Três questões poéticas sobre a violência

1. das balas

Faz poesia
objeto visual
o policial
na delegacia

quando
entre armas
presos e imprensa
crack e maconha
êxtase e cocaína

escreve as letras
e os números
do batalhão
com a munição
apreendida

com as balas
que não foram
atiradas

com as balas
que não foram
perdidas?


2. dos alvos

Quem leva as balas perdidas
aos alvos do pretendido acaso?


3. da contagem dos mortos

Com mãos, lápis e papel, calculadora,

Com adição, multiplicação, potenciação,

Com unidades, dezenas, centenas, milhares, milhões, infinitos,

Com atestado de óbito, auxílio funerário, pedido de pensão,

Com viúvas, órfãos, mães, pais,

Com as mãos, a cabeça, o coração,

Com que instrumentos, que pesos e medidas,

Com que sistemas e escalas, que estatísticas

se faz a violenta contagem dos mortos?


A Essência da Poesia - Estudos & Ensaios

Para Eliot a poesia tem uma função geral e várias funções específicas.

No princípio era o verbo e a poesia tinha funções mágicas e ritualísticas (ainda teria atualmente?). Mas o verbo se fez carne e a poesia passou a ser um veículo de informação, um meio para fornecer instrução moral. Além das funções religiosa e didática, a poesia tem ainda outras funções específicas. A poesia satírica causa hilaridade, a filosófica é analítica...

Já a função geral da poesia seria a de comunicar alguma experiência nova, algum entendimento diferente do familiar, algum sentimento para o qual ainda não temos palavras de uso corrente. A poesia ampliaria nossa consciência ou apuraria nossa sensibilidade.

O novo... Interessante que hoje temos tanto desejo pelo novo, pela novidade, pela notícia, pelo lançamento e tão pouco desejo pela poesia. Se ninguém lê poesia, para que escrevê-la? É a poesia atual que não consegue captar o novo ou o novo atual que, na verdade, envelheceu precocemente? Perdeu-se a afinidade entre o novo e a poesia? É este o elo perdido? O elo perdido é a palavra perdida?

Alguns livros e alguns posts depois, penso estar me afastando da minha pergunta mas para que serve a poesia?. Deixo-a não em companhia de uma resposta, mas em companhia de outra pergunta, feita pelo próprio Eliot: “por que não podemos parar de escrever poesia?”. Segundo o poeta e crítico, porque as pessoas vivenciam o mundo de formas diferentes em diferentes épocas e lugares.

Podemos nos perguntar para que serve a poesia. Não sei se encontraremos uma resposta definitiva. O que não podemos fazer é parar de escrevê-la enquanto nos perguntamos ou parar de nos perguntar enquanto a escrevemos, pois isso seria perder uma das formas de nos encontrarmos no mundo.


Origem de Tudo


                                 a meu pai

1.
teu instinto é instinto meu
tua vida é vida em mim
tua origem origina-me

buscar no meu corpo
a tua tatuagem
descobrir a escrita primitiva
         e os ecos ancestrais
antes e depois de pura reflexão
         e alguns espelhamentos

eu e tu – tu e eu
simples como pinturas rupestres
e claro como verdadeiras intuições
nossa herança é medida
do que se pode criar
e passado mede futuro porvir

tua origem origina-me
tua vida é vida em mim
teu instinto é instinto meu.


2.
originalidade exatamente imprecisa

voltar à tua lei até ser livre
até que ser livre seja a lei


tudo
que de ti caiu nesta vida
         – os cabelos, lágrimas, cansaço –
vive e revive ainda
ainda e ainda onde estou.