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Nunca houve golpe no Brasil dos principiantes

Peter Kellemen chegou ao Brasil na década de 1960. No aeroporto, foi apresentado ao jeitinho brasileiro por um cônsul que lhe sugeriu declarar a sua profissão como engenheiro agrônomo. Acontece que Kellemen era médico.

E para que isso? “Meu filho, você acha que está fazendo uma declaração falsa ou, digamos, uma afirmação sem fundamento? Evitamos somente que perca seu tempo e possa embarcar logo. Seu visto ficará pronto à tarde”. Foram essas as palavras do cônsul. Na época, havia um incentivo das autoridades brasileiras para o ingresso de agrônomos no país. A declaração de Kellemen facilitaria o trabalho dos funcionários do aeroporto.

No Brasil, o médico engenheiro agrônomo húngaro exerceu uma outra profissão – a de escritor. É dele a autoria do livro Brasil para principiantes. Título corrigido mais tarde pelo nosso maestro Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

O agora escritor mudou ainda mais uma vez de profissão, tendo talvez encontrado sua verdadeira vocação. Kellemen tornou-se um golpista. Ele foi o idealizador da fraude do Carnê Fartura, veiculado pelo Programa do Chacrinha na TV Globo. Era o golpe da realização do sonho da riqueza fácil. Quando Kellemen foi preso, depois de ter sido desmascarado, ele subornou os policiais e fugiu para o Paraguai. Nunca mais foi visto.

Essa história toda é para introduzir uma pequena cronologia de não golpes do Brasil. E para ressaltar que concordamos com Tom Jobim. Não é para principiantes. Talvez essa cronologia seja atualizada no próximo dia 15, reforçando o fato de que sempre damos um jeitinho de não dizer golpe:

¿!  22 de abril de 1500 – Descobrimento do Brasil
¿!  15 de novembro de 1889 – Proclamação da República
¿!  1930 - 1934 – Governo Provisório
¿!  10 de novembro de 1937 – Estado Novo
¿!  1º de abril de 1964 – Revolução de 1964
¿!  1º de outubro de 1992 – instauração do processo de Impeachment
¿!  15 de março de 2015 – (Que nome terá?)


Jogos Vorazes – O tordo e a distopia



Foi no ano passado, na semana do Natal. Era noite de segunda-feira. O shopping estava cheio, havia fila na porta de uma loja de chinelos, as pessoas carregavam sacolas e bolsas esbarrando umas nas outras. Uma das consumidoras reclamava de ter sido roubada, de ter ficado sem dinheiro, cartão, documento, chave... O cinema estava mais vazio que de costume. Foi quando assistimos à primeira parte de Jogos Vorazes – A Esperança, adaptação para o cinema do livro de Suzanne Collins.


Quem nos apresentou ao livro foi a mesma menina que nos mostrou Lições de Cousas. Na época, achamos interessante o fato de a ideia da autora ter surgido enquanto ela zapeava canais de tevê. O reality show em uma emissora e as cenas da Guerra do Iraque em outra formaram a téssera que deu origem à trilogia Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança. O link foi o mito de Teseu. Anos depois, uma amiga da tal menina sugeriu que fôssemos ver os filmes.


Vimos que os Jogos Vorazes (Hunger Games), realizados pela Capital de Panem, são um reality show no qual jovens tributos lutam até que somente um sobreviva em uma alegórica arena. Cada distrito de Panem é representado por um casal de tributos. A maioria dos participantes é escolhida por sorteio em um evento chamado Colheita. Nossas tésseras aparecem no livro para nomear o pequeno suprimento anual de grãos e óleo fornecido para uma pessoa em troca de que seu nome seja novamente colocado na Colheita. A fim de poupar a irmã sorteada, uma jovem apresenta-se como voluntária – a primeira voluntária do distrito 12. Trata-se de Katniss, a personagem principal. Sempre supreendendo os idealizadores, os patrocinadores e a audiência dos jogos, ela é a vencedora, juntamente com seu par. Quebrando as regras, a arqueira vai se transformando em símbolo. No início, da própria Capital. Mas, ao longo da trama, Katniss acaba se revelando o símbolo de uma guerra de resistência ao poder da Capital.


Em entrevista, Suzanne Collins diz que 1984 e Admirável Mundo Novo estão entre as influências diretas da trilogia por causa dos aspectos distópicos. Em discurso no parlamento britânico, John Stuart Mill foi o primeiro a fazer um uso conhecido do termo distopia: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável". Considerando a formação da palavra, utopia significa lugar nenhum e distopia, lugar ruim. As ficções distópicas estão intimamente linkadas com as sociedades em que elas são criadas. Vemos em Jogos Vorazes não só fome, mas medo, crueldade e tirania de governo, espetacularização e glamorização da violência, propaganda de guerra, juventude competitiva e uso de tecnologia a serviço de tudo isso. Seguem alguns exemplos de distopia na literatura e no cinema:

¿!  Totalitarista: 1984 (1949), V de Vingança (2005)
¿!  Corporativista: Robocop (1987), Clube da Luta (1999), Rollerball (1975)
¿!  Tecnológica: Blade Runner (1982), Divergente (trilogia), Admirável Mundo Novo
¿!  Ambiental: Nausicaä do Vale do Vento (1984)
¿!  Generalizada: La Belle Verte (1994)
¿!  Cybernética: Minority Report (2002), Matrix (1999)
¿!  Cyberpunk: Aachi & Ssipak, Akira (1988), Avalon, Blade Runner, eXistenZ, Ghost In The Shell (1994), Johnny Mnemonic, Looper, Metropolis, Natural City, Nirvana, Pandorum, Renaissance, Repo Men, RoboCop, Sleep Dealer, O Exterminador do Futuro, Videodrome, Matrix, Surrogates, WALL-E
¿!  Consumista: Clube da Luta
¿!  Pandêmica: 12 Macacos (1995), Filhos da Esperança (2006), Ensaio sobre acegueira (2008)
¿!  Moral: Beleza Americana (1999), Cisne Negro (2010)
¿!  Religiosa: O livro de Eli (2010)
¿!  Privacidade: Tokyo! (2008)
¿!  Misógena: A Decadência de uma Espécie (1990)
¿!  Militar: Equilibrium
¿!  Criminosa: A Laranja Mecânica (1971), Fuga de Nova York
¿!  Superpopulação: Battle Royale
¿!  Pós-apocalíptica: Mad Max (1979), O Planeta dos Macacos (1968), A Estrada
¿!  Conspiração: Divergente (trilogia)
¿!  Financeira: O Preço do Amanhã
¿!  Alienígena: Guerra dos Mundos (1953)
¿!  Cômica: Brazil (1985), Idiocracy (2006)


O que nos interessou realmente no eufemístico Jogos Vorazes – A Esperança (título traduzido para o Brasil) ou no denotativo Jogos da Fome – A Revolta (título do filme em Portugal) foi o Mockingjay. Jabberjays são pássaros criados artificialmente pela Capital para memorizar e repetir conversas humanas. A Capital os abandonou na natureza quando os rebeldes descobriram a estratégia. Mockingbird é o verdadeiro tordo, pássaro típico dos EUA cujo canto é a combinação do canto de outras aves. Mockingjay (também traduzido como Tordo, daí a confusão) é o pássaro originário do cruzamento dos machos Jabberjays com as fêmeas Mockingbirds. Os Mockingjays são capazes de reproduzir as melodias humanas. No início, o pássaro é apenas um broche. Depois, um amuleto. Transforma-se numa roupa, num gesto, numa canção, numa armadura, num símbolo. Consciente e espontaneamente construído ao mesmo tempo, corporifica-se na personagem Katniss, enquanto se enriquece de significados. Inspira e encoraja os personagens da ficção para a revolução; dá liberdade de criação à autora; reforça o marketing do filme. Teria o tordo a função de identificar a localização simbólica da distópica Panem?



Fonte das imagens: Sobresaga


Verão



Saudações a tudo que se manifesta por ondas.

Saudações aos que fiam, aos que tecem, aos que cantam e aos que nadam como as Nereidas, as personificações das ondas. Saudações aos que apostam na mega da virada, aos que jogam na bolsa, aos que trabalham com moda, aos que não têm emprego fixo, aos que não têm salário fixo, aos que surfam, aos que vivem seus altos e baixos, cristas e vales, aos que vivem entre o nascimento e a morte.

Saudações aos contrastes, ao preto e branco. Saudações aos que mergulham nas escuras águas profundas e aos que flutuam na clara espuma da superfície.

Saudações à passividade, aos que se deixam levar ao sabor das ondas.

Saudações aos que conhecem a força que ergue as ondas com violência. Aos que conhecem a força da inércia.

Saudações às ondas do verão, às ondas do mar, às ondas de calor, às ondas do calçadão. Conheçamos a frequência do que se move periodicamente.

Saudações à fonte de tudo que se manifesta por ondas. 
Equinócio de outono



Deixando a Casa da Flôr




1. Se dá voltas a uma escultura,/ o corpo é que a envolve, livre;/ se penetra em qualquer pintura/ como janela que se abrisse;// se pode boiar numa música,/ nos pauís doentes de que consiste;/ se pode ir em fins de semana/ a romances que tenham o “habite-se”.//

2. Mas só a arquitetura é total,/ não virtual, ao corpo que a vive,/ ainda mais se essa arquitetura/ numa cidade se urbanize;//

Com os versos de João Cabral de Melo Neto nos despedimos da Casa da Flôr. Aproveitamos para agradecer ao sobrinho-neto de Seu Gabriel, que nos acompanhou durante a nossa visita, que contou histórias sobre a casa e que se despediu de nós recitando uma poesia. Retribuímos agora com os versos do Ferrageiro de Carmona. 

Explicaria o Ferrageiro que as flores de Seu Gabriel são “flores criadas numa outra língua,/ nada têm das flores de fôrma moldadas pela das campinas”. A Casa da Flôr não é feita de “[...] uma flor já sabida,/ mas do que pode até ser flor/ se flor parece a quem o diga”.

E nós, blogueiros, explicaríamos ao Ferrageiro que não foi a força com que se trabalha o ferro forjado, material de grande resistência, que deu limites às flores de Seu Gabriel. As flores de Seu Gabriel são feitas de materiais de pouca resistência, que se quebram facilmente. Foi a força do pensamento que uniu os cacos, dando-lhes uma nova forma.

Nos posts de Nossos Estudos Poéticos, a arquitetura da Casa da Flôr tornou-se virtual. Em Nossos Estudos Poéticos, os mosaicos de Seu Gabriel tornaram-se tesselas de nosso mosaico. Que todas as tesselas venham a ser um mosaico. Que todos os fragmentos venham a ser tésseras. Que tudo floresça e, depois, volte a ser uma semente.


No jardim da Casa da Flôr




a rosa dos ventos, a rosa de ouro, a Rosa de Hiroshima, a Rosa Cândida, a rosa-cruz, a rosa mística, o lótus, a hortênsia, a anêmona, o narciso, o lírio, o girassol vítreo, a taça de vida, a chuva, o orvalho, a alma, o coração, o amor, uma roda, uma rosácea gótica, uma mandala, uma pedra de roseta, de a a ksha, do alfa ao ômega, de A a Z: um rosário


Luz queimada




Nas ruas, as casas e os prédios começam a ser enfeitados para as festas de fim de ano com os tradicionais pisca-piscas. Dentro da casa do artista, olhando para o alto: um mosaico de lâmpadas queimadas – como palavras que perdem seu significado, como símbolos que viram enfeites, como mundos que deixam de existir.


A flor da superfície


A Casa da Flôr ainda guarda os pertences de Seu Gabriel – um livro, uma bandeira do Brasil, fotos de família, a louça que aparece na foto. Vejam: há uma flor pintada sobre a superfície do bule. As flores existem no todo e nas partes. As flores existem profunda e superficialmente.


Ron English – Do Estúdio para a Rua


Tesselas de quadrinhos

O quadro é de Nossa Senhora. Os quadrinhos são da Mulher Maravilha. A obra é de Ron English.

Visitamos a exposição Do Estúdio para a Rua na Caixa Cultural RJ em 1º de novembro. Descobrimos 110 obras do padrinho da arte urbana, mais um elo da corrente formada por ... Picasso, Andy Warhol, Banksy, Shepard Fairy ...

O processo criativo do artista pode ser visto no documentário POPaganda: The Art and Crimes of Ron English, dirigido por Pedro Carvajal e exibido em uma das salas da mostra. Destacamos a metalinguística na apropriação de outdoors para se refletir sobre o consumo sem perder o humor típico da linguagem da publicidade.

De acordo com o curador Rafael Ferraz, Ron English reconfigura e ressignifica a iconografia pop. De acordo com o próprio Ron English, seu trabalho recontextualiza as imagens do consumismo pop na sua visão do que é a alma americana.

Mc Supersized, mascote da rede de phat food, reparte um hambúrguer na Santa Ceia com 12 personagens de animação, Huck Boy está crescendo assustadoramente, a chupeta tem uma bala de revólver, o cérebro é um útero, a lâmpada elétrica contém o cogumelo da bomba atômica, Abraham Obama é presidente dos EUA, o V de vitória é o V de violência no gesto de paz e amor formado por dois mísseis e o Smile revela o maxilar de uma caveira.

Em Nossos Estudos Poéticos, tudo tesselas de um colorido mosaico, quadrinhos em história.


Fonte da imagem: www.pinterest.com


Cachorro no quintal








Durante a visita à Casa da Flôr, fomos acompanhados pelo sobrinho-neto de Seu Gabriel. Ele nos disse que, às vezes, alguns estudantes fazem piquenique no quintal da casa. Contou também que Seu Gabriel gostava muito de cachorro, e mostrou o lugar onde havia sido enterrado seu bichinho de estimação – um túmulo cheio de pequenas pedras.



Entrando na Casa da Flôr


http://nossosestudospoeticos.blogspot.com.br/2014/11/cachorro-no-quintal.html




Senhores, eu fiz apenas um ramalhete de flores escolhidas: nele nada existe de meu, a não ser o laço que as prende – disse Montaigne. Rompei o cordão ou desatai o laço, como vos parecer melhor – HPB acrescentou.

Não rompemos, nem desatamos: damos ainda mais laços de links ao ramalhete de azulejo e louça encontrado no interior da Casa da Flôr.


Deus esteja na Casa da Flôr


http://nossosestudospoeticos.blogspot.com.br/2014/10/entrando-na-casa-da-flor.html


Depois de lida a placa oficial, que apresenta a Casa da Flôr como uma obra de arquitetura espontânea popular, lemos a mensagem gravada por Seu Gabriel em 10 de abril de 1899: Deus esteja nesta casa.

Diante do desejo do artista e em meio à união de tantos fragmentos, sentimos a presença divina, ou percebemos a unidade na diversidade, quando vemos uma casa se tornar uma não casa, se tornar uma flor, se tornar uma história, se tornar um templo...

Sim, uma casa se transforma em um templo quando é um espaço para a arte, quando é matéria para criação.


Algumas palavras antes de entrar na Casa da Flôr




“Esta casa não é uma casa... isto é uma história. É uma história porque foi feita de pensamento e sonho... uma casa feita de caco transformada em flor”. Essas são as palavras de Gabriel Joaquim dos Santos sobre a sua não casa, sobre a sua história, que não se resume apenas a fatos. A história deste artista tem pensamentos e sonhos, ligados talvez às leis verdadeiras e aos altos princípios. Essas palavras estão gravadas em uma placa na entrada da Casa da Flôr.

Chegamos à entrada da Casa da Flôr pegando um ônibus e pedindo ao trocador para que ele nos avisasse quando descer. Era um dia cinza e úmido. As palavras do trocador foram: “Mas não tem nada para ver na casa da flor”.

Depois de descer do ônibus, seguimos andando e, no caminho, tiramos a foto que ilustra este post. É a foto do muro de uma das casas na vizinhança da Casa da Flôr. Ela também tem cacos e flor. Mas não tem aquilo que une os dois elementos – a transformação.

As palavras de Gabriel Joaquim dos Santos estão gravadas em uma placa. E estão também gravadas em cada pétala tessela de sua histórica flor. Gravadas para aqueles que puderem ver a não casa.


Equinócio de Primavera




Flores de vidro, flores de caco, flores de concha, flores de ralo, flores de lâmpada, pedra, louça... flores e mais flores brotam de nossos estudos poéticos na Casa da Flôr. Nesta primavera, vamos transformar em tesselas a viagem que fizemos ao mosaico do salineiro Joaquim Gabriel dos Santos em São Pedro da Aldeia. Floresçamos!




Self-ie-ish ou uma guirlanda de narcisos para 2014

Foto que uma pessoa tirou de si mesma, normalmente com um smartphone ou webcam, e publicou em uma rede social é a definição do Dicionário Oxford para a palavra selfie. O termo foi tão usado em 2013 e em meios tão diversos, que o Dicionário Oxford o elegeu a palavra do ano. Selfie é o diminutivo de self. Self pode se referir tanto à natureza e às qualidades específicas de cada indivíduo, quanto aos seus próprios interesses, vantagens e prazeres.

Uma foto de Paul Martinka, na qual uma mulher fez uma selfie com um homem tentando cometer suicídio (sem conseguir) no plano de fundo, inspirou a criação de uma outra palavra: selfie-ish. A mulher se recusou a dizer o próprio nome. E a Revista O Globo de 15 de dezembro, ao tratar do assunto, evocou o mito de Narciso.

Há muitas versões para o mito de Narciso, mas podemos destacar três elementos que se repetem nas variações. A primeira é a impossibilidade do amor pelo outro. A segunda é a imagem formada de Narciso a partir da reflexão de si mesmo nas águas de uma fonte. A terceira, o nascimento de uma flor no local onde Narciso morre – a flor recebe o nome de narciso.

Em nossos estudos poéticos, é o símbolo narciso que evocamos. A flor como emblema da vaidade e do egocentrismo é apenas uma de suas significações. O nome Narciso – Nárkissos – vem de Narke, mesma etimologia de narcose. A flor narciso simboliza o entorpecimento pela morte. Ofereciam-se guirlandas de narcisos às Fúrias.

Refletir apenas sobre a queda de Narciso na água é ficar em um nível inferior de significação, de acordo com nosso Dicionário de Símbolos. Para nos refletirmos nas águas das palavras recitadas: “O mundo é um imenso Narciso empenhado em se pensar” (J. Gasquet). Para nos refletirmos na fonte das questões: “Onde se pensaria ele melhor senão nas suas imagens?” (G. Bachelard).

Para os poetas árabes, o narciso simboliza o homem de pé (devido à haste reta da flor), o servidor assíduo, o devoto que consegue consagrar-se ao serviço de Deus. Na Ásia, os narcisos são um símbolo da felicidade e são utilizados para expressar os votos do novo ano. 

Linkamos o fim do ciclo de 2013 com o início deste novo ciclo com a palavra selfie. Desejamos conhecer cada vez mais o significado das palavras. Não apenas do que queremos dizer com as palavras, mas do que as próprias palavras estão a nos dizer quando refletimos sobre elas. Desejamos conhecer cada vez mais o significado dos símbolos. Aprofundando-nos neles, possamos nos elevar pela linguagem. Lembrando que o nome que cada um de nós carrega é já uma palavra, um símbolo, uma imagem de nós mesmos. Um narcísico 2014 para nós, que a poesia é ela mesma a possibilidade do amor.


Solstício de verão


Gamboa Seasons - Summer Love 2010, de Beatriz Milhazes

As novas formas vieram! Cheias de luz.

Vimos esta obra na exposição Meu Bem no Paço Imperial do Rio de Janeiro.

Com a série Gamboa Seasons de Beatriz Milhazes na nossa série das estações do ano, desejamos um verão irradiante e ensolarado para todos.




Fonte da imagem: Escape into life


Equinócio de primavera

A Espera, de Picasso

Durante a primavera de 1901, este quadro foi pintado por Picasso.

Remete aos mosaicos. Aos mosaicos do nome e da técnica.

O título da obra é Pierreuse, a Mão sobre o Ombro, é também Margot e é também A Espera. Uma composição de nomes.

O fundo do quadro recria peças de um mosaico, seis anos antes do ponto de partida do Cubismo: Les Demoiselles d´Avignon. O mosaico foi a espera até que a semente do Pontilhismo florescesse por fim em cubo. Marcando uma nova primavera na arte pictórica.

Que venham novas flores e novas formas!




Fonte da imagem: Blogue Desesperando Godot


Gonzagão – A lenda


"Sabe supor"?  "Posso tentar"!... (diálogo do musical Gonzagão - A lenda)


Vamos supor que todo artista tenha uma téssera e que a téssera de Luiz Gonzaga seja composta por dois pássaros – Asa Branca e Assum Preto.

Assum Preto vive em meio à beleza, mas é cego. Asa Branca pode enxergar tudo, mas tudo que vê é seca, sede e solidão. De Assum Preto ouvimos o canto. De Asa Branca ouvimos o bater de asas.

Vamos supor agora que exista uma lenda que diga que uma téssera, quando cantada, desperta os próprios poderes do canto.

A poesia é o poder do canto. O canto é o sopro da criatura em resposta ao sopro do criador. O poeta adivinho, quando realiza sua função, expressa-se através do canto. Encontramos em línguas como o irlandês e o bretão a ligação da palavra canto com as palavras encantação e lição.

Vamos supor ainda que a lenda diga que uma téssera cantada, se ouvida, desperta os poderes do voo.

A poesia é o poder do voo. As asas simbolizam a desmaterialização, a leveza do peso abandonado. O poeta tem asas no momento em que está inspirado. Asas nunca são recebidas: são sempre conquistadas. Dizem os bramanas que aquele que compreende tem asas.

Vamos supor também que essa suposta lenda da téssera dos pássaros possa unir esse suposto voo e esse suposto canto.

O canto atrai o voo. Asa Branca voa em busca do canto de Assum Preto.

Vamos supor por fim que a verdade possa estar na lenda e na história ao mesmo tempo – Asa Branca e Assum Preto são um pássaro só.


Tentando supor a partir do musical Gonzagão – A lenda, de João Falcão, e de consultas ao Dicionário de Símbolos.


3108 – Dia do blogue




Vida rara aos blogues!


¿!

pequeníssimos nós - 1

não gosto muito de falar das costelas
as costelas do barco
as costelas me encafifam
como podem as costelas?
tão mais que o mugido da vaca
desnorteando as águas
o sal nelas

(Carla Diacov)

¿!

Mestres antigos

O amor que temos aos desconhecidos de quem aprendemos a gostar - os poetas, os cineastas, os músicos, os artistas, os professores das coisas vãs e fúteis que são a matéria da vida - tem uma natureza diferente do amor pela família próxima ou pela mulher que nos escolheu amar de volta. Mas nem por isso é um amor inferior ou menos importante. O que somos, o que nos constitui, tem tanto a ver com pessoas como com os objectos artísticos que nos deslumbram. Sentimos tanto a distância dos nossos mestres como das pessoas com quem vivemos os anos da nossa vida. Mais claro: amamos quem nos ama de volta mas também quem, criando, nos ensina a amar o mundo. E quando os mestres se vão, a dor é funda.

(Sérgio Lavos)

¿!

Segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quantas insónias/ precisas/ para construir/ uma noite em bra/nco?

(Heduardo Kiesse)

¿!

Origem da Pó dos Livros:

A ideia do nome da livraria Pó dos Livros surgiu-me quando estava a ler o livro "A Sombra do Vento", de Carlos Ruis Zafón. É um livro que, para além de muitas outras coisas, nos fala de um cemitério de livros esquecidos - livros cheios de pó. Este facto recordou-me uma pequena história passada comigo e com o meu pai durante a minha infância. O meu pai era um bibliófilo, comprava e lia compulsivamente. Um dia, pela tarde, em que mais uma vez chegava a casa com um saco cheio de livros, velhos e com pó, perguntei-lhe:

- Pai, porque é que compra sempre livros velhos e cheios de pó?
- Foi precisamente por terem pó que eu os comprei.
- Não entendi...
- Os livros com pó são os livros que resistiram ao tempo, por isso os considero importantes.

(Jaime Bulhosa)

¿!

Leitura de imagem (1) - Part...ilha

Sim...
são tantas as partes
que me cabem!

Mas bebem
do mesmo íntimo.

(Joelma B.)


Fonte da imagem: Garota Xilique


2012        2014


Reflexões de uma cascata


Reflections of a Waterfall I - Louise Nevelson (1982)


A água reflete formas inesgotáveis. A madeira reflete a água. O espelho reflete quem vê.

A escultura reflete as arquiteturas maia e asteca. A artista reflete os sonhos. A criação reflete os arquétipos. A assemblage reflete a multiplicidade. O monocromatismo reflete a unidade. A montagem de objetos do dia a dia reflete os puzzles. A composição reflete o cosmos. A parte reflete o todo.

Louise Nevelson reflete Picasso. Picasso reflete os mosaicos. O cubo reflete a estabilidade.

A cascata reflete o impermanente. A queda d’água reflete o movimento descendente. A montanha reflete o movimento ascendente. A cachoeira reflete a permanência da forma. A arte reflete a mutação da matéria. A mente reflete um composto ilusório. O espírito reflete reflexões.

Nossos Estudos Poéticos refletem as Reflexões de uma cascata. As Reflexões de uma cascata refletem Nossos Estudos Poéticos.


Refletimos na cúbica tessela desta postagem nossa visita à exposição Elles: Mulheres artistas na coleção do centro Pampidou no CCBB Rio em 14 de junho de 2013.


Fonte da imagem: blog soft power, activated


Língua materna


A palavra mãe nas línguas indo-europeias (A aventura das línguas, de Hans J. Störig, p. 42)


Nascemos fluentes apenas na língua das lágrimas. Choramos alheios a qualquer idioma. Vindos não sabendo sequer de onde, somos postos nesta Terra como estrangeiros. Até que sejamos recebidos por uma língua materna, até que dela recebamos um caráter próprio.

Ao longo da vida, nossa língua materna vai nos nutrir de visões sobre o mundo em que nos encontramos, quer seja esse mundo externo ou interno. Ela vai nos unir com sua sintaxe, dar forma às nossas ideias, pôr sentido em nossos sentimentos. Com ela poderemos diferenciar a parte do todo: conversaremos nossas próprias conversas, conheceremos nossos próprios conhecimentos, rezaremos nossas próprias rezas, riremos nossos próprios risos e continuaremos chorando nossos próprios choros.

Nascemos no Brasil, fomos recebidos pela língua portuguesa, tornamo-nos talvez os únicos herdeiros da saudade na Terra.

A língua portuguesa pertence à família das línguas indo-europeias. É filha do latim, língua-mãe da Europa. Não do latim dos poetas clássicos e do clero. Mas sim do latim dos soldados, mercadores, funcionários e colonos que chegaram à Lusitânia. Língua de caráter grave, o português cruzou o oceano e desenvolveu um caráter mais brando, o que levou Eça de Queiroz a dizer que, por aqui, fala-se português com açúcar.

Neste segundo domingo de maio de 2013, dia das mães, mês de Maria (a mãe do Verbo), Nossos Estudos Poéticos prestam homenagem à língua portuguesa – nossa língua materna, mãe de seus falantes, esposa de seus poetas. Que seus filhos respeitem suas regras, seus esposos sejam fiéis a seus votos, e que ambos lhe tenham amor e devoção.

E que a saudade, este sentimento que trazemos talvez de outras terras, esta palavra que um dia acabamos por herdar de nossa língua materna, nos saiba grave e doce.