de Nossos Estudos Poéticos são proporcionais ao pensamento e à intuição de Stephen Arroyo?
A faculdade de pensamento e de intuição de Arroyo são proporcionais às de pensamento e sensação, de um lado, mais intuição e sentimento, de outro lado, como para Jung?
Passo a passo há que seguir por duas vias paralelas. De um lado o problema e de outro lado o mistério.
São duas formas de caminhar pela estrada, ou ainda, duas formas de pisar na realidade: pela questão e pela resposta, pela resposta e pela questão.
A realidade é uma téssera.
E passo a passo o problema e o mistério são um só – duas partes são realmente partes separadas ou que arcano inconcebível as une?




O ato e o ator


Surge mais poesia quando mais se esconde o artista?
Quando o poema toma tanta extensão diante de nossos olhos que não vemos mais o poeta? É mais vista a arte quando a ação nubla o papel do ator? Quando a pintura é mais importante que o pintor? A música salta mais que o músico?
É assim que a mensagem é o próprio mensageiro? Ou o mensageiro a própria mensagem? Para os antigos, é quando Mercúrio sucumbe à luminosidade do Sol?


Não há homem saudável num mundo doente


A publicidade por vezes cria. Em geral, a publicidade é uma tradução.
A publicidade traduz, e leva um desejo a uma forma, um consenso a um desejo, uma forma a um consenso. E nessa constante tradução nos leva de uma parte a outra de nós mesmos, através de várias camadas que desconhecemos. Essa tradução nos leva indiferente ao fato de querermos embarcar ou não.
Como um conceito tão sadio pode vender um sistema de saúde tão doente? A parte não pode viver fora do todo. Mas esse pensamento pode chegar a ser diabólico, como em Fausto: "Eu sou a parte da parte que já foi todo".
Aqui a doença faz parte. O diabo faz parte. Os absurdos fazem parte de tudo isso. O crime é um absurdo, a corrupção é um absurdo, Demósthenes é um absurdo, o tráfico de drogas é um absurdo, acidentes de trânsito são absurdos, legislar a bicicleta elétrica é um absurdo... O que não é um absurdo hoje em dia?
A publicidade por vezes cria. Em geral, a publicidade é tradução. Entre desejos, consensos e formas, não há homem capaz num mundo absurdo. E quando a mente contraria o corpo e quando o corpo contraria a mente é que a inteligência se cala.


A poesia e a vida

A poesia atualiza os tempos e harmoniza no presente os vários tons. Ela atualiza, concentra, sintetiza os tempos.
A obra é um traço escrito no tempo.
Esta síntese é a reunião que gera a obra de arte. É a ação do artista, a ação poética, criadora, que dá vida à ideia, que empresta parte da própria vida a uma entidade ideal sem corpo, que desse jeito não teria vida útil para nós. Daí a personificação, que vivifica deuses e objetos inanimados.
O artista cede sua vida e espírito à obra, e assim entre nós a obra vive com tudo o que sua fonte criadora possuiu de bom ou de ruim.


O público e o escritor

Triste história tem sido a do escritor e seu público.
Antes da Renascença não havia público. Havia um povo sem instrução. O público começou a se formar na Renascença, com os aristocratas e os burgueses que sabiam ler e escrever. Não eram eruditos, mas eram instruídos.
A formação do público permitiu a formação da profissão de escritor. Escritor profissional é aquele que escreve para o público e que vive disso.
Público e escritor se estabeleceram no século XVIII, época em que se desenvolveram as empresas de livreiros e editores, os periódicos, o jornalismo moderno e as conversações nos cafés.
É durante o Romantismo que o abismo entre poeta e sociedade começou a se abrir. O poeta não se conformou com a sua condição de fornecedor de efusões líricas e de cenários de teatro para as horas de recreio da burguesia. O papel do artista passa a ser o de propiciar ao burguês a sensação de um idealismo vago que não lhe obrigava a nada.
No século XIX, há uma massa enorme de produção literária. Mas o público agora lê para se instruir ou se informar. O encanto vem do rádio e do cinema. O abismo entre escritores superiores e grande público aumenta.
Auerbach considera a história do público e do escritor quase trágica. Entre os séculos XIX e XX, o público vira inimigo do escritor. O público literário não alcança sua autonomia. Torna-se consciente de sua existência política, mas não de sua existência estética. O escritor de gênio passa a não alcançar sua glória em sua época e sente ódio e desprezo pelo público.
No nosso século XXI, como continuará essa história? E se tivéssemos a coragem de saltar no abismo que se abriu entre público e escritor? Alcançaríamos a consciência de nossa existência estética? Público e escritor reencontrariam a poesia? Descobriríamos que não há abismo nenhum, o que há é a nossa economia?


Ideação de um blogue poético

Um modelo teórico que pode nos ajudar na tentativa de criar um blogue poético é a obra aberta.
A obra aberta é uma teoria antiga. Em qualquer época a encontramos, pois a mensagem artística tem por característica a ambiguidade. Já tratamos na postagem Uma história da leitura do fato de um texto só poder ser lido porque ele é incompleto e, portanto, sempre aberto a novas leituras.
O que pode haver de diferente na ideia de obra aberta é a aplicação de seu conceito considerando as novas tecnologias. Nesse caso, podemos considerar a construção do blogue como uma obra aberta que utiliza a tecnologia do computador, da internet e da escrita em hipertexto, através da qual podemos ligar os fragmentos escritos por nós mesmos com outros blogues e páginas da internet, por exemplo. Nosso mosaico tem uma ideia inicial, mas não tem uma ideia final.
A ideia de obra aberta interfere na relação autor-expectador. O expectador do blogue pode encontrá-lo, visitá-lo, acompanhá-lo, comentá-lo, segui-lo, ou seja, pode tomar parte de sua projeção, de sua construção.
A probabilidade e a flexibilidade são duas características das obras abertas. A obra conta com o apoio de novos métodos informacionais e não ambiciona o ideal de uma poética perfeita. Ela pode mudar o tempo todo. O mosaico não é apenas a forma do nosso blogue. É o seu processo.
Encontramos algumas ideias sobre obra aberta no livro Teoria da comunicação literária, de Eduardo Portella. Não nos interessa aqui o aprofundamento nos conceitos teóricos. O que nos interessa mesmo é a criação do blogue.


Como trabalham o poeta e o filósofo

           “Na verdade, a quota de atividade reflexiva que se requer não é menor em poesia do que em filosofia, pela simples razão de que o verso não é a experiência, mas a expressão verbal dela [...]”. Segue Olavo de Carvalho descrevendo como é a roupagem com que a experiência do poeta se veste para ser apresentável à comunidade em que vive.
            Ele afirma também que ocorre o mesmo processo na filosofia, “[...] onde as novas intuições devem se adaptar aos processos consagrados de formalização e demonstração, ou então inventar novos...”.
            E respondendo, de certa forma, à pergunta que Einstein fez a Saint-John Perse, indica o trabalho do poeta como sendo a produção de “um análogo moldado”, fruto de uma experiência interna ou externa, cumprindo com esse ofício duas exigências: “a máxima comunicabilidade no vocabulário geral” e “a máxima fidelidade [...] às convenções e tradições de ofício”.
            Olavo fala exatamente sobre a criação do poeta, e isso nos interessa:
           
“O poeta, em suma, cria, através da força analogante das imagens e dos símbolos, uma área de experiência imaginativa comum, onde os indivíduos e mesmo as épocas podem se encontrar, vencendo no imaginário as barreiras que separam fisicamente suas respectivas vivências reais. Assim fazendo, ele não apenas se comunica, mas intercomunica os outros homens. Daí a missão curativa, mágica e apaziguadora, que faz da poesia um dos pilares em que se assenta a possibilidade mesma da civilização: ela liberta os homens da noite animal, do terror primitivo que isola e paralisa. Ela reúne os membros da tribo em torno do fogo aconchegante e os faz participar de um universo comum que transcende as barreiras dos corpos e do tempo. Ela apazigua, reanima e torna possível, aos que eram animais assustados, pensar e agir.”

            No entanto, essa função não se aplica ao filósofo. Por mais que poeta e filósofo tenham princípios coincidentes e meios semelhantes, não possuem os mesmos fins. Para Olavo, o filósofo, “a primeira coisa que faz é voltar as costas à comunidade, para ir perguntar, à experiência [...] até que ela se abra e mostre seu conteúdo inteligível [...] Seu diálogo não é com a tribo. É com o ser”.
            Olavo parece concordar com a coincidência entre poeta e filósofo no momento da descoberta, de iluminação súbita, como também viram Einstein e Perse para o cientista e o poeta. Mas Einstein via que na ciência, após esse momento de quase êxtase, a inteligência analisa e a experimentação confirma a intuição. Olavo vê que na filosofia o raciocínio e a reflexão são a roupagem pós-intuição. Ricardo Reis via, inclusive, uma intuição sobre-humana, daquela que "funda religiões para sempre".
            O poeta começa como o cientista, como o filósofo e como o religioso. Mas seu ofício, técnica e finalidade exigem materiais próprios e exclusivos da poesia.

Confira mais lá com Olavo de Carvalho, em Poesia e Filosofia.


O poeta Gandhi e o agir poético

Foi o poeta Tagore quem primeiro chamou Gandhi de Mahatma, apesar de Gandhi ver com ressalvas essa denominação. Sobre a ação do poeta, disse o Mahatma: “O poeta é um ser capaz de despertar o bem que dorme no fundo do coração humano. Os poetas não exercem sobre todos os indivíduos a mesma influência, todos os seres não atingem o mesmo grau de evolução”.
Gandhi não foi um criador das palavras. Ele foi um poeta das ações. Ele tecia em sua roda de fiar e colhia o sal proibido. Metáforas diárias. Seu agir poético criou uma reação de paz a uma ação de violência. Ou uma ação de paz a uma reação violenta. Uma antítese praticada.
Nossas ações de protesto contra a violência, o preconceito e a corrupção, nossas ações de solidariedade contra a miséria e a fome têm sido somente externas e agendadas. Fazem parte de nossa história política e de nosso calendário de finais de semana, feriados e dias santos. Não chegam perto de nossa história literária e de nossa rotina. Isso porque muitas dessas ações não são movidas pelo bem despertado, mas por uma culpa conscientizada.
Seríamos capazes de um agir poético movido pelo bem despertado no fundo do coração humano?

Leia também Mexeu com o Rio, mexeu comigo.


Característica básica do ser humano

O ser humano pensa e imagina.

¿ !

Ele pensa, pesa, pondera, e como toda balança, compensa... Mas existe pesagem sem comparação de dois pesos – um descoberto e um por descobrir?
Ele compara e mede as coisas. E ao comparar, o que faz? Estabelece uma relação entre as partes, um peso, que não é uma parte nem outra, mas uma medida entre ambas.
Assim, a inteligência compara e reúne. E produz parábolas. Compara e reúne, e reproduz palavras (registro de sons e traços). O fiel da balança aqui é a língua. Daí chamar-se linguagem.
Conhecimento vem da linguagem; e linguagem, do pensamento. Conhecimento é linguagem coagulada, uma relação que reúne e define.

¿ !

Ele também imagina, produz imagem, representação. Imita, copia, reproduz o fiel da balança ou simula o efeito compensatório da medição.
Ele intui. E ainda compara e reúne, mas também ordena a reunião. Ordena a leitura com limites, e produz figura. Desenha o valor que o peso tem, os contornos dessa relação.
Assim, a inteligência capta e reúne. E produz metáforas. Capta e reúne, e reproduz parábolas (registro de imagens). O fiel da balança aqui é a língua nascente. Daí às vezes não ter linguagem.
Poesia vem do pensamento, realizado em imagem. Poesia é linguagem expandida, uma relação que reúne para relacionar.

¿ !

Essa é a característica básica do ser humano; fruto de sua palavra, de seu radical, de sua raiz.


Morre Steve Jobs

“Filósofo, gênio, inventor”. Assim foi descrito Steve Jobs nos telejornais após sua morte. Quantos termos usados para qualificá-lo... Afinal, quem foi Steve Jobs?

Por filósofo, as pessoas se referem aos pensamentos expostos em suas apresentações, lições de carreira profissional e de vida. É claro, ser filósofo não é dizer frases de efeito. Mas a intenção de chamá-lo assim após sua morte é elogiá-lo. Por gênio, a intenção foi ressaltar a sua elevada capacidade intelectual de criação. E de inventor o chamaram pelo que fez dentro e fora da Apple. Seus produtos falam por si.

Por que, se foi ressaltada a qualidade das palavras de Steve Jobs e também seu gênio criador, não foi em momento algum utilizada a qualificação de poeta? O que diferencia a criação do inventor da criação do poeta?

Pode haver um poeta na área de informática assim como Einstein pode ser considerado um poeta na ciência ou Nietzsche um poeta na filosofia? Pode haver um espaço poético na tecnologia?


O sentir

Primeiro foi ouvir a música.

Paulinho da Viola:
“O poeta declina
Daquilo que ele não sente
E o silêncio é o peso que ele conduz.”
(em Quando o samba chama)


Depois, ler o poema e lembrar a música.

Goethe:
“FAUSTO. Se a fundo não sentis, jamais a tendes,
Se do íntimo d’alma vos não brota
E com espontânea, poderosa força,
Os corações não vence, dos ouvintes.
[...]
Mas corações não ganhareis vós nunca,
Se o próprio coração vos ficar mudo.”

(em Fausto)


Por fim, vincular a música e o poema ao que já conhecia. Claro, considerando o fingir como fingir mesmo. Moldar, fazer, criar um sentimento.

Fernando Pessoa (ele mesmo):
“[...] Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. [...]”.
(em Autopsicografia)


E sempre estamos falando da mesma coisa, algo tido como essencial na poesia.

Como fala o coração? Fala com sentimentalismos, com a palavra de quem acha que sente? Como surge a consciência do que sentimos para então poder comunicá-la? E, por outro lado, como isso tudo é percebido e entendido hoje?

Para o poeta T. S. Elliot, “além da intenção específica que a poesia possa ter, como já citei nos vários tipos de poesia, há sempre a comunicação de alguma experiência nova, de algum entendimento novo do familiar, ou a expressão de alguma coisa que sentimos mas para a qual não temos palavras, que amplia nossa conscientização ou apura nossa sensibilidade. [...] Creio que todos entendem quer o tipo de prazer que a poesia pode dar, quer o tipo de diferença, além do prazer, que traz a nossas vidas. Sem produzir esses dois efeitos, simplesmente não há poesia” (em A essência da poesia).

Bem, esse é nosso aprendizado.


Como trabalha o poeta? (2)

Saint-John Perse descreveu a importância imensa da intuição e do inconsciente. Einstein parecia todo feliz. “Mas a mesma coisa se dá com um cientista – disse ele. O mecanismo do descobrimento não é lógico e intelectual; é uma iluminação súbita, quase um êxtase. Em seguida, é certo, a inteligência analisa e a experimentação confirma a intuição. Além disso, há uma conexão com a imaginação.”.
           
O que deixou Einstein tão feliz é válido ainda hoje? As possibilidades humanas mudaram tanto assim em tão pouco tempo?