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7) O Mahabharata – no fim


No princípio não há nada.
Nós existimos no entremeio.
Depois, nada há novamente.


No fim, enquanto o filho de Drona recitava um mantra para a destruição dos Pandavas e de Krishna, Arjuna recitava o mesmo mantra para haver paz no mundo inteiro e nele mesmo. Vyasa deteve o mantra do filho de Drona. E Krishna deteve o de Arjuna.

No fim Arjuna retirou as cordas do arco Gandiva. Draupadi chorou a morte de seu irmão. “Tanta coisa aconteceu”, ela lastimou.

No fim Krishna sentou-se ao lado de Sanjaya e do rei cego e, com palavras que fluíam docemente, começou a contar-lhes: um bilhão e seiscentos e sessenta milhões e vinte mil homens caíram nesta batalha. E pôs-se a recitar-lhes os nomes.

No fim, em Kurukshetra, todos os sinais de batalha sumiram. Kama entoou um cântico: “Para longe as preocupações do mundo!”.

No fim só há um inimigo – a ignorância.

No fim Yudhishthira foi consagrado rei. Recitou silenciosamente seu mantra secreto, que nunca será escrito e nunca será dito para ser ouvido.

No fim músicos bharatas tocaram a canção de que ninguém mais se recorda. Foi no nascimento do filho de Arjuna, o nascimento do neto de Indra. Só o rei Gandharva e outros reis parecem ouvi-la.

No fim o rei cego morreu na floresta.

No fim Sanjaya partiu para os Himalaias e ele pensou: “Terra, minha mãe, quanta ingratidão naqueles que rejeitaram sua fartura e preferiram entregar-se a Yama. Como é possível que eles a vissem qual mansão de dor e tristeza, onde ninguém pode permanecer?”.

No fim Krishna voltou para sua cidade. No caminho, um brâmane comentou sobre a guerra que o Senhor havia conseguido impedir. E quando Krishna finalmente chegou em seu lar, ninguém quis ouvir o que ele tinha a dizer sobre a guerra. Arjuna, seus irmãos e Draupadi, vestidos de preto, caminharam para o norte. A cidade de Krishna, próxima ao mar, foi coberta pelas águas. Krishna vagava por uma floresta. Deitou-se na grama e pensou: “Arjuna, onde você está? Amanhã destruirei o mundo por causa de sua maldade”. Nesse instante um caçador confundiu o pé de Krishna com um bicho da floresta e lançou-lhe uma flecha. Krishna morreu, com sua túnica amarela e seus quatro braços.

Vaisampayana disse: “Curvo-me perante Deus, que habita este mundo dentro de nós. A quem o chamar, por qualquer nome, por esse nome Ele virá. Portanto, cautela e reverência com os nomes de Deus. E assim encerro minha história”.

Saunaka disse: “Junto à árvore de Narayana, cujas folhas são canções, no seio da montanha, os atores se reuniram e se perguntaram: ‘O que faremos a seguir?’”.

NEP dizem mais uma vez: “O que não está no Mahabharata não está em nenhum outro lugar”. 




6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra




A Terra... Assemelha-se a
uma negra dançarina vestida de carmim...
Quem morreu aqui?
Quem cometeu assassinato?


Na véspera

Vyasa descreveu a planície dos Kurus para o rei cego que estava junto com Sanjaya: “Duas grandes cidades feitas de tendas de seda, uma diante da outra, no grande campo vazio. Corvos negros grasnam ‘Vá!’. Um círculo negro rodeia o sol. À noite, todas as estrelas são hostis. Os rios invertem seus cursos. As vacas ordenhadas só dão sangue. As estátuas dos deuses gargalham e estremecem. Crianças lutam com clavas de madeira. Os canalhas e assassinos cantam e dançam. Isso é medo e o mal sobrepondo-se ao mal”.

Depois Vyasa concedeu visão celestial a Sanjaya.

Sanjaya ficou cinco dias e cinco noites em Kurukshetra. Retornou após a aurora do 6º dia, dizendo: “Está tudo acabado. Não há como contar tudo. Minhas palavras soam estranhas e muito, muito distantes”.


No 1º dia

Krishna entoou um cântico para seu amigo Arjuna – o Cântico do Senhor. Os bardos e menestréis, sentados ao longo do Kurukshetra, compunham versos e canções da grande guerra dos Bharatas. Guerreiros bradavam, anunciando seus nomes. Vestiam uniformes, portavam estandartes, orientavam-se por senhas e sinais. As setas eram atraídas por seus alvos. Krishna gritou para Arjuna: “Não tema! Atire nele!”.


No 2º dia

Duryodhana viu que as obras de Arjuna estavam além do que se podia conhecer. O grande guerreiro kuru Bhishma tombou de sua carruagem. Seu corpo não tocou a Terra porque estava cheio de setas. A lua concedeu aos mortos seus corpos celestiais.


No 3º dia

O guerreiro Susarman, que lutava pelos kurus, ao ver ser tolice combater Arjuna pela ilusão, caiu aos pés de Krishna e perguntou: “Senhor, o que é esta guerra?”.

Krishna disse a Arjuna: “Não chore, pois as lágrimas queimam os mortos com seu fogo líquido”.

O guerreiro kuru Drona foi atingido mortalmente por uma mentira quando estava desarmado. “Vergonha para os que desconhecem o que é ser guerreiro”, pensou Arjuna. Quis o filho de Drona se vingar usando a arma de Narayana: dez mil flechas e dez mil dardos em chama, cem mil espadas, clavas e machados, um milhão de rodas afiadas e pesadas bolas de ferro caíram sobre as tropas dos pandavas. Krishna e Arjuna desarmaram seu próprio exército, dizendo para que niguém pensasse em guerra. Todos deitaram-se no chão com o coração em paz. Com isso, a arma de Narayana fracassou e o filho de Drona se perguntou na noite: “Ah, será tudo mentira?”.

No campo de batalha, cadáveres decapitados tateavam em busca dos assassinos. Os guerreiros kurus já não viam mais sua juventude, nem mesmo a primavera daquele ano. mas Duryodhana ainda acreditava que o destino podia mudar a qualquer momento e se perguntava: “Por que deve haver restrições sobre quem quer que seja? Por que não se há de ser livre para fazer o que se quer?”.


No 4º dia

Os deuses chegaram para observar a batalha.

O guerreiro Karna, que lutava pelos kurus, cortou a corda do arco de Arjuna e lançou o dardo de Indra contra a cabeça dele. Krishna fincou o pé no chão. A quadriga de Arjuna afundou na Terra. O dardo atingiu a coroa de Arjuna, partindo-a. Arjuna lançou uma flecha contra Karna, que caiu com a cabeça decepada. Jamais considerou que a arma de Indra pudesse falhar. Por isso, não se protegeu.

Duryodhana chorou a perda do amigo e se lembrou do jogo de dados e de Draupadi. “Ela jamais me perdoará”, pensou. Yudhishthira se perguntou olhando para Karna: “Quem era ele?”.

Os deuses se foram. A vitória deixou os kurus para sempre.


No 5º dia

Quando o sangue selou o pó da Terra, as mulheres se tornaram viúvas. Sanjaya sentiu o perfume das Apsaras e lamentou não haver ninguém para matar em oferecimento a elas. O fascínio da guerra fez com que ele entrasse em transe. Todas as leis da guerra foram quebradas. Aurigas e animais eram mortos, guerreiros não mais anunciavam seus nomes, já nem mais sabiam se suas vítimas eram amigos ou inimigos. E essas eram questões muito ínfimas, para as quais não havia tempo. Sanjaya estava prestes a ser morto, mas Krishna libertou-o.

Duryodhana desapareceu na floresta. Ele é a alma da ilusão. Diz que os livros em tudo divergem, que os homens discutem e a nada chegam e que a verdade está oculta em cavernas. Krishna já não queria mais ver a vida sendo derramada. Duryodhana sofreu um golpe baixo de Bhima. Como um homem combateria seus cinco sentidos, Duryodhana combateu os pandavas. E por isso perdeu.


Na aurora do 6º dia

Enquanto os guerreiros dos exércitos dos pandavas dormiam, o filho de Drona entrou nas tendas, esganando e estrangulando os inimigos com as próprias mãos, e depois com a espada. “Quem vive ainda?”. Houve silêncio antes e depois do filho de Drona fazer a sua pergunta.

As últimas palavras de Duryodhana foram para o filho de Drona: “Assassinou inocentes e deixou meus inimigos vivos. Basta. Eu quase venci”. Duryodhana morreu ao amanhecer. E Sanjaya perdeu sua visão celestial.



Visão da ruína

¿!  As ruínas são registros mudos.


4) O Mahabharata – No entremeio

Enquanto Brahma dorme...
em seu sonho de Vida

No entremeio o poeta Vyasa contou a Yudhishthira a história da princesa que ia, ia, sempre ia à procura de seu amor perdido, o rei. Até que um asceta disse para a exausta princesa ir para casa, pois ela nunca acharia seu amor daquela maneira. Quando o rei e a princesa se reencontraram, o passado tornou-se uma noite escura finalmente iluminada por uma lua azulada. Vyasa disse que essa antiga história é um veneno mortífero para o mal e a desventura. Disse ainda que, quando organizara o Veda em seu tempo livre, o livro sagrado dizia que os trapaceiros podem ser destruídos pela trapaça, sem que a honra de quem assim os destrói se turve.

No entremeio Bhima deixou seus irmãos e foi em busca da morada do lótus de mil pétalas a fim de pegar uma flor para Draupadi. No caminho encontrou seu irmão Hanuman. Ambos são filhos do Vento.

O Universo tornou-se água
...

As águas escuras, então,
permaneceram quietas e silentes,
esperando, e nada tocando.
Que forma haverei de assumir
para salvar a Terra deste dilúvio?


No entremeio Yudhishthira disse à montanha: “Possamos nós retornar”. E o vento soprou-lhe: “O Mundo é amplo! O Mundo é enorme!”. Era o 12º ano. Duryodhana conversava às gargalhadas com seu amigo Karna enquanto seu eu sustinha os fios de seu corpo, sustinha lealdade e pesar, vergonha e ambição, amor e energia e desejo e amizade, e tudo o mais – os cem mil fios brancos e negros entretecidos da vida. Seu corpo foi feito por Kalee: a parte superior, de diamante indestrutível; a metade inferior, de flores de montanha.


E arrancou fora sua alma, em ente não maior que um polegar


No entremeio Vyasa contou à Draupadi a história de Savitri. Depois de depositar gentilmente a cabeça de seu amado Satyavan na Terra, Savitri quis ainda caminhar sete passos ao lado de Yama. O deus da morte olhou para ela e ofereceu-lhe uma dádiva, desde que não fosse a vida de Satyavan. Yama, aquele que sempre tira, viu como era bom dar. Caminharam até um riacho. Com as próprias mãos, Yama, de imóveis olhos escuros, deu um pouco de água para Savitri beber e disse: “Não é difícil dar. Quando a vida é finda e tudo precisa ser entregue, dar não é difícil. Durante a vida existe dor, mas nenhuma na morte. Ninguém me escapa. Eu já vi a todos. E, contudo... esta água não é mais límpida que seu coração. Você busca o que almeja, você escolhe e a questão se encerra; não deseja ser nenhuma outra pessoa. Há muito que não vejo isso. Faça-me outro pedido, tudo menos a vida de Satyavan”. Yama suspirou, seus olhos fixos em Savitri: “Eu, mais do que ninguém sei o que são a verdade e a justiça. Sei que todo o passado e todo o futuro são mantidos coesos pela verdade. O perigo dela foge e se esquiva. Quanto vale sua vida sem Satyavan?”. “Nada”, disse Savitri. Yama pediu metade dos dias de Savitri para que ele pudesse dá-los a Satyavan. Savitri não quis saber quantos dias lhe restaram. Com seu amor, ela transformou a desgraça em alegria. Como Draupadi fazia. Deixando-se amar pelos Pandavas, alegrava até mesmo o exílio.

No entremeio ouviu-se a música mais maravilhosa de todo o mundo, com sinos para Draupadi dançar, a flauta de Krishna e um duplo tambor para Arjuna.

No entremeio Krishna ainda sorria, mas havia lágrimas em seus olhos. Terminado o exílio, Duryodhana não quis devolver metade do reino para os Pandavas. Krishna disse a Duryodhana que a paz não era difícil: “Depende apenas de você e de mim”. Faltavam sete dias para o início da guerra na planície dos kurus.




O tremor

Quando a Terra volta a escrever seus profundos versos, um vento que não sopra derruba asas de pedra no chão. Quando a Terra abre seus profundos versos, ela nos une ainda mais. Os versos da Terra só destrõem, só engolem o que já é dela mesma.

Recitamos um trecho do Ramayana, ilustrando-o com uma imagem da ave Garuda antes do terremoto deste nosso outono:


Indra esteve escondido perto da Terra. Atirou um raio e atingiu o peito de Garuda. Com esse golpe, todo o conhecimento veio a Garuda. Ele ficou sabendo tudo o que já existira, tudo o que existia e tudo o que viria a existir; conheceu-o num instante.





Ora, em sinal de respeito pelos dias passados, quando aquele raio insuportável o atingiu, Garuda deixou cair uma pena. A pena de ouro revoluteou no ar, do tamanho de um escudo de guerra.


O Ramayana – William Buck


História de um cão



Aos professores que ensinam poesia aos alunos, aos pais que ensinam poesia aos filhos e aos que seguem a Lei do Sacrifício: 


História de um cão

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo
Para dizer numa palavra tudo
  Foi o mais feio cão que houve no mundo

Recebi-o das mãos dum camarada,
Na hora da partida, o cão gemendo,
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o... o sol nas ondas se abismava...
"Adeus" — me disse — e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

"Trata-o bem. Verás como rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos."

Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;

Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda — caminhava errante
À luz da lua — tristemente uivando.

Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe o correio
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Prata.
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.

Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.

Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota bem do melhor cursivo
Recomendava o pobre cão Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplou, e — creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente
Estendeu-se aos meus pés atencioso
Movendo a cauda e, — adormeceu contente
Farto d'um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia
Dei-o à mulher d'um velho carvoeiro.

E respirei! "Graças a Deus! Já posso"
Dizia eu "viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo."

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E — de cansado — foi rolar dormindo,
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um só meio: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo: ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei um remo — e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente!

Voltei à terra — entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.

Mas, ao despir dos ombros meus o manto
Notei — oh grande dor! haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: eu tinha-o unido.

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além no mar profundo
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo

Duas vidas tivera — duas vidas
Eu arrancara aquela besta morta
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.

Corri, - abri... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés — e docemente
Deixou cair da boca que espumava,
A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, oh Deus? — Ajoelhado
Junto do cão — estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.


Luis Guimarães (Filho)



Cachorro no quintal








Durante a visita à Casa da Flôr, fomos acompanhados pelo sobrinho-neto de Seu Gabriel. Ele nos disse que, às vezes, alguns estudantes fazem piquenique no quintal da casa. Contou também que Seu Gabriel gostava muito de cachorro, e mostrou o lugar onde havia sido enterrado seu bichinho de estimação – um túmulo cheio de pequenas pedras.



Não compreendemos

Depois da inauguração dos estádios para a copa, durante a campanha eleitoral, no mundo das celebridades e dos famosos... O blogue é fruto dos livros em forma de rolo e também será levado pela onda do tempo:


Escrevemos livros; tentamos arranjar um lugar na história como líderes políticos; fazemos muitas coisas e, às vezes, coisas não desejáveis, na cruel ilusão e na vã esperança de tornarmo-nos imortais. Não compreendemos que em tais casos é tão-só um nome ou uma forma que pode perdurar no máximo alguns séculos, não nós. A onda do tempo avança implacavelmente, destruindo não somente nomes de pessoas atualmente famosas, mas tudo em seu caminho, mesmo civilizações e Globos, Sistemas Solares e Universos. Quanta ilusão! 


I. K. Taimni, em Autocultura à Luz do Ocultismo


Livro das Mil e Uma Noites – Volume IV (ramo egípcio, 2012)




Por fim, Sahrazad disse que aquele que vive largamente no mundo sem saber como nele viver, fazendo-o mediante fadigas, é o mais miserável dentre os homens. Ele se ilude com o seu reino. E para aqueles que se iludem com a morte, disse que o vivo não tem matador. Que cada vivente, então, fosse cuidar da própria vida.

Completadas mil noites, Sarazad interrompeu as histórias, que despertaram a inteligência do rei Sahryiar. Com o coração serenado, ele pensou que se com outros reis havia ocorrido pior do que com ele mesmo, ele ia parar de se autocensurar.

Finalmente amanheceu.

O próprio rei Sahryiar contou o que acontecera entre ele e a rainha Sahrazad a todos. Depois contou que voltara atrás quanto à morte das jovens.

Sahrazad e Saryiar se casaram. Espalhou-se a notícia pela cidade e o povo ficou contente. As comemorações duraram 7 dias.

O rei Sahryiar se reuniu a sós com seu irmão Sahzaman, e lhe contou o que havia acontecido. Extasiado, o rei Sahzaman quis se casar com Dunyazad. O rei Sahryiar dividiu o reino com seu irmão e os dois passaram a governá-lo, cada dia um.

O amor entre os reis e suas esposas irmãs se tornou perfeito.

Sahriyar mandou chamar historiadores e copistas, e estes escreveram tudo que sucedera do início ao fim, que são as mil e uma noites. O rei Sahryiar depositou os 30 volumes na biblioteca do seu reino, no local onde estudava.

Os reis viveram com suas esposas na vida mais opulente até que todos morreram.

Louvores a Deus. Conclui-se a história.


As mil e uma noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho. (Jorge Luis Borges)




Livro das 1001 Noites ou O Livro do Véu de Ísis

O Livro das Mil e Uma Noites é chamado de O Livro do Véu de Ísis por Roso de Luna, autor de O Livro que Mata a Morte.

Roso de Luna dedicou algumas linhas de seu livro à poesia. Ele nos apresenta a poesia como uma irmã gêmea da matemática. Ambas idealizam, embelezam e elevam analogicamente as realidades concretas que integram nossa vida. A poesia segue a lei do símbolo e da analogia. O simbolismo sendo para ele a ciência das ciências, pois todo símbolo é uma ideia corpórea em que jaz o visível terreno com o invisível divino.

O véu de Ísis simbolizaria a morte separando-nos das delícias da imortalidade. Roso de Luna lembra que o número 10 (presente em ordem direta e invertida no número 1001) é o hieróglifo de Ísis.

Sahrazad vai geometrizando a vida e a morte com sua narrativa. Linkando uma história a outra através de seus personagens dizentes, ela tece uma espiral de palavras, formando curvas em graus maiores ou menores, dependendo do entendimento do seu ouvinte. Como escreveu o próprio tradutor da versão que lemos:

A experiência é pensada como algo que se comunica e cuja possibilidade de transmissão é dada pela repetição: são estruturas semelhantes que se reproduzem incessantemente, sem que no entanto possam ser reduzidas, em seu funcionamento no interior de determinado quadro narrativo mais amplo, a um processo previsível e automático, visto que a própria dinâmica interna da narrativa determina o resultado das sucessivas histórias exemplares que se vão sucedendo.

Acrescentamos com Roso de Luna que essas estruturas formam espirais e arabescos, ciclos que nunca se fecham.

Na hora que precede a alvorada, Sahrazad para de falar. O homem começa a afastar-se do mundo do sonho, penetrando em outros ainda mais doces. Antes do amanhecer é a hora da iniciação. Quando já não mais precisamos entregar nossos olhos, ouvidos e coração às palavras da narradora, pois nos damos conta de que nós mesmos criamos e recriamos a história.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes” 




Livros inúteis

Recitamos um comentário de Jung sobre o Bardo Thödol, a Grande Doutrina da Libertação pela Audição e pela Visão no Plano do Pós-Morte, conhecido também como O livro tibetano dos mortos. O comentário encontra-se na obra organizada por W. Y. Evans-Wentz.

É bom que existam livros “inúteis” para todos os fins e propósitos. Eles são destinados a essa “gente rara” que não dá tanta importância aos hábitos, metas e significados da “civilização” atual.


Carl G. Jung


Livro das Mil e Uma Noites – Volume I (ramo sírio, 2005)




Tudo começou quando o rei Sahriyar descobriu que havia sido traído pela sua esposa com um escravo. A tomada de consciência da traição o conduziu a uma pergunta: alguém no mundo teria sofrido uma desgraça ainda pior do que a dele? Traído, com essa questão em mente e na companhia de seu irmão Sahzaman, Sahriyar decidiu abandonar seu reino e perambular. Se encontrasse alguém cuja desgraça fosse pior do que a dele, retornaria. Se não, continuaria a vagar pelo mundo. O rei e seu irmão saíram do palácio pela porta secreta e seguiram viagem até a orla do mar salgado.

Lá os dois encontraram uma bela jovem que vivia trancada em um baú de vidro no fundo do mar sob a vigilância de seu marido. Mesmo assim, a mulher o traía enquanto ele dormia: “quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la”. Esta bela mulher carregava consigo um saco contendo cem anéis: “todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel”.

Diante de tamanha desgraça, Sahriyar e Sahzaman voltaram para o reino.

O rei Sahryiar decidiu, então, se casar a cada noite com uma mulher diferente e matá-la antes do dia amanhecer. Um casamento que não duraria mais do que a noite de núpcias. O horror tomou conta das famílias e do reino.

Até que, em uma certa noite, que seria a primeira das mil que se seguiriam, Sahryiar se casou com Sahrazad. Ela tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorado poesias e consultado as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Sahrazad pediu ao rei que chamasse sua irmã Dinarzad a fim de que elas pudessem se despedir. Quando a noite se fez mais espessa, no momento oportuno, Dinarzad disse: “Minha irmãzinha, se não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas, para que eu possa despedir-me de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã”.

A pedido da irmã e com a permissão do rei, Sahrazad disse contente: “ouça”. 


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes”. 


Introdução        Volume II


Solstício de inverno

Saudamos a noite mais longa do ano com a 745ª noite do Livro das mil e uma noites. Saudações ao que se esfria nos corações. Saudações aos que apreciam ouvir as histórias sobre a morte:

[Prosseguiu Sahrazad:] E agora te é necessário aprender as histórias do último suspiro, como também deves ficar ciente de que os estúpidos que se deixam seduzir pela dilatação de prazo não apreciam ouvir histórias sobre a morte, a fim de que o amor pelo mundo não se esfrie em seus corações, nem lhes transtorne o [prazer de] comer e beber.


Traduzido do árabe por Mamede Mustafa Jarouche




Mangifera indica - 13/4





13/4     outras seriam as visões

Outras seriam as visões da árvore...
Folhas verdes opostas à tarde
densas folhas contrárias aos outonos
absorvendo as observações
retendo as atenções
circulando as concentrações

E os quadros seriam outras visões...
de galhos temperando o crepúsculo outonal
galhos de choupo
como montes de arame farpado
como garranchos de versos emaranhados
Um broto verde nasce da raiz
do velho tronco cortado
Que tinta dará vida
aos fúnebres ciprestes pintados
sobre tudo que morre?
Que sentimento dará cor
ao drama da tempestade?
Nossas vidas açoitadas pela dor
têm a mesma cor
da árvore açoitada pelo vento?
Um broto verde nasce da raiz
do velho tronco cortado
Um sábio pintor que passa a vida a estudar
o talo de capim
que tinta, que cor, que sentimento
ele usaria na pintura


13/3         13/5


Descanso


Uróboro: disco de bronze de Bénin


Uróboro – simboliza um ciclo de evolução encerrado nela mesma. Esse símbolo contém ao mesmo tempo as ideias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, em consequência, de eterno retorno. A forma circular da imagem sugere ainda outra interpretação: a união do mundo ctônico (figurado pela serpente) e do mundo celeste (figurado pelo círculo). Significa a união de dois princípios opostos. A serpente que morde a própria cauda, que não pára de girar sobre si mesma, que se encerra no seu próprio ciclo, evoca a roda das existências, como que condenada a jamais escapar de seu ciclo para se elevar a um nível superior: simboliza então o perpétuo retorno, o círculo indefinido dos renascimentos, a repetição contínua, que trai a predominância de um fundamental impulso de morte. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Descanso – 1) Ato ou efeito de descansar. 2) Sossego, tranquilidade, paz. 3) Ócio, folga, vagar. 4) Pachorra, lentidão. 5) Apoio, proteção. 6) Alívio, consolo. 7) Sono. 8) Objeto sobre o qual outro assenta ou se apoia. 9) Forquilha (vara bifurcada na qual descansa o braço do andor/ forquilhado = bifurcado). 10) Ressalto existente no gatilho, o qual oferece resistência ao dedo do atirador durante o acionamento do disparo. 11) Nas escadas de lanços compridos, patamar. 12) Habitação, morada. Descansar – 1) Livrar de fadiga. 2) Livrar de receio. 3) Diminuir, suavizar. 4) Dar pausa a. 5) Fixar, fitar. 6) Basear-se, fundar-se. 7) Acreditar, confiar, crer. 8) Estar pousado, jazer. 9) Ficar de pousio (a terra). 10) Dormir. 11) Estar sepultado, repousar eternamente. 12) Morrer. 13) Dar à luz, parir. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Descanso – Des . cans - o, de cansar. (Adaptado do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa)

Des – de origem controvertida; da junção das preposições latinas de e ex, ou da romanização do prefixo dis. Prefixo = separação, transformação, intensidade, ação contrária, negação, privação. De – do latim de, prefixo = movimento de cima para baixo, origem, afastamento, extração, intensidade, significação contrária. Ex – do latim e, prefixo = movimento para fora, separação, transformação, intensidade, ausência, negação. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

De – vindo; descendente de; saído de; sobre; durante; no meio de; composto de; em lugar de; por causa, por amor de; tocante a; conforme; contra. E – de (indicando de um estado ao outro ou a matéria de que uma coisa é feita ou dependência); com (indicando mistura de coisas); do número de; a começar de, depois de; de harmonia com; em consequência. (Adaptado do Dicionário Latino-Português).

Descanso – Repouso, desistência, refreio, chegada, férias, vírgula, fim, ocaso [em cessação]. Amparo, alicerce, terra firme, pilar, pé, poste, bastão, umbral, viga-mestra, larva, pedra angular, coluna vertebral, tripé, trono, leito, rede, colo [em suporte]. Quietação, placidez, fleuma, serenidade, inércia, apatia, paralisia, catalepsia, sedentarismo, silêncio, ponto, pousada, porto, meta, estátua, rochedo [em imobilidade]. Marasmo, enferrujamento, remanso, falta de trabalho, dolce far niente, preguiça, boêmia, entorpecimento, languidez, quebranto, bocejo, letargia, coma, transe, vencido [em inatividade]. Ocasião, lazer, fuga, recreio, tempo desocupado [em ócio]. Fôlego, respiro, trégua, licença, solidão, recolhimento, pouso, retiro, pousio [em repouso]. Desafogo, desopressão, frescor, oásis, encorajamento, animação, néctar, bálsamo [em alívio]. Descansar – encriptar, soterrar, dar um corpo à terra, tocar a finados, dobrarem (os sinos), orar pela alma de, cremar, exumar, perturbar o repouso dos mortos [em enterro]. (Adaptado do Dicionário Analógico)

Repouso – O repouso depois da criação não se refere a um estado estático; não significa não fazer nada nem interromper um processo de desenvolvimento. O repouso é uma pausa criadora, que inaugura um novo aspecto. Este repouso é uma transferência de energia para a criação: a ascensão a um novo nível. O início tem relação com o fim, a perfeição é alcançada, o ciclo começa. Começo e fim se reúnem e a energia cósmica circula na totalidade. Encontramos aqui o tema do conceito circular. Tem essa significação a imagem da serpente que morde sua própria cauda, Uróboro. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Descanso para eles:

Tchékhov/ Grupo Galpão – Tio Vânia


Fonte da imagem: Dicionário de Símbolos


Campus Martius VIII

VIII

teu rosto de soldado surge em ti
e morre sem saber o que é morrer.


Campus Martius V

V

teu rosto de soldado é informe ainda
lembra-te, como foi um dia lutar sozinho
somente olhar a paisagem dura da cidade:

o concreto embrulhava as raízes sob seus pés
grades de ferro abraçavam troncos ingênuos e tortos
postes de chumbo podavam os galhos de sua vista
prédios e canais e avenidas eram embalagens
                        envolvendo montanhas
era o silêncio congelando os assuntos
preconceitos sufocando sentimentos
eram roupas modernas e desajustadas
como velhos hábitos vestem um corpo novo

lembra-te, Drummond, nascem flores no asfalto
nasce tenro e inocente combate
― e avança a libido de morte sobre a mata virgem

lembra-te, lembra-te
de teu rosto
a vida que é mole cavando a morte dura.


Campus Martius II

II

que é teu rosto?
é pensamento que não é pensamento algum?
é este vazio repleto de algo que apenas pressinto?
que movimento é possível no que não existe?

recruta recruta recruta
o olhar não alcança
pois não há o que esta mão alcançar
ainda
esta mão acostumada às ruas
a tocar nas maçanetas das portas
a trocar dinheiros resfriados
a tirar as fezes do cachorro
a coçar o olho a boca o nariz
a tapar o buraco da pia
a destapar o bueiro da chuva
a limpar o rastilho de pólvora
a torcer e a rezar de mãos dadas
esta mão
não toca o movimento, o vazio, o pensamento
(e demais abstrações)
            esta mão não toca
a morte, mesmo que segure as armas ainda
            não toca a luta,
embora mantenha o próprio peito à mostra
não toca a vida, ainda que sustente o parto às mãos.


Aliança I




1.
A morte afasta o amor?
O amor afasta a morte?
E ambos tornam a brincar
Diante os olhos humanos...

2.
O amor, que ama, fere;
o amor, que fere, mata;
e, assim, mantém-se vivo,
e morte é somente a cura.


amor e morte        Aliança II


amor e morte





Templo VI        Aliança I