Versos de cansaço: a fartura e o enfarto

Estamos fartos e a Terra, desnutrida
Estamos anêmicos e a Terra, desanimada

Abrimos versos que mais parecem covas
e o sangue sobre a Terra derramado
não contém o dissabor de sequer uma lágrima

Estamos anêmicos e a Terra, desnutrida
Estamos fartos e a Terra, desanimada

Alimentos já tantas vezes congelados e descongelados
continentes já tantas vezes congelados e descongelados
cristais de vírus e de homens aguardam o Dia do Degelo

Avança o mar e avançam as pesquisas
enquanto a neuropsicologia segue habituando os bebês

Avança o mar e avançam as pesquisas
enquanto a humanidade segue atingindo uma idade avançada

Avança o mar e avançam as pesquisas
enquanto os corações enfartados, clinicamente mortos,
contêm ainda uma gota.


O cansaço e a moenda

Moídos, triturados todos os nossos corpos, todos os nossos corpos granulados reduzidos a pó. Vencidos pelo cansaço, desistimos.


O cansaço e o desgaste

Gastos, enfraquecidos, curtidos, diminuímos, humilhamo-nos, perdemo-nos com o atrito da vida e do tempo que só passam. Menores, diminutos, mínimos, micros.