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Sons e fonemas d’água: u

O crocodilo é a montaria do mantra vam na Índia, confundindo-se com Makara, a montaria de Varuna. Símbolo lunar, o crocodilo é representado pelos maias com o signo u na cabeça. Deste u nascem os nenúfares e os brotos de milho. Era cantado pelos gês como o encanto das águas.


3) O Mahabharata – No princípio


Eis que nasceu o mundo maravilhoso,
Num instante ele morre,
E num sopro se refaz.

Pela lentidão de nosso olho
E a rapidez da mão de Deus,
Nós acreditamos no mundo.


No princípio houve o amor. Amaldiçoado o que torna o amor inútil e bendito o que ama sem nunca ter visto. Mas, na história de guerreiros, até o deus do amor apresenta-se armado. Kama carrega o arco mais poderoso do mundo. Feito de cana-de-açúcar, sua corda é uma fileira de abelhas e suas flechas têm pontas de flor. Houve o amor de Ganga, a deusa do rio, pelo rei Bharata Santanu; houve o amor de Gandhari pelo rei cego Dhritarashtra; houve o amor de Pandu por Kunti, mãe de Karna, Arjuna, Bhima e Yudhishthira; houve o amor de Pandu por Madri, mãe de Nakula e Sahadeva; houve o amor de Draupadi, a nascida do fogo de Shiva, pelos seus cinco maridos Pandavas. Houve muitos outros amores. Talvez, em algum aspecto, o próprio Duryodhana tenha amado Draupadi. 

No princípio houve as armas. Foi ensinado a cada guerreiro o que eles podiam aprender. Ao melhor deles, revelaram-se as armas. Arjuna, o príncipe argênteo, permanecia com seu arco tão estirado que formava um círculo. Os olhos do melhor arqueiro de todo o mundo só viam o alvo, nada mais podiam descrever. Prometeu ao seu instrutor que sempre lutaria para vencer. O deus do fogo Agni entregou à Arjuna o arco Gandiva, duas aljavas de flechas que jamais se esgotavam e uma carruagem onde havia um disco de ferro para Krishna. Bhima, o de olhos cinzentos, arrojava uma pesada clava octogonal. Yudhishthira, o de olhos dourados, era o melhor auriga. Sahadeva, o que sabe o que é verdadeiro, e Nakula, o que tudo descobre através da amizade, eram os melhores espadachins.




No princípio houve a amizade entre Krishna e Arjuna. Narayana conhecera Nara há muito tempo, às margens de uma água que era leite. Arjuna lembrou-se da alta árvore de Narayana, mas a lembrança esvaeceu-se. Krishna sorriu e abraçou Arjuna. Todos os deuses vieram ver os dois – a alma de toda a vida e seu amigo de outrora. Indra, o senhor dos deuses, reconheceu que ninguém pode lutar contra eles dois juntos. Os deuses sumiram. Krishna riu: “Bharata, ESTE é o mundo. Não há nenhum outro!”. Não existe ninguém que possa compreender a diferença entre estes dois amigos.

No princípio houve a construção do palácio dos pandavas. Maya, o que trouxe para Arjuna a trombeta de búzio Devadatta, manteve-se oculto e invisível até terminar a construção. Sobre mil colunas de ouro, um edifício mágico de mármore e pérolas. Arjuna quis saber se o palácio era uma ilusão. Maya, o construtor, disse que não sabia. Krishna riu.

No princípio houve o desafio do jogo de dados no qual as naturezas das personagens se revelaram. A de Arjuna era falar claramente. A de Yudhishthira era não poder recusar um desafio. Ele não tinha medo: sucesso ou desventura viriam, jogando ou não. Duryodhana era o que era e seguia a sua própria natureza. Somente a insatisfação o conduzia à felicidade. Yudhishthira perdeu tudo que tinha para Duryodhana e os kurus. Perdeu o reino, os irmãos, perdeu a si mesmo e perdeu Draupadi. Foi quando ela pensou em Krishna. Antes que o pensamento estivesse plenamente formado, Krishna foi até Draupadi, que teve suas vestes arrancadas. Mas ela trajava outra por baixo. Esta também foi arrancada. Mas Draupadi trajava outra por baixo. Trinta mantos finos e coloridos espalharam-se pelo chão – eles nunca veriam Draupadi. O rei cego libertou Draupadi e seus maridos. Jogou-se o último lance. O perdedor seria banido para a floresta, obrigado a passar 12 anos em exílio. O ganhador ficaria com todo o reino, devolvendo a metade para o perdedor quando o exílio terminasse.

No princípio houve o exílio. Vidura descreveu a partida dos pandavas e de Draupadi para o rei cego. Arjuna ia por último, lançando docemente grãos de areia com as duas mãos, como haveria de lançar flechas na batalha. E porque era a primeira no coração de todos, Draupadi, linda como a lua cheia, caminhava à frente. Chorava e cobria o rosto com suas mãos de lótus. Lakshmi havia sido insultada em pessoa.

No princípio houve o consolo de Krishna: “Princesa Draupadi, permaneceremos na roda da vida que gira e gira. Agora somos reis, logo passamos uma existência na crista de uma folha de relva. Mas vivemos sempre. Nada pode deter a roda. Quando lhe sobrevém uma felicidade, você não hesita em acreditar que ela seja real? Então, não aceite o infortúnio sem pô-lo à prova. Nada sabemos; ele talvez desapareça, talvez nem seja verdadeiro”.




Fonte da imagem: circunferência e círculo


Fonemas d’água: vr

Vr é a raiz de Varuna, o senhor das águas. A raiz significa cobrir. Remete ao que está oculto, aos invólucros e envoltórios. O que está escondido também está protegido, guardado. A palavra cobrir cobre a palavra pario. As camadas são cobrir > cooperire > co + operire > operire = ob + pario. Pario significa parir, dar à luz, pôr, gerar.

Os versos de Varuna são as cordas que ele traz na mão. Elas simbolizam o seu poder de ligar e desligar, prender e libertar. Nos manuscritos maias, a chuva é simbolizada por cordas. Il tombe des cordes (caem cordas) é uma expressão francesa para indicar que chove muito.

Os versos do senhor das águas Faro são colares. Com o colar de ouro, ele ouve as palavras secretas e poderosas dos homens. Com o colar de cobre, ele ouve as de uso corrente.

Os colares de Faro e as cordas de Varuna são os nossos versos d’água.


O tremor

Quando a Terra volta a escrever seus profundos versos, um vento que não sopra derruba asas de pedra no chão. Quando a Terra abre seus profundos versos, ela nos une ainda mais. Os versos da Terra só destrõem, só engolem o que já é dela mesma.

Recitamos um trecho do Ramayana, ilustrando-o com uma imagem da ave Garuda antes do terremoto deste nosso outono:


Indra esteve escondido perto da Terra. Atirou um raio e atingiu o peito de Garuda. Com esse golpe, todo o conhecimento veio a Garuda. Ele ficou sabendo tudo o que já existira, tudo o que existia e tudo o que viria a existir; conheceu-o num instante.





Ora, em sinal de respeito pelos dias passados, quando aquele raio insuportável o atingiu, Garuda deixou cair uma pena. A pena de ouro revoluteou no ar, do tamanho de um escudo de guerra.


O Ramayana – William Buck


As expressões da água (em língua portuguesa)

Todas as coisas são iguais? As que são claras como água são como as que mudam da água para o vinho? E essas são como as que dão água na boca? As coisas que acontecem até debaixo d’água são as mesmas que vão por água abaixo?

¿!  Água deu, água o levou: dizemos sobre algo que ganhamos e perdemos facilmente;
¿!  Fazer água: começamos uma tarefa e nos perdemos em sua execução;
¿!  Sem dizer, água vai: de repente;
¿!  Passar muita água debaixo da ponte: transcorrer muito tempo;
¿!  Sujar a água que bebe: ser ingrato.

Que palavra, que símbolo? Que substância é essa? Ou seria que elemento? O que é a água para dar vida a tantas expressões linguísticas?


Ruínas

Saudações à queda. Saudações às folhas caídas, às árvores caídas, às torres caídas, aos castelos caídos, aos sonhos caídos, aos homens caídos. Saudações às ruínas, ao ideal por trás das ruínas. Saudações aos frutos, à colheita dos frutos. Saudações ao equilíbrio.

No espanhol, balbuceo. No hebraico, bilbel – confusão. No aramaico, Babilu – Portão de Deus – o local que os gregos denominavam Babilônia, onde se supõe ter sido erguida a Torre de Babel. Referência à linguagem sagrada, a torre nos fala de uma língua comum a todas as pessoas através dos tempos. A destruição da torre nos dá uma imagem da perda dessa linguagem. Já não nos entendemos, não falamos a mesma língua. Entre nós, já não há um mínimo de consenso. Cada um pensando somente em si mesmo e a considerar-se um Absoluto.

O povo cholula no México conta que a Pirâmide de Cholula foi erguida para servir de abrigo contra um futuro dilúvio. Mas uma confusão de línguas dispersou os construtores. Diz um trecho do Popol Vuh, um registro dos maias: “Aqui as línguas das tribos mudaram – sua fala ficou diferente. Tudo que ouviam e compreendiam ao partir de Tulán tornou-se diferente. [...] Nossa língua era uma quando partimos de Tulán. Ai! esquecemos nossa fala [...]”.

A queda da torre e a destruição da pirâmide simbolizam a mudança da unidade para a variedade. Uma mudança natural, que não pode deixar de ser. A realização dessas obras, incluindo o plano, a construção, a queda e a reconstrução, forma uma alegoria dos caminhos da evolução humana e dos seus frutos sobre a nossa vida e a nossa consciência. Se o outono nos fala da queda natural das folhas, necessária à renovação, o equinócio nos fala do equilíbrio que mantém de pé o que é sempre mantido.

Em nosso exercício de colagem, a Babel cai sobre a terra fazendo com que as aves levantem voo para o céu. As aves também têm a sua linguagem: a linguagem do canto, que é também a linguagem da poesia. Uma só linguagem. Com este exercício, ilustramos um poema da nossa língua portuguesa:




Ruínas

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.


Florbela Espanca em Livro se Soror Saudade (1923)




Calçadas musicais



A onda que invade todos os verões é o Carnaval. Uma onda de ansiedade atinge as pessoas nos dias que antecedem o feriado. E os blocos são uma longa série de ondas de euforia a tomar conta das ruas.

Aproveitamos, então, para falar de uma rua muito especial do carnavalesco bairro de Vila Isabel: o Boulevard 28 de setembro. A rua recebeu esse nome por ser a data em que a princesa Isabel assinou a lei do ventre livre, tornando livres filhos de escravos nascidos a partir daquele dia. O mosaico acima é parte das calçadas do Boulevard. Durante o carnaval, um colorido mosaico se sobrepõe ao preto e branco dessas ondas musicais – são os confetes dos foliões que por ali desfilam.

Em comemoração aos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena idealizou a obra – as Calçadas Musicais. Nelas encontramos partituras e cifras de importantes canções da música popular brasileira. Foi o músico Almirante, morador da Vila, quem selecionou o repertório a ser tesselado. O maestro Carioca simplificou as partituras. O projeto decorativo ficou por conta do arquiteto Hugo Ribeiro. E os anônimos calceteiros concretizaram a ideia com as conhecidas pedras portuguesas.

Símbolos do bairro, as Calçadas Musicais tesselam as seguintes canções:

¿!  Cidade Maravilhosa - André Filho (na Praça Maracanã)
¿!  Jura - Sinhô
¿!  Renascer das cinzas - Martinho da Vila (na Praça Barão de Drummond)

Vila Isabel é o berço dos compositores Noel Rosa, João de Barro e Martinho da Vila e é também o berço da escola de samba Unidos de Vila Isabel. Em 1988, ano da promulgação da nossa atual constituição, a escola foi campeã do carnaval com o enredo Kizomba – Festa da Raça. O enredo foi idealizado por Martinho da Vila, tendo Rodolpho de Souza, Jonas e Luiz Carlos da Vila como compositores do samba-enredo. “Anastácia não se deixou escravizar”, “O pagode é o partido popular” e “Esta kizomba é nossa constituição” são partes da letra do samba.

Os versos de outros carnavais são cantarolados nos blocos de rua ainda hoje. Uma onda de nostalgia também invade a festa das raças. 


Fonte da imagem: Rio eu te amo


Jogos Vorazes – O tordo e a distopia



Foi no ano passado, na semana do Natal. Era noite de segunda-feira. O shopping estava cheio, havia fila na porta de uma loja de chinelos, as pessoas carregavam sacolas e bolsas esbarrando umas nas outras. Uma das consumidoras reclamava de ter sido roubada, de ter ficado sem dinheiro, cartão, documento, chave... O cinema estava mais vazio que de costume. Foi quando assistimos à primeira parte de Jogos Vorazes – A Esperança, adaptação para o cinema do livro de Suzanne Collins.


Quem nos apresentou ao livro foi a mesma menina que nos mostrou Lições de Cousas. Na época, achamos interessante o fato de a ideia da autora ter surgido enquanto ela zapeava canais de tevê. O reality show em uma emissora e as cenas da Guerra do Iraque em outra formaram a téssera que deu origem à trilogia Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança. O link foi o mito de Teseu. Anos depois, uma amiga da tal menina sugeriu que fôssemos ver os filmes.


Vimos que os Jogos Vorazes (Hunger Games), realizados pela Capital de Panem, são um reality show no qual jovens tributos lutam até que somente um sobreviva em uma alegórica arena. Cada distrito de Panem é representado por um casal de tributos. A maioria dos participantes é escolhida por sorteio em um evento chamado Colheita. Nossas tésseras aparecem no livro para nomear o pequeno suprimento anual de grãos e óleo fornecido para uma pessoa em troca de que seu nome seja novamente colocado na Colheita. A fim de poupar a irmã sorteada, uma jovem apresenta-se como voluntária – a primeira voluntária do distrito 12. Trata-se de Katniss, a personagem principal. Sempre supreendendo os idealizadores, os patrocinadores e a audiência dos jogos, ela é a vencedora, juntamente com seu par. Quebrando as regras, a arqueira vai se transformando em símbolo. No início, da própria Capital. Mas, ao longo da trama, Katniss acaba se revelando o símbolo de uma guerra de resistência ao poder da Capital.


Em entrevista, Suzanne Collins diz que 1984 e Admirável Mundo Novo estão entre as influências diretas da trilogia por causa dos aspectos distópicos. Em discurso no parlamento britânico, John Stuart Mill foi o primeiro a fazer um uso conhecido do termo distopia: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável". Considerando a formação da palavra, utopia significa lugar nenhum e distopia, lugar ruim. As ficções distópicas estão intimamente linkadas com as sociedades em que elas são criadas. Vemos em Jogos Vorazes não só fome, mas medo, crueldade e tirania de governo, espetacularização e glamorização da violência, propaganda de guerra, juventude competitiva e uso de tecnologia a serviço de tudo isso. Seguem alguns exemplos de distopia na literatura e no cinema:

¿!  Totalitarista: 1984 (1949), V de Vingança (2005)
¿!  Corporativista: Robocop (1987), Clube da Luta (1999), Rollerball (1975)
¿!  Tecnológica: Blade Runner (1982), Divergente (trilogia), Admirável Mundo Novo
¿!  Ambiental: Nausicaä do Vale do Vento (1984)
¿!  Generalizada: La Belle Verte (1994)
¿!  Cybernética: Minority Report (2002), Matrix (1999)
¿!  Cyberpunk: Aachi & Ssipak, Akira (1988), Avalon, Blade Runner, eXistenZ, Ghost In The Shell (1994), Johnny Mnemonic, Looper, Metropolis, Natural City, Nirvana, Pandorum, Renaissance, Repo Men, RoboCop, Sleep Dealer, O Exterminador do Futuro, Videodrome, Matrix, Surrogates, WALL-E
¿!  Consumista: Clube da Luta
¿!  Pandêmica: 12 Macacos (1995), Filhos da Esperança (2006), Ensaio sobre acegueira (2008)
¿!  Moral: Beleza Americana (1999), Cisne Negro (2010)
¿!  Religiosa: O livro de Eli (2010)
¿!  Privacidade: Tokyo! (2008)
¿!  Misógena: A Decadência de uma Espécie (1990)
¿!  Militar: Equilibrium
¿!  Criminosa: A Laranja Mecânica (1971), Fuga de Nova York
¿!  Superpopulação: Battle Royale
¿!  Pós-apocalíptica: Mad Max (1979), O Planeta dos Macacos (1968), A Estrada
¿!  Conspiração: Divergente (trilogia)
¿!  Financeira: O Preço do Amanhã
¿!  Alienígena: Guerra dos Mundos (1953)
¿!  Cômica: Brazil (1985), Idiocracy (2006)


O que nos interessou realmente no eufemístico Jogos Vorazes – A Esperança (título traduzido para o Brasil) ou no denotativo Jogos da Fome – A Revolta (título do filme em Portugal) foi o Mockingjay. Jabberjays são pássaros criados artificialmente pela Capital para memorizar e repetir conversas humanas. A Capital os abandonou na natureza quando os rebeldes descobriram a estratégia. Mockingbird é o verdadeiro tordo, pássaro típico dos EUA cujo canto é a combinação do canto de outras aves. Mockingjay (também traduzido como Tordo, daí a confusão) é o pássaro originário do cruzamento dos machos Jabberjays com as fêmeas Mockingbirds. Os Mockingjays são capazes de reproduzir as melodias humanas. No início, o pássaro é apenas um broche. Depois, um amuleto. Transforma-se numa roupa, num gesto, numa canção, numa armadura, num símbolo. Consciente e espontaneamente construído ao mesmo tempo, corporifica-se na personagem Katniss, enquanto se enriquece de significados. Inspira e encoraja os personagens da ficção para a revolução; dá liberdade de criação à autora; reforça o marketing do filme. Teria o tordo a função de identificar a localização simbólica da distópica Panem?



Fonte das imagens: Sobresaga


Verão



Saudações a tudo que se manifesta por ondas.

Saudações aos que fiam, aos que tecem, aos que cantam e aos que nadam como as Nereidas, as personificações das ondas. Saudações aos que apostam na mega da virada, aos que jogam na bolsa, aos que trabalham com moda, aos que não têm emprego fixo, aos que não têm salário fixo, aos que surfam, aos que vivem seus altos e baixos, cristas e vales, aos que vivem entre o nascimento e a morte.

Saudações aos contrastes, ao preto e branco. Saudações aos que mergulham nas escuras águas profundas e aos que flutuam na clara espuma da superfície.

Saudações à passividade, aos que se deixam levar ao sabor das ondas.

Saudações aos que conhecem a força que ergue as ondas com violência. Aos que conhecem a força da inércia.

Saudações às ondas do verão, às ondas do mar, às ondas de calor, às ondas do calçadão. Conheçamos a frequência do que se move periodicamente.

Saudações à fonte de tudo que se manifesta por ondas. 
Equinócio de outono



No jardim da Casa da Flôr




a rosa dos ventos, a rosa de ouro, a Rosa de Hiroshima, a Rosa Cândida, a rosa-cruz, a rosa mística, o lótus, a hortênsia, a anêmona, o narciso, o lírio, o girassol vítreo, a taça de vida, a chuva, o orvalho, a alma, o coração, o amor, uma roda, uma rosácea gótica, uma mandala, uma pedra de roseta, de a a ksha, do alfa ao ômega, de A a Z: um rosário


Livro das 1001 Noites ou O Livro do Véu de Ísis

O Livro das Mil e Uma Noites é chamado de O Livro do Véu de Ísis por Roso de Luna, autor de O Livro que Mata a Morte.

Roso de Luna dedicou algumas linhas de seu livro à poesia. Ele nos apresenta a poesia como uma irmã gêmea da matemática. Ambas idealizam, embelezam e elevam analogicamente as realidades concretas que integram nossa vida. A poesia segue a lei do símbolo e da analogia. O simbolismo sendo para ele a ciência das ciências, pois todo símbolo é uma ideia corpórea em que jaz o visível terreno com o invisível divino.

O véu de Ísis simbolizaria a morte separando-nos das delícias da imortalidade. Roso de Luna lembra que o número 10 (presente em ordem direta e invertida no número 1001) é o hieróglifo de Ísis.

Sahrazad vai geometrizando a vida e a morte com sua narrativa. Linkando uma história a outra através de seus personagens dizentes, ela tece uma espiral de palavras, formando curvas em graus maiores ou menores, dependendo do entendimento do seu ouvinte. Como escreveu o próprio tradutor da versão que lemos:

A experiência é pensada como algo que se comunica e cuja possibilidade de transmissão é dada pela repetição: são estruturas semelhantes que se reproduzem incessantemente, sem que no entanto possam ser reduzidas, em seu funcionamento no interior de determinado quadro narrativo mais amplo, a um processo previsível e automático, visto que a própria dinâmica interna da narrativa determina o resultado das sucessivas histórias exemplares que se vão sucedendo.

Acrescentamos com Roso de Luna que essas estruturas formam espirais e arabescos, ciclos que nunca se fecham.

Na hora que precede a alvorada, Sahrazad para de falar. O homem começa a afastar-se do mundo do sonho, penetrando em outros ainda mais doces. Antes do amanhecer é a hora da iniciação. Quando já não mais precisamos entregar nossos olhos, ouvidos e coração às palavras da narradora, pois nos damos conta de que nós mesmos criamos e recriamos a história.


“Ó rei do tempo, esse círculo maior é o seu reino, e o círculo menor é o meu reino”; deu alguns passos, entrou no círculo menor e disse: “Se o seu reino, rei do tempo, não me cabe, morarei no meu reino”, e mal entrou no círculo menor desapareceu das vistas dos presentes” 




Vídeo Versos d'água


Um moinho e várias voltas. Um sino e vários toques. Uma linha e várias medidas. Um rio e vários dias. Um movimento e vários ritmos. Um verso e vários pés. Um poema e vários leitores, vários ouvintes. Uma poesia e vários poetas. Um blogue e vários posts. Um mosaico e várias tesselas. Um todo e várias partes. Um fluido e várias linkagens. Uma língua e vários versos d’água, vários.






Versos de cansaço: sítio de busca

Buscas alfabetos e idiomas onde tudo é símbolo;
e partituras onde a música é a chuva e o rio.
Buscas inscrições tumulares onde o fumo das piras apaga tudo:
estás no lugar errado ou não sabes ainda o que procuras?


Versos de descanso

...a poesia é o uróboro da língua.


Um carro a menos


Elas estão em todos os lugares. Estão tanto na ciclovia e na rua, quanto no corredor de ônibus, nas calçadas, nos porta-malas dos carros estacionados também nas calçadas, na contramão, nas vitrines, nas propagandas de banco e refrigerante, nas camisetas da moda, nas campanhas em defesa do meio ambiente e por um mundo melhor. Elas estão no pensamento geral e na conscientização. Elas – as Bicicletas. Ou talvez seria melhor dizer eles – os carros a menos.

Um carro a menos. Seria esse um epíteto, uma perífrase para bicicleta? Ou seria apenas um eufemismo, já que um carro a menos na rua tem significado uma bike a mais na calçada (inclusive em bairros em que há ciclovia)? Essa conta não parece nada vantajosa  para o pedestre, parece apenas trocar seis por meia dúzia.

Os carros não respeitam as bicicletas? Não, em sua maioria não respeitam mesmo. Mas o desrespeito do motorista de carro não pode justificar o desrespeito do ciclista que circula na calçada e reproduz o mesmo desrespeito, transferindo o problema para o pedestre.

As bicicletas nas calçadas não solucionam os problemas do trânsito, não solucionam os problemas de poluição, não solucionam os problemas da cidade. As bicicletas nas calçadas solucionam os problemas imediatos da pessoa que está na bicicleta, que chega mais rápido aonde quer pagando menos. As bicicletas nas calçadas perpetuam os problemas da cidade, solucionados apenas para uma minoria que é capaz de resolver seus próprios problemas sozinha, às custas do restante da população.  As bicicletas nas calçadas criam novos problemas.

É essa pessoa da bicicleta também que pode usufruir do privilégio do que infelizmente acabou por se tornar um privilégio – a vida simples. Um carro a menos tem sido apenas um eufemismo, uma tentativa de suavizar o fato de que as bicicletas estão circulando nas calçadas, uma figura de linguagem para tornar mais palatável a existência de um privilégio. A vida simples, por sua vez, tem revelado a força de sua téssera – a ostentação. Mas tanto faz, vida simples e ostentação não passam de consumo embrulhado no papel de presente do discurso conscientizado.

Como pode um problema coletivo ter uma solução individual? Deixemos os discursos, vamos ao símbolo. O símbolo fala. A bicicleta, como símbolo, fala de autonomia e de esforço individual, mas fala também de equilíbrio, de um movimento sempre para frente, de evolução. O que nós temos sido capazes de ouvir desse símbolo?


Os gêneros literários – a Conclusão

Os gêneros literários, a rigor, são realidades arquetípicas: eles enquadram e orientam a multiplicidade de fatos na história literária, sem nunca estarem manifestos em toda a sua pureza, e também sem nunca desaparecerem totalmente, não importa o quão irreconhecível eles podem estar por trás da multidão geralmente confusa de fatos particulares e variações.

A dificuldade sentida pelo homem contemporâneo em compreender os gêneros e reconhecê-los em meio à confusão de dados empíricos é exatamente a mesma que ele tem de encontrar qualquer significado arquetípico nos fatos da vida diária que foram totalmente banalizados e coisificados, cortados do reino dos arquétipos pela fumaça e pelo barulho da instantaneidade comercial e industrial, bem como pelas distorções poluentes que a indústria de comunicação de massa criminalmente introduz no mundo das imagens e dos símbolos.

A dificuldade em ver está no sujeito e não no objeto.


(Livro Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos, de Olavo de Carvalho)


Começa em Os gêneros literários – a Questão


Descanso


Uróboro: disco de bronze de Bénin


Uróboro – simboliza um ciclo de evolução encerrado nela mesma. Esse símbolo contém ao mesmo tempo as ideias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, em consequência, de eterno retorno. A forma circular da imagem sugere ainda outra interpretação: a união do mundo ctônico (figurado pela serpente) e do mundo celeste (figurado pelo círculo). Significa a união de dois princípios opostos. A serpente que morde a própria cauda, que não pára de girar sobre si mesma, que se encerra no seu próprio ciclo, evoca a roda das existências, como que condenada a jamais escapar de seu ciclo para se elevar a um nível superior: simboliza então o perpétuo retorno, o círculo indefinido dos renascimentos, a repetição contínua, que trai a predominância de um fundamental impulso de morte. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Descanso – 1) Ato ou efeito de descansar. 2) Sossego, tranquilidade, paz. 3) Ócio, folga, vagar. 4) Pachorra, lentidão. 5) Apoio, proteção. 6) Alívio, consolo. 7) Sono. 8) Objeto sobre o qual outro assenta ou se apoia. 9) Forquilha (vara bifurcada na qual descansa o braço do andor/ forquilhado = bifurcado). 10) Ressalto existente no gatilho, o qual oferece resistência ao dedo do atirador durante o acionamento do disparo. 11) Nas escadas de lanços compridos, patamar. 12) Habitação, morada. Descansar – 1) Livrar de fadiga. 2) Livrar de receio. 3) Diminuir, suavizar. 4) Dar pausa a. 5) Fixar, fitar. 6) Basear-se, fundar-se. 7) Acreditar, confiar, crer. 8) Estar pousado, jazer. 9) Ficar de pousio (a terra). 10) Dormir. 11) Estar sepultado, repousar eternamente. 12) Morrer. 13) Dar à luz, parir. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Descanso – Des . cans - o, de cansar. (Adaptado do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa)

Des – de origem controvertida; da junção das preposições latinas de e ex, ou da romanização do prefixo dis. Prefixo = separação, transformação, intensidade, ação contrária, negação, privação. De – do latim de, prefixo = movimento de cima para baixo, origem, afastamento, extração, intensidade, significação contrária. Ex – do latim e, prefixo = movimento para fora, separação, transformação, intensidade, ausência, negação. (Adaptado do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

De – vindo; descendente de; saído de; sobre; durante; no meio de; composto de; em lugar de; por causa, por amor de; tocante a; conforme; contra. E – de (indicando de um estado ao outro ou a matéria de que uma coisa é feita ou dependência); com (indicando mistura de coisas); do número de; a começar de, depois de; de harmonia com; em consequência. (Adaptado do Dicionário Latino-Português).

Descanso – Repouso, desistência, refreio, chegada, férias, vírgula, fim, ocaso [em cessação]. Amparo, alicerce, terra firme, pilar, pé, poste, bastão, umbral, viga-mestra, larva, pedra angular, coluna vertebral, tripé, trono, leito, rede, colo [em suporte]. Quietação, placidez, fleuma, serenidade, inércia, apatia, paralisia, catalepsia, sedentarismo, silêncio, ponto, pousada, porto, meta, estátua, rochedo [em imobilidade]. Marasmo, enferrujamento, remanso, falta de trabalho, dolce far niente, preguiça, boêmia, entorpecimento, languidez, quebranto, bocejo, letargia, coma, transe, vencido [em inatividade]. Ocasião, lazer, fuga, recreio, tempo desocupado [em ócio]. Fôlego, respiro, trégua, licença, solidão, recolhimento, pouso, retiro, pousio [em repouso]. Desafogo, desopressão, frescor, oásis, encorajamento, animação, néctar, bálsamo [em alívio]. Descansar – encriptar, soterrar, dar um corpo à terra, tocar a finados, dobrarem (os sinos), orar pela alma de, cremar, exumar, perturbar o repouso dos mortos [em enterro]. (Adaptado do Dicionário Analógico)

Repouso – O repouso depois da criação não se refere a um estado estático; não significa não fazer nada nem interromper um processo de desenvolvimento. O repouso é uma pausa criadora, que inaugura um novo aspecto. Este repouso é uma transferência de energia para a criação: a ascensão a um novo nível. O início tem relação com o fim, a perfeição é alcançada, o ciclo começa. Começo e fim se reúnem e a energia cósmica circula na totalidade. Encontramos aqui o tema do conceito circular. Tem essa significação a imagem da serpente que morde sua própria cauda, Uróboro. (Adaptado do Dicionário de Símbolos)

Descanso para eles:

Tchékhov/ Grupo Galpão – Tio Vânia


Fonte da imagem: Dicionário de Símbolos