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6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra




A Terra... Assemelha-se a
uma negra dançarina vestida de carmim...
Quem morreu aqui?
Quem cometeu assassinato?


Na véspera

Vyasa descreveu a planície dos Kurus para o rei cego que estava junto com Sanjaya: “Duas grandes cidades feitas de tendas de seda, uma diante da outra, no grande campo vazio. Corvos negros grasnam ‘Vá!’. Um círculo negro rodeia o sol. À noite, todas as estrelas são hostis. Os rios invertem seus cursos. As vacas ordenhadas só dão sangue. As estátuas dos deuses gargalham e estremecem. Crianças lutam com clavas de madeira. Os canalhas e assassinos cantam e dançam. Isso é medo e o mal sobrepondo-se ao mal”.

Depois Vyasa concedeu visão celestial a Sanjaya.

Sanjaya ficou cinco dias e cinco noites em Kurukshetra. Retornou após a aurora do 6º dia, dizendo: “Está tudo acabado. Não há como contar tudo. Minhas palavras soam estranhas e muito, muito distantes”.


No 1º dia

Krishna entoou um cântico para seu amigo Arjuna – o Cântico do Senhor. Os bardos e menestréis, sentados ao longo do Kurukshetra, compunham versos e canções da grande guerra dos Bharatas. Guerreiros bradavam, anunciando seus nomes. Vestiam uniformes, portavam estandartes, orientavam-se por senhas e sinais. As setas eram atraídas por seus alvos. Krishna gritou para Arjuna: “Não tema! Atire nele!”.


No 2º dia

Duryodhana viu que as obras de Arjuna estavam além do que se podia conhecer. O grande guerreiro kuru Bhishma tombou de sua carruagem. Seu corpo não tocou a Terra porque estava cheio de setas. A lua concedeu aos mortos seus corpos celestiais.


No 3º dia

O guerreiro Susarman, que lutava pelos kurus, ao ver ser tolice combater Arjuna pela ilusão, caiu aos pés de Krishna e perguntou: “Senhor, o que é esta guerra?”.

Krishna disse a Arjuna: “Não chore, pois as lágrimas queimam os mortos com seu fogo líquido”.

O guerreiro kuru Drona foi atingido mortalmente por uma mentira quando estava desarmado. “Vergonha para os que desconhecem o que é ser guerreiro”, pensou Arjuna. Quis o filho de Drona se vingar usando a arma de Narayana: dez mil flechas e dez mil dardos em chama, cem mil espadas, clavas e machados, um milhão de rodas afiadas e pesadas bolas de ferro caíram sobre as tropas dos pandavas. Krishna e Arjuna desarmaram seu próprio exército, dizendo para que niguém pensasse em guerra. Todos deitaram-se no chão com o coração em paz. Com isso, a arma de Narayana fracassou e o filho de Drona se perguntou na noite: “Ah, será tudo mentira?”.

No campo de batalha, cadáveres decapitados tateavam em busca dos assassinos. Os guerreiros kurus já não viam mais sua juventude, nem mesmo a primavera daquele ano. mas Duryodhana ainda acreditava que o destino podia mudar a qualquer momento e se perguntava: “Por que deve haver restrições sobre quem quer que seja? Por que não se há de ser livre para fazer o que se quer?”.


No 4º dia

Os deuses chegaram para observar a batalha.

O guerreiro Karna, que lutava pelos kurus, cortou a corda do arco de Arjuna e lançou o dardo de Indra contra a cabeça dele. Krishna fincou o pé no chão. A quadriga de Arjuna afundou na Terra. O dardo atingiu a coroa de Arjuna, partindo-a. Arjuna lançou uma flecha contra Karna, que caiu com a cabeça decepada. Jamais considerou que a arma de Indra pudesse falhar. Por isso, não se protegeu.

Duryodhana chorou a perda do amigo e se lembrou do jogo de dados e de Draupadi. “Ela jamais me perdoará”, pensou. Yudhishthira se perguntou olhando para Karna: “Quem era ele?”.

Os deuses se foram. A vitória deixou os kurus para sempre.


No 5º dia

Quando o sangue selou o pó da Terra, as mulheres se tornaram viúvas. Sanjaya sentiu o perfume das Apsaras e lamentou não haver ninguém para matar em oferecimento a elas. O fascínio da guerra fez com que ele entrasse em transe. Todas as leis da guerra foram quebradas. Aurigas e animais eram mortos, guerreiros não mais anunciavam seus nomes, já nem mais sabiam se suas vítimas eram amigos ou inimigos. E essas eram questões muito ínfimas, para as quais não havia tempo. Sanjaya estava prestes a ser morto, mas Krishna libertou-o.

Duryodhana desapareceu na floresta. Ele é a alma da ilusão. Diz que os livros em tudo divergem, que os homens discutem e a nada chegam e que a verdade está oculta em cavernas. Krishna já não queria mais ver a vida sendo derramada. Duryodhana sofreu um golpe baixo de Bhima. Como um homem combateria seus cinco sentidos, Duryodhana combateu os pandavas. E por isso perdeu.


Na aurora do 6º dia

Enquanto os guerreiros dos exércitos dos pandavas dormiam, o filho de Drona entrou nas tendas, esganando e estrangulando os inimigos com as próprias mãos, e depois com a espada. “Quem vive ainda?”. Houve silêncio antes e depois do filho de Drona fazer a sua pergunta.

As últimas palavras de Duryodhana foram para o filho de Drona: “Assassinou inocentes e deixou meus inimigos vivos. Basta. Eu quase venci”. Duryodhana morreu ao amanhecer. E Sanjaya perdeu sua visão celestial.



4) O Mahabharata – No entremeio

Enquanto Brahma dorme...
em seu sonho de Vida

No entremeio o poeta Vyasa contou a Yudhishthira a história da princesa que ia, ia, sempre ia à procura de seu amor perdido, o rei. Até que um asceta disse para a exausta princesa ir para casa, pois ela nunca acharia seu amor daquela maneira. Quando o rei e a princesa se reencontraram, o passado tornou-se uma noite escura finalmente iluminada por uma lua azulada. Vyasa disse que essa antiga história é um veneno mortífero para o mal e a desventura. Disse ainda que, quando organizara o Veda em seu tempo livre, o livro sagrado dizia que os trapaceiros podem ser destruídos pela trapaça, sem que a honra de quem assim os destrói se turve.

No entremeio Bhima deixou seus irmãos e foi em busca da morada do lótus de mil pétalas a fim de pegar uma flor para Draupadi. No caminho encontrou seu irmão Hanuman. Ambos são filhos do Vento.

O Universo tornou-se água
...

As águas escuras, então,
permaneceram quietas e silentes,
esperando, e nada tocando.
Que forma haverei de assumir
para salvar a Terra deste dilúvio?


No entremeio Yudhishthira disse à montanha: “Possamos nós retornar”. E o vento soprou-lhe: “O Mundo é amplo! O Mundo é enorme!”. Era o 12º ano. Duryodhana conversava às gargalhadas com seu amigo Karna enquanto seu eu sustinha os fios de seu corpo, sustinha lealdade e pesar, vergonha e ambição, amor e energia e desejo e amizade, e tudo o mais – os cem mil fios brancos e negros entretecidos da vida. Seu corpo foi feito por Kalee: a parte superior, de diamante indestrutível; a metade inferior, de flores de montanha.


E arrancou fora sua alma, em ente não maior que um polegar


No entremeio Vyasa contou à Draupadi a história de Savitri. Depois de depositar gentilmente a cabeça de seu amado Satyavan na Terra, Savitri quis ainda caminhar sete passos ao lado de Yama. O deus da morte olhou para ela e ofereceu-lhe uma dádiva, desde que não fosse a vida de Satyavan. Yama, aquele que sempre tira, viu como era bom dar. Caminharam até um riacho. Com as próprias mãos, Yama, de imóveis olhos escuros, deu um pouco de água para Savitri beber e disse: “Não é difícil dar. Quando a vida é finda e tudo precisa ser entregue, dar não é difícil. Durante a vida existe dor, mas nenhuma na morte. Ninguém me escapa. Eu já vi a todos. E, contudo... esta água não é mais límpida que seu coração. Você busca o que almeja, você escolhe e a questão se encerra; não deseja ser nenhuma outra pessoa. Há muito que não vejo isso. Faça-me outro pedido, tudo menos a vida de Satyavan”. Yama suspirou, seus olhos fixos em Savitri: “Eu, mais do que ninguém sei o que são a verdade e a justiça. Sei que todo o passado e todo o futuro são mantidos coesos pela verdade. O perigo dela foge e se esquiva. Quanto vale sua vida sem Satyavan?”. “Nada”, disse Savitri. Yama pediu metade dos dias de Savitri para que ele pudesse dá-los a Satyavan. Savitri não quis saber quantos dias lhe restaram. Com seu amor, ela transformou a desgraça em alegria. Como Draupadi fazia. Deixando-se amar pelos Pandavas, alegrava até mesmo o exílio.

No entremeio ouviu-se a música mais maravilhosa de todo o mundo, com sinos para Draupadi dançar, a flauta de Krishna e um duplo tambor para Arjuna.

No entremeio Krishna ainda sorria, mas havia lágrimas em seus olhos. Terminado o exílio, Duryodhana não quis devolver metade do reino para os Pandavas. Krishna disse a Duryodhana que a paz não era difícil: “Depende apenas de você e de mim”. Faltavam sete dias para o início da guerra na planície dos kurus.




3) O Mahabharata – No princípio


Eis que nasceu o mundo maravilhoso,
Num instante ele morre,
E num sopro se refaz.

Pela lentidão de nosso olho
E a rapidez da mão de Deus,
Nós acreditamos no mundo.


No princípio houve o amor. Amaldiçoado o que torna o amor inútil e bendito o que ama sem nunca ter visto. Mas, na história de guerreiros, até o deus do amor apresenta-se armado. Kama carrega o arco mais poderoso do mundo. Feito de cana-de-açúcar, sua corda é uma fileira de abelhas e suas flechas têm pontas de flor. Houve o amor de Ganga, a deusa do rio, pelo rei Bharata Santanu; houve o amor de Gandhari pelo rei cego Dhritarashtra; houve o amor de Pandu por Kunti, mãe de Karna, Arjuna, Bhima e Yudhishthira; houve o amor de Pandu por Madri, mãe de Nakula e Sahadeva; houve o amor de Draupadi, a nascida do fogo de Shiva, pelos seus cinco maridos Pandavas. Houve muitos outros amores. Talvez, em algum aspecto, o próprio Duryodhana tenha amado Draupadi. 

No princípio houve as armas. Foi ensinado a cada guerreiro o que eles podiam aprender. Ao melhor deles, revelaram-se as armas. Arjuna, o príncipe argênteo, permanecia com seu arco tão estirado que formava um círculo. Os olhos do melhor arqueiro de todo o mundo só viam o alvo, nada mais podiam descrever. Prometeu ao seu instrutor que sempre lutaria para vencer. O deus do fogo Agni entregou à Arjuna o arco Gandiva, duas aljavas de flechas que jamais se esgotavam e uma carruagem onde havia um disco de ferro para Krishna. Bhima, o de olhos cinzentos, arrojava uma pesada clava octogonal. Yudhishthira, o de olhos dourados, era o melhor auriga. Sahadeva, o que sabe o que é verdadeiro, e Nakula, o que tudo descobre através da amizade, eram os melhores espadachins.




No princípio houve a amizade entre Krishna e Arjuna. Narayana conhecera Nara há muito tempo, às margens de uma água que era leite. Arjuna lembrou-se da alta árvore de Narayana, mas a lembrança esvaeceu-se. Krishna sorriu e abraçou Arjuna. Todos os deuses vieram ver os dois – a alma de toda a vida e seu amigo de outrora. Indra, o senhor dos deuses, reconheceu que ninguém pode lutar contra eles dois juntos. Os deuses sumiram. Krishna riu: “Bharata, ESTE é o mundo. Não há nenhum outro!”. Não existe ninguém que possa compreender a diferença entre estes dois amigos.

No princípio houve a construção do palácio dos pandavas. Maya, o que trouxe para Arjuna a trombeta de búzio Devadatta, manteve-se oculto e invisível até terminar a construção. Sobre mil colunas de ouro, um edifício mágico de mármore e pérolas. Arjuna quis saber se o palácio era uma ilusão. Maya, o construtor, disse que não sabia. Krishna riu.

No princípio houve o desafio do jogo de dados no qual as naturezas das personagens se revelaram. A de Arjuna era falar claramente. A de Yudhishthira era não poder recusar um desafio. Ele não tinha medo: sucesso ou desventura viriam, jogando ou não. Duryodhana era o que era e seguia a sua própria natureza. Somente a insatisfação o conduzia à felicidade. Yudhishthira perdeu tudo que tinha para Duryodhana e os kurus. Perdeu o reino, os irmãos, perdeu a si mesmo e perdeu Draupadi. Foi quando ela pensou em Krishna. Antes que o pensamento estivesse plenamente formado, Krishna foi até Draupadi, que teve suas vestes arrancadas. Mas ela trajava outra por baixo. Esta também foi arrancada. Mas Draupadi trajava outra por baixo. Trinta mantos finos e coloridos espalharam-se pelo chão – eles nunca veriam Draupadi. O rei cego libertou Draupadi e seus maridos. Jogou-se o último lance. O perdedor seria banido para a floresta, obrigado a passar 12 anos em exílio. O ganhador ficaria com todo o reino, devolvendo a metade para o perdedor quando o exílio terminasse.

No princípio houve o exílio. Vidura descreveu a partida dos pandavas e de Draupadi para o rei cego. Arjuna ia por último, lançando docemente grãos de areia com as duas mãos, como haveria de lançar flechas na batalha. E porque era a primeira no coração de todos, Draupadi, linda como a lua cheia, caminhava à frente. Chorava e cobria o rosto com suas mãos de lótus. Lakshmi havia sido insultada em pessoa.

No princípio houve o consolo de Krishna: “Princesa Draupadi, permaneceremos na roda da vida que gira e gira. Agora somos reis, logo passamos uma existência na crista de uma folha de relva. Mas vivemos sempre. Nada pode deter a roda. Quando lhe sobrevém uma felicidade, você não hesita em acreditar que ela seja real? Então, não aceite o infortúnio sem pô-lo à prova. Nada sabemos; ele talvez desapareça, talvez nem seja verdadeiro”.




Fonte da imagem: circunferência e círculo


O tremor

Quando a Terra volta a escrever seus profundos versos, um vento que não sopra derruba asas de pedra no chão. Quando a Terra abre seus profundos versos, ela nos une ainda mais. Os versos da Terra só destrõem, só engolem o que já é dela mesma.

Recitamos um trecho do Ramayana, ilustrando-o com uma imagem da ave Garuda antes do terremoto deste nosso outono:


Indra esteve escondido perto da Terra. Atirou um raio e atingiu o peito de Garuda. Com esse golpe, todo o conhecimento veio a Garuda. Ele ficou sabendo tudo o que já existira, tudo o que existia e tudo o que viria a existir; conheceu-o num instante.





Ora, em sinal de respeito pelos dias passados, quando aquele raio insuportável o atingiu, Garuda deixou cair uma pena. A pena de ouro revoluteou no ar, do tamanho de um escudo de guerra.


O Ramayana – William Buck


1) O nosso Mahabharata




O Mahabharata é a grande história da guerra entre os Kurus e os Pandavas, ambos descendentes da dinastia Bharata. A batalha se dá no Kurukshetra, o campo dos kurus. Encontramos nas Línguas do mundo de Berlitz a informação de que a Índia se chama Bharat em hindi. E na Aventura das línguas de Störig encontramos que bhar é uma raiz que quer dizer trazer. Se conjugarmos o verbo bharani no presente do indicativo, teremos bharami, bharasi, bharati, bharamas, bharata (nós trazemos), bharanti. Inspirações linguísticas para tentarmos compreender o significado da maha (grande) narrativa que vamos tesselar.

Conta-se que o poeta Vyasa compôs os cem mil versos da epopeia em sua mente e que Ganesha, o deus dos ladrões e dos escritores, o escreveu. O poeta é filho do menestrel errante Parashara e de Satyavati, encontrada nas entranhas de uma mãe-peixe no rio Yamuna. Vyasa contou o Mahabharata para Vaisampayana, que o contou a Sauti, a Astika e ao próprio Vyasa. Sauti, por sua vez, o contou a Saunaka.

Lemos em Nossos Estudos Poéticos a história dos narradores Vaisampayana e Saunaka contada em prosa por William Buck e traduzida por Carlos Afonso Malferrari. Buck refere-se ao livro que lemos como o seu Mahabharata.

Existem inúmeras versões do Mahabharata, solvidas em interpolações, coaguladas em edições, vertidas em várias línguas. O nosso Mahabharata será condensado em sete posts e dissolvido em diversos links. As postagens procuram seguir a divisão do próprio livro de Buck:

1) O nosso Mahabharata
2) Prefácios e introdução ao Mahabharata
3) O Mahabharata – No princípio
4) O Mahabharata – No entremeio
5) O Mahabharata – No entremeio, as perguntas e as respostas
6) O Mahabharata – No entremeio, a guerra
7) No fim

Quem ouve o Mahabharata e o compreende, mesmo que só uma parte dele, se liberta das prisões que construiu para si mesmo com suas obras boas e más. O Mahabharata tem o poder da vitória! 




Ruínas

Saudações à queda. Saudações às folhas caídas, às árvores caídas, às torres caídas, aos castelos caídos, aos sonhos caídos, aos homens caídos. Saudações às ruínas, ao ideal por trás das ruínas. Saudações aos frutos, à colheita dos frutos. Saudações ao equilíbrio.

No espanhol, balbuceo. No hebraico, bilbel – confusão. No aramaico, Babilu – Portão de Deus – o local que os gregos denominavam Babilônia, onde se supõe ter sido erguida a Torre de Babel. Referência à linguagem sagrada, a torre nos fala de uma língua comum a todas as pessoas através dos tempos. A destruição da torre nos dá uma imagem da perda dessa linguagem. Já não nos entendemos, não falamos a mesma língua. Entre nós, já não há um mínimo de consenso. Cada um pensando somente em si mesmo e a considerar-se um Absoluto.

O povo cholula no México conta que a Pirâmide de Cholula foi erguida para servir de abrigo contra um futuro dilúvio. Mas uma confusão de línguas dispersou os construtores. Diz um trecho do Popol Vuh, um registro dos maias: “Aqui as línguas das tribos mudaram – sua fala ficou diferente. Tudo que ouviam e compreendiam ao partir de Tulán tornou-se diferente. [...] Nossa língua era uma quando partimos de Tulán. Ai! esquecemos nossa fala [...]”.

A queda da torre e a destruição da pirâmide simbolizam a mudança da unidade para a variedade. Uma mudança natural, que não pode deixar de ser. A realização dessas obras, incluindo o plano, a construção, a queda e a reconstrução, forma uma alegoria dos caminhos da evolução humana e dos seus frutos sobre a nossa vida e a nossa consciência. Se o outono nos fala da queda natural das folhas, necessária à renovação, o equinócio nos fala do equilíbrio que mantém de pé o que é sempre mantido.

Em nosso exercício de colagem, a Babel cai sobre a terra fazendo com que as aves levantem voo para o céu. As aves também têm a sua linguagem: a linguagem do canto, que é também a linguagem da poesia. Uma só linguagem. Com este exercício, ilustramos um poema da nossa língua portuguesa:




Ruínas

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.


Florbela Espanca em Livro se Soror Saudade (1923)




Quem somos nós: as máscaras




Tudo isso nos afeta a todos, mas os efeitos são mais pronunciados nas pessoas colocadas em posição de exercer em grau extraordinário o poder político, mental, econômico ou de qualquer outra espécie. A corrupção da mente e da moral que geralmente segue a posse e o uso do poder é um fenômeno muito conhecido, que vemos por toda a parte ao nosso redor. Essa corrupção está se tornando mais e mais difundida, proeminente e desmoralizante em seus efeitos, porque o desenvolvimento das instituições socialistas e democráticas dá a um grande número de pessoas a oportunidade de alcançar o poder e usá-lo para seus propósitos egoístas. Essa conquista do poder utiliza em geral a máscara do esforço para melhorar as condições econômicas, sociais e políticas dos outros, conseguindo sucesso em enganar a estes. Mas aqueles que têm algum senso de discriminação e não estão tirando benefícios pessoais, direta ou indiretamente, podem ver através dos artifícios empregados para disfarçar a natureza egoísta, e às vezes impudente, dessas ambições e atividades.

Essa tendência está se tornando mais e mais pronunciada e assumindo proporções alarmantes. Os que perseguem o poder, que conseguem alcançá-lo e dele auferem benefícios, são tão numerosos que estas coisas são tidas como óbvias e consideradas exercícios legítimo de nossa liberdade e direitos como seres humanos.
  

I. K. Taimni - Pratyabhijna Hridayam de Ksemaraja


Calçadas musicais



A onda que invade todos os verões é o Carnaval. Uma onda de ansiedade atinge as pessoas nos dias que antecedem o feriado. E os blocos são uma longa série de ondas de euforia a tomar conta das ruas.

Aproveitamos, então, para falar de uma rua muito especial do carnavalesco bairro de Vila Isabel: o Boulevard 28 de setembro. A rua recebeu esse nome por ser a data em que a princesa Isabel assinou a lei do ventre livre, tornando livres filhos de escravos nascidos a partir daquele dia. O mosaico acima é parte das calçadas do Boulevard. Durante o carnaval, um colorido mosaico se sobrepõe ao preto e branco dessas ondas musicais – são os confetes dos foliões que por ali desfilam.

Em comemoração aos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena idealizou a obra – as Calçadas Musicais. Nelas encontramos partituras e cifras de importantes canções da música popular brasileira. Foi o músico Almirante, morador da Vila, quem selecionou o repertório a ser tesselado. O maestro Carioca simplificou as partituras. O projeto decorativo ficou por conta do arquiteto Hugo Ribeiro. E os anônimos calceteiros concretizaram a ideia com as conhecidas pedras portuguesas.

Símbolos do bairro, as Calçadas Musicais tesselam as seguintes canções:

¿!  Cidade Maravilhosa - André Filho (na Praça Maracanã)
¿!  Jura - Sinhô
¿!  Renascer das cinzas - Martinho da Vila (na Praça Barão de Drummond)

Vila Isabel é o berço dos compositores Noel Rosa, João de Barro e Martinho da Vila e é também o berço da escola de samba Unidos de Vila Isabel. Em 1988, ano da promulgação da nossa atual constituição, a escola foi campeã do carnaval com o enredo Kizomba – Festa da Raça. O enredo foi idealizado por Martinho da Vila, tendo Rodolpho de Souza, Jonas e Luiz Carlos da Vila como compositores do samba-enredo. “Anastácia não se deixou escravizar”, “O pagode é o partido popular” e “Esta kizomba é nossa constituição” são partes da letra do samba.

Os versos de outros carnavais são cantarolados nos blocos de rua ainda hoje. Uma onda de nostalgia também invade a festa das raças. 


Fonte da imagem: Rio eu te amo


Jogos Vorazes – O tordo e a distopia



Foi no ano passado, na semana do Natal. Era noite de segunda-feira. O shopping estava cheio, havia fila na porta de uma loja de chinelos, as pessoas carregavam sacolas e bolsas esbarrando umas nas outras. Uma das consumidoras reclamava de ter sido roubada, de ter ficado sem dinheiro, cartão, documento, chave... O cinema estava mais vazio que de costume. Foi quando assistimos à primeira parte de Jogos Vorazes – A Esperança, adaptação para o cinema do livro de Suzanne Collins.


Quem nos apresentou ao livro foi a mesma menina que nos mostrou Lições de Cousas. Na época, achamos interessante o fato de a ideia da autora ter surgido enquanto ela zapeava canais de tevê. O reality show em uma emissora e as cenas da Guerra do Iraque em outra formaram a téssera que deu origem à trilogia Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança. O link foi o mito de Teseu. Anos depois, uma amiga da tal menina sugeriu que fôssemos ver os filmes.


Vimos que os Jogos Vorazes (Hunger Games), realizados pela Capital de Panem, são um reality show no qual jovens tributos lutam até que somente um sobreviva em uma alegórica arena. Cada distrito de Panem é representado por um casal de tributos. A maioria dos participantes é escolhida por sorteio em um evento chamado Colheita. Nossas tésseras aparecem no livro para nomear o pequeno suprimento anual de grãos e óleo fornecido para uma pessoa em troca de que seu nome seja novamente colocado na Colheita. A fim de poupar a irmã sorteada, uma jovem apresenta-se como voluntária – a primeira voluntária do distrito 12. Trata-se de Katniss, a personagem principal. Sempre supreendendo os idealizadores, os patrocinadores e a audiência dos jogos, ela é a vencedora, juntamente com seu par. Quebrando as regras, a arqueira vai se transformando em símbolo. No início, da própria Capital. Mas, ao longo da trama, Katniss acaba se revelando o símbolo de uma guerra de resistência ao poder da Capital.


Em entrevista, Suzanne Collins diz que 1984 e Admirável Mundo Novo estão entre as influências diretas da trilogia por causa dos aspectos distópicos. Em discurso no parlamento britânico, John Stuart Mill foi o primeiro a fazer um uso conhecido do termo distopia: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável". Considerando a formação da palavra, utopia significa lugar nenhum e distopia, lugar ruim. As ficções distópicas estão intimamente linkadas com as sociedades em que elas são criadas. Vemos em Jogos Vorazes não só fome, mas medo, crueldade e tirania de governo, espetacularização e glamorização da violência, propaganda de guerra, juventude competitiva e uso de tecnologia a serviço de tudo isso. Seguem alguns exemplos de distopia na literatura e no cinema:

¿!  Totalitarista: 1984 (1949), V de Vingança (2005)
¿!  Corporativista: Robocop (1987), Clube da Luta (1999), Rollerball (1975)
¿!  Tecnológica: Blade Runner (1982), Divergente (trilogia), Admirável Mundo Novo
¿!  Ambiental: Nausicaä do Vale do Vento (1984)
¿!  Generalizada: La Belle Verte (1994)
¿!  Cybernética: Minority Report (2002), Matrix (1999)
¿!  Cyberpunk: Aachi & Ssipak, Akira (1988), Avalon, Blade Runner, eXistenZ, Ghost In The Shell (1994), Johnny Mnemonic, Looper, Metropolis, Natural City, Nirvana, Pandorum, Renaissance, Repo Men, RoboCop, Sleep Dealer, O Exterminador do Futuro, Videodrome, Matrix, Surrogates, WALL-E
¿!  Consumista: Clube da Luta
¿!  Pandêmica: 12 Macacos (1995), Filhos da Esperança (2006), Ensaio sobre acegueira (2008)
¿!  Moral: Beleza Americana (1999), Cisne Negro (2010)
¿!  Religiosa: O livro de Eli (2010)
¿!  Privacidade: Tokyo! (2008)
¿!  Misógena: A Decadência de uma Espécie (1990)
¿!  Militar: Equilibrium
¿!  Criminosa: A Laranja Mecânica (1971), Fuga de Nova York
¿!  Superpopulação: Battle Royale
¿!  Pós-apocalíptica: Mad Max (1979), O Planeta dos Macacos (1968), A Estrada
¿!  Conspiração: Divergente (trilogia)
¿!  Financeira: O Preço do Amanhã
¿!  Alienígena: Guerra dos Mundos (1953)
¿!  Cômica: Brazil (1985), Idiocracy (2006)


O que nos interessou realmente no eufemístico Jogos Vorazes – A Esperança (título traduzido para o Brasil) ou no denotativo Jogos da Fome – A Revolta (título do filme em Portugal) foi o Mockingjay. Jabberjays são pássaros criados artificialmente pela Capital para memorizar e repetir conversas humanas. A Capital os abandonou na natureza quando os rebeldes descobriram a estratégia. Mockingbird é o verdadeiro tordo, pássaro típico dos EUA cujo canto é a combinação do canto de outras aves. Mockingjay (também traduzido como Tordo, daí a confusão) é o pássaro originário do cruzamento dos machos Jabberjays com as fêmeas Mockingbirds. Os Mockingjays são capazes de reproduzir as melodias humanas. No início, o pássaro é apenas um broche. Depois, um amuleto. Transforma-se numa roupa, num gesto, numa canção, numa armadura, num símbolo. Consciente e espontaneamente construído ao mesmo tempo, corporifica-se na personagem Katniss, enquanto se enriquece de significados. Inspira e encoraja os personagens da ficção para a revolução; dá liberdade de criação à autora; reforça o marketing do filme. Teria o tordo a função de identificar a localização simbólica da distópica Panem?



Fonte das imagens: Sobresaga


Mestres calceteiros


Mar largo - estrutura geométrica do calçamento em ondas (croqui José Tabacow)


A arte pública do mosaico de pedras portuguesas, formado pela justaposição de pedras de formato irregular, é uma tradição dos países lusófonos derivada possivelmente do mosaico romano. Os pavimentos calcetados de pedras de calcário branco e preto datam de 1500 e foram muito empregados no paisagismo de meados do século XIX. Uma das técnicas utilizadas na elaboração desse mosaico é o mar largo. Um exemplo é o calçadão de Copacabana, projetado no início do século XX por Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow.

Hoje muitos desses mosaicos vêm sendo substituídos por cimento. A justificativa para a destruição dos mosaicos é politicamente correta – falta de acessibilidade para deficientes físicos, piso escorregadio para idosos. Já outros mosaicos vêm sendo substituídos por asfalto. A justificativa é a mobilidade urbana – pistas mais largas para carros e abertura de ciclovias. Tudo se encaixa. Mas não sabemos para onde vão as pedras retiradas.

Dizem os anônimos mestres calceteiros, no entanto, que a destruição do mosaico se deve à incompetência de nossa época: aplicação em locais indevidos, situados em áreas inclinadas, reparos realizados por mão-de-obra não qualificada, buracos por causa do mau encaixe das pedras. Cimento e asfalto são as vantagens do imediatismo e do simplismo e do baixo custo.

A lição que podemos aprender com os mestres calceteiros é a seguinte: a arte identifica sua época e seu espaço até mesmo quando abandonada, desprezada e destruída. E reflete as qualidades que desenvolvemos. A calcetaria só é bela e segura quando bem feita.

Todos os anos, milhões de pessoas se reúnem no mar largo de Copacabana para celebrar a chegada do ano novo. Jogam flores no mar, acendem velas, abrem garrafas de espumante, brindam, fazem pedidos, votos e promessas. Celebremos, então, o nosso tempo e o nosso espaço, refletindo sobre as qualidades que vamos desenvolver ao longo de 2015. As qualidades que vão nos identificar.

Fonte da imagem: Vitruvius


Verão



Saudações a tudo que se manifesta por ondas.

Saudações aos que fiam, aos que tecem, aos que cantam e aos que nadam como as Nereidas, as personificações das ondas. Saudações aos que apostam na mega da virada, aos que jogam na bolsa, aos que trabalham com moda, aos que não têm emprego fixo, aos que não têm salário fixo, aos que surfam, aos que vivem seus altos e baixos, cristas e vales, aos que vivem entre o nascimento e a morte.

Saudações aos contrastes, ao preto e branco. Saudações aos que mergulham nas escuras águas profundas e aos que flutuam na clara espuma da superfície.

Saudações à passividade, aos que se deixam levar ao sabor das ondas.

Saudações aos que conhecem a força que ergue as ondas com violência. Aos que conhecem a força da inércia.

Saudações às ondas do verão, às ondas do mar, às ondas de calor, às ondas do calçadão. Conheçamos a frequência do que se move periodicamente.

Saudações à fonte de tudo que se manifesta por ondas. 
Equinócio de outono